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O Lobo e Cordeiro – Capítulo 11 – Midríase

 

O Lobo e Cordeiro
Romance 2015
WEB MINISSERIE
Escrito por Alisson Baxter
Exibida pela TVN : 2017

Capítulo 11
~Midríase~

 

Novamente gostaria de pedir desculpas a meus leitores. Agora finalizei o semestre na faculdade, logo este atraso não irá mais se repetir. Obrigada pela compreensão. Espero que gostem do capítulo.

No Sítio em Ribeirão Preto…

Otávio se aproxima do espelho num tom magistral e esboça um sorriso de satisfação ao ver seu reflexo.
-Agora cada um no seu devido lugar, eu como James Soltellinos e você como…
Ele se volta para seu irmão desmaiado no chão e dispara.
-…como morto!
Ele anda pela casa debaixo das roupas do rapaz e tenta imitá-lo, caçoando dele.
-Como que você faz mesmo? Ah sim! Andar arrastado, levemente corcunda, chamando pelo Martim.
O mau-caráter avista a embalagem de um medicamento em cima de uma bancada a poucos metros.
-Como eu pude me esquecer? Desperado. Louco. Surtado…
E cai em gargalhadas no sofá. Rogério entra e ele leva um susto achando que podia ser Martim.
Close no rosto de Otávio
-Caraleo! Você quase me mata de susto.
Rogério observa o mocinho caído aos seus pés e sente dó. Otávio pressenti.
-Não vai amarelar agora hein? Cúmplice, você já é. Não tem como voltar atrás. É a minha sobrevivência, nossa sobrevivência.
Rogério ficou estacado diante da cena, não sabia como reagir. Otávio provocou.
-Vai ficar aí plantado que nem dois de pau? Trata de me ajudar a arrastar esse corpo para o carro. Martim não pode nem sonhar que você esteve aqui.

E mesmo não concordando com aquilo, Rogério ajuda a levar o corpo do jovem até o carro.

A chuva estava forte quando James(Otávio) bate a porta de trás com estrépido.
-Agora é com você. Arrasta esse carro para algum descampado nas redondezas e trata de enterrar este feliz. Ele não vai sofrer nada. Eu te garanto. Nunca vão achar o corpo. E nosso problema tá para sempre resolvido. Agora vai, vai antes que Martim chegue.

Rogério o encara com um semblante nitidamente resistente. Hesita.
-Que pessoa você se transformou, Otávio? Frio. Sem sentimentos. Um assassino. Eu não acredito que estou fazendo parte disso.

James(Otávio)explode com ele.
-Pois está fazendo! Está metido até o pescoço! Anda logo, para de drama! Seja homem uma vez na sua vida,Roger. É pela nossa sobrevivência. Ou você prefere ser morto pelo tráfico? Se quiser morrer, pode deixar, eu dou um jeito nisso aí sozinho e…

Rogério não o deixa terminar.
-Eu vou, mas saiba que eu não sou um assassino, esse jovem não tem culpa de nada, ele não tem culpa de ter uma pessoa tão horrorosa como irmão.

James(Otávio) eleva os olhos
-Tá…tá. Depois você me xinga. Depois deixo você me xingar a vontade. Agora vai! Anda logo! Mete o pé neste acelerador! Se o Martim chegar e ver o garoto aí, é capaz de matar nós dois e ainda fazer churrasquinho.

O garotinho de dois anos começa a chorar. James(Otávio) esmurra a porta.
-Só me faltava essa. A mamãe já vai querido. Eles tinham que arrumar filho logo agora? Não tô afim de servir papinha.

Ele sobe para cuidar do menino e observa da varanda do quarto com o pequeno no colo, Rogério dar ré com o carro e sumir na estrada.

***

Na Pousada em Brodowisk…

Carlos anda de um lado para o outro no quarto com a foto nas mãos.
-É ele, Berta! Impossível esquecer a face desse monstro! Assassino desgraçado! Sanguinário filha da puta!

Berta estava incrédula.
-Eu não sei o que dizer. Eu tô espantada com toda essa história. Eu estive com um serial killer de perto, a poucos centímetros de mim, que situação maluca.

Senhora Bennit entra no quarto.
-Ouvi gritos! Está tudo bem por aqui?

Carlos entrega a foto para mulher e aponta.
-Esse cara aqui, dona Bennit! Este cara! Que tá sorrindo na foto ao lado da sua neta, ele é o assassino!

A idosa tem um piripaque e desmaia no corredor. Berta corre a seu encontro.

-Vovó!

Carlos observa tudo ainda tentando recuperar o fôlego.

***

Rogério busina desesperado com o tráfego que o impedia de chegar ao centro da cidade. Ele olha para trás e percebe que o rapaz ainda está desmaiado.

-Cada furada que eu me meto. Eu nem sei se vou ter coragem de fazer isso contigo James.

Ele se volta para o volante e não percebe que na outra mão, seguindo para os sítios, Martim acabara de passar e estranhara tê-lo visto ali. Seria ele mesmo? O assassino tentava enxergar melhor pelo temporal, no entanto, não tinha certeza.

***

O delegado Lucas estaciona sua viatura e cumprimenta Melina quando a vê sair da penitenciária. Ele olha em seu celular a última mensagem que Otávio o havia mandado e sorri meio apaixonado. Ele entra em sua sala e chama Ulisses. O homem não termina a chegar.
-Chamou Delegado Lucas?
Lucas confirma.
-Sim. Hoje o dia foi corrido. Tive que ajudar uma amiga lá na unidade 9 da delegacia da mulher, um sujeito lá pegou numa arma. Agora está preso! Vamos iniciar a formalização do inquérito policial do caso da empregada para mandar ao ministério público, preciso ainda ouvir algumas testemunhas. Fazemos isso durante esta próxima semana.

Ulisses senta na posição de escrivão e começa a escrever quando Lucas palpa a blusa procurando sua chave, ele se levanta e olha em seu armário, nada. Depois, olha no chaveiro, nada. Volta a sua bancada e tem o insight de jogar o conteúdo do porta-objeto em cima da mesa, encontrando sua chave, ele abre a gaveta para tomar posse do pen-drive e se desespera ao palpar e não encontrar.
-Ué? Onde tá esse pen-drive?
Ele apalpa mais uma vez até o fundo e retira uma por uma das gavetas, olhando o fundo da bancada para ver se não tinha caído.
-Tá tudo bem aí, Delegado Lucas?
Lucas levanta preocupado.
-Eu perdi! Perdi o pen-drive com as provas para pedir a abertura do inquérito!

Ulisses fica passado.

***

No Sítio em Ribeirão Preto...

Martim chega em casa e chama pelo amado, James(Otávio) sai do quarto chamando por ele, de volta, nesse momento, o menino gruda em sua perna chorando, o vilão perde a paciência e dá um safanão jogando no chão.
-Me deixa ir, peste!
Ele desce as escadas. Martim vai a seu encontro.
-Comprei, amor. Aqui está o antigripal e anti-térmico!
James(Otávio) dá um furo no momento que Martim o olha com carinho
-Para quê esses medicamentos todos?
Martim estranha
-Como para quê, mor? Para o menino doente!
O garotinho aparece no alto da escada e Martim se preocupa com ele cair. James(Otávio) bufa de ódio com aquele zelo todo observando o quarentão subir.

***
Mais tarde…

Rogério chega a um descampado. Ao fundo, observa-se um pequeno penhasco e depois dele um riacho turbulento. O temporal cessara. Em silêncio, pensativo em alguns minutos, ele se decide. Abre o porta-mala e retira as ferramentas, a poucos metros do carro, começa a cavar.

***

Doutor Edward afere a pressão de Senhora Bennit quando a anciã acorda. Berta vibra.
-Vovó! Ai que bom que a senhora tá bem!
Carlos se aproxima e ela solta um olhar furioso para ele.

Depois que o médico sai e ela fecha as portas do quarto para avó dormir, ela repreende Carlos.
-Como você dá uma notícia para ela assim? Ela já está com quase 80 anos.

Carlos pede desculpa.

-E agora que sabemos dessa informação? O que vamos fazer?

Berta expõe.
-Eu estava pensando aqui…As filmagens do prédio da sua cunhada Alexandra devem ter registrado o momento que ele retirou os corpos de lá, inclusive o seu.

Carlos dá sua opinião
-Sim.

Berta analisa.
-Mas ele deve ter dado uma boa grana para quem o viu, não é possível que ele saiu de lá carregando os corpos e ninguém viu nada.

Carlos questiona
-Onde você quer chegar?

Berta conclui
-Que se quisermos as gravações, vamos precisar usar as mesmas armas que ele e subornar as pessoas…

Close alternado. Berta determinada. Carlos convencido.

***

Rogério termina de cavar um buraco pequeno, mas o suficiente para caber James. Ele se volta para o carro e enxuga a testa, um pouco transpirado. Pensa mais uma vez e então abre a porta de trás, retirando o corpo do jovem, com dificuldade, cambaleia um pouco e se encaminha para a fossa, onde o deposita delicadamente. Começa a se emocionar.
-Espero que um dia você possa me perdoar por isso, James. Eu nunca quis isso.
Daqui a alguns minutos, ele o deixaria ali, soterrado, pegaria o volante e iria para um lugar distante até esse atentado dos traficantes passar, talvez até vendesse seu apartamento, iria recomeçar a sua vida de algum jeito e Otávio também ao lado do homem que estava apaixonado, mas e James? E o pobre rapaz que pelo que soube enfrentara a vida toda uma depressão forte, internação intensiva e agora morreria assim enterrado? Como ele poderia cometer uma injustiça dessas? Era uma vida e ainda mais uma vida sofrida que só agora começava a ter paz. Chorou. Mas não tinha volta, era a única saída, única saída possível, ergueu observando o corpo e jogou o primeiro punhado de terra com a pá, começou…até que o garoto despertou.

James gritou alto jogando a terra para fora, começou tossir incessantemente. A voz se misturava a expectoração
-SOCORRO!

Rogério parou um instante. Desesperado com a possibilidade de ser preso, Rogério começou a jogar mais terra, James conseguiu se levantar
-PARA! PARA!

Escapou da cova, desatou a correr ainda cegado pela fumaça da terra. Instrumental de ação. Rogério correu atrás,o mocinho se apavorou, tropeçando na ponta do penhasco e caindo no rio em altas correntezas.
-SOCO…
E engoliu a água, afogando-se. Rogério observava tudo assustado. O jovem se debatia implorando pela vida. Não era para ele morrer daquele jeito sofrendo. O garoto sumiu na escuridão. Sentiu um remorso, um remorso grande o invadiu, caminhou em lágrimas para o carro, jogou a pá no banco traseiro. Encarou o monstro que ele era no retrovisor torto. Ligou o motor e partiu.

***
No outro dia pela manhã…

Melina acorda com Luquinhas e George invadindo seu quarto. Ela tira o black-out e sorri para eles.
-Meus tesouros. Amo tanto vocês, filhos.

Ela desce para a cozinha com a promessa de prepará-los um café da manhã quando se recorda de Fortunato de gravata ali, todo bobão, correndo atrás de James e os outros meninos e fazendo suas panquecas voadoras. Como ele fazia falta. Era único. Ela tenta fazer: mel, um pouco de farinha, compressor, círculo, círculo, bota para o fogo, agora é só jogar para cima.
-Já tá saindo, crianças! Um, dois, três…
Ela vai jogar para o alto para virar a panqueca, mas o alimento fica grudado no teto.
-Ai não…
As crianças gargalham alto.
-Calma crianças…mamãe vai resolver isso!
Ela vai até a despensa e sobe numa pequena escadinha, tenta tirar com a faca, mas não sai.
-Tá muito grudado
Ela tenta com uma espátula de bolo, tirar a porra da panqueca no teto, mas não consegue.
-Mas essa coisa não sai. Sai, merda!
As crianças riem cada vez mais ao verem pendurada no ar, balançando as pernas, puta da vida, puxando a panqueca, até que ela tropeça na escadinha e vai ao chão.
Assim que levanta a cabeça a panqueca cai em cima dela, lambuzando seu rosto de mel inteiro. As crianças estão quase mortas de tanto rir.

Um homem foi entrando pelos fundos com uma mochila nas costas. Ele chegou ao centro da cozinha e presenciou a cena, rindo baixinho.
-Vejo que todos estão se divertindo muito.

Ela o olha esperançosa. Tratava-se de Gregório. Instrumental de suspense rápido.

***

Em Itamonte…

Em uma farmácia no centro da cidade. As farmacêuticas conversam entre si.
-Hoje o dia vai ser foda. Uai. O bom é que eu vou ganhar hora extra.
-Ah é? Vai ficar no lugar de alguém?
-Sim. Da Virgínia. Ela parece que tem visitar uma tia distante na UTI em São Lourenço. Coitada. Espero que saia dessa viva. Ao que parece é complicação de diabetes.

***

Nabuco e Marta estão saindo para fazer um passeio de balsa. Observam que Carlos e Berta estão organizando mochilas em cima do sofá com roupas. O anfitrião pergunta
-Vão viajar?
Berta confirma.
-Sim. Vamos para capital!
Nabuco questiona.
-Vão atrás do assassino?
Carlos confirma.
-Sim.
Berta revela
-Vamos conseguir provas, provas de tudo que esse monstro fez.
Nabuco e Marta o desejam boa sorte. Berta olha no relógio.
-Se embora! Vamos perder o ônibus na rodoviária.
Carlos sorri.
-Obrigado mesmo por estar comigo nessa Berta.
-Imagina. Depois daquela foto, eu me relacionei com esse cara, aquele lobo me enganou com a fachada de cordeiro dele, enganou o James, tudo que fez com você, precisamos desmascará-lo, é uma questão de sanidade. Vou aproveitar e rever minha amada, fazer uma surpresa a ela!
Carlos mostra interesse. Berta confirma um uber.
-Ah é? Ela é de Sampa?
Berta explica
-Não. Ela é daqui pertinho, Ribeirão Preto. Mas conseguiu um emprego bom lá no IML reconhecido sabe?
Carlos esboça surpresa
-IML? Sua namorada trabalha no IML?
Berta confirma
-Nossa! o Uber já chegou. Realmente Brodowski é um pingo. Sim, sim. Ela é técnica, mexe todo dia com cadáveres.
Carlos ri assustado com o jeito de falar de Berta

Cortar para:

Casa de Gêmula…

Gêmula está folheando fotos de quando era pequena ao lado da mãe Totoya e Alana chega a sala trazendo um prato para o café da manhã. A anfitriã sorri.
-Ai…não acredito. Você fez ovos mexidos? Meu prato predileto.
Alana ri.
-São para isso que servem os amigos, não? Sabia que se alegrar. E fico muito feliz por isso.
Gêmula provoca.
-Até parece que é só por isso. Te conheço, guria. Confessa para mim!
-Não é nada.
Gêmula insiste. Alana cede
-Tá bom, é por conta de uma menina aí
Gêmula vibra.
-Eu sabia. Quem é ela, me conta.
Alana mostra fotos do insta dela. Gêmula sorri
-“Berta Fontes. Professora de deficientes mentais e fotógrafa nas horas vagas”.Ela é muito gata. Conheceu onde? Aqui em Sampa mesmo?
-Que nada. A gente já trocava uns flertes na época que eu tava em Ribeirão. Conheci ela num Pub. Depois perdemos contato e de uns três meses para cá, temos nos visto quando vou para lá , mas falamos mais pela net mesmo.
Gêmula abraça a amiga.
-E você não me conta nada, sua danada.
-Ah miga, você sabe como sou discreta com essas coisas, sempre fui, não vejo a hora de vê-la de novo. Mas por enquanto, não dá.
– Entendi. Mas quando for vê-la, caso ela venha para Sampa, traz ela aqui, quero ver se eu aprovo.
Alana ri
-Pode deixar!
Gêmula então se volta para a foto da mãe.
-Essa semana vai ser foda. Vão começar a chamar as testemunhas do caso. Será que vão conseguir esclarecer a história do pen-drive?
-Eu não sei, minha amiga. Mas eu espero que sim.

***

James(Otávio) acorda sobre os braços peludos de Martim. Ele sarra no homem que o prende entre os braços e começa a morder sua orelha.
-Você é muito gostosinho, amor.
James(Otávio) entra na brincadeira
-É…? Seu safado.
-Sim, muito. Pega a camisinha na gaveta para mim, minha putinha e coloca em mim, vamos brincar um pouco.
Os olhos maquiavélicos do vilão se enchem de prazer, ele esboça um sorriso maldoso e se felicita ao pensar que naquela altura do campeonato James não está mais ali para encher o seu saco.

***

James acorda com suas sardas estalando. Abre os olhos meio zonzo. Ao fundo um barulho de um rio. Tosse. Sua cabeça dói, dói muito. Queria voltar a dormir, mas a dor incomodava, sentia sua cabeça pesada. Levantou-se. Estava em meio as pedras. Joelhos ralados. Cotovelos também. Fisicamente sentia a gravidade querendo puxar, estourar sua cabeça, mas se sentia leve, leve de pensamentos, olhou para duas árvores em frente e sentiu medo, aquilo era um pouco estranho a ele, toda aquela mata parecia engolí-lo, gansos brigavam na margem oposta, ele olhou para aquilo e sentiu algo ruim. Balbuciou palavras desconexas e saiu andando meio cambaleando.

CAM dá um zoom invertido e revela entre as pedras, onde estava, sangue seco em um arranjo oval. Cortar bruscamente para a nuca do rapaz marchando com dificuldade, mais sangue.

***

Próximo a praça da Sé…

Mais tarde…

Uma mulher que terminava de dar o último repicado no cabelo de um cliente é interrompida por uma de suas funcionárias.
-Você tem certeza?
A funcionará acena positivo.
-Volto num minuto, querida.
Dirige-se a sua cliente. Ela chega a calçada e se surpreende ao ver Rogério.
-Filho. Há quanto tempo.
Close na face do jovem inseguro.

***

Martim caminha pelo sítio levando o menino no colo. James(Otávio) observa a cena enojado.
-Amor, não é melhor procurarmos logo a família dele?
Martim estranha
-Mas ontem você foi o primeiro a querer trazê-lo para cá. Não estou te entendendo. Há claros sinais que ele foi abandonado no temporal, ele será levado para algum local de adoção, um orfanato, caso procurarmos as instâncias responsáveis e você sabe como são esses locais. Ele tá feliz aqui. Veja só esse sorriso estampado no rosto.
James(Otávio) olha para o garotinho negro e em sua concepção racista o compara a um chimpanzé. Rebate Martim.
-Mas ele pode ter sido roubado!
Martim para.
-Roubado?
James(Otávio) explica
-Alguém roubou da família e abandonou por vingança.
Martim ri
-Nossa. Que imaginação! Tudo isso por quê? Hein? Tá com ciuminho, amor? Por que estou dando mais bola a ele do que a você?
James(Otávio) nega
-Até parece.
Martim gargalha
-Tá sim!
(E começa a fazer cócegas no parceiro)
-Para Martim!
O quarentão diz
-Só se você me dar um beijo daqueles…
James(Otávio) para um minuto fazendo graça e depois o beija.

Cortar para:

Eles andando em dois cavalos, rindo, sobre o vento e fazendo competição de quem chega mais longe.

***

James abre os olhos. Está perto de lixeiras. Levanta assustado ao ver um cachorro enorme comprimindo e expandindo as costelas ao respirar. A luz o cega novamente, a poucos metros, dobra uma esquina e tropeça num morador de rua que dormia. O mendigo com as barbas grandes e sujas se irrita e o xinga, ele não entende nada, ainda sua cabeça pesava, queria dormir.

Tropeçou e caiu de boca em degraus. O mendigo passou por ele ainda resmugando, abordou um homem com uma batina e conversando por uns instantes foi chamado para dentro. James não entendia nada, mas seu estômago roncava, sentiu vontade de comer, aproveitou a brecha e entrou também.

Tratava-se de uma paróquia. Santos exibidos em altares não enganava. Ele sentiu novamente medo, deveria gritar com eles também? Xingar para parar de assustá-lo tal qual fez aquele homem? Continuou caminhando até que desembocou numa pequeno salão. Escutou risadas e um agradável cheiro de café, avançou e chegou a cozinha. O padre levantou os olhos
-Está com fome, também?
O mendigo que mordia com força um pedaço o avistou e resmungou algumas palavras, mas ele não entendeu. Sentia uma enorme vontade de arrancar a cabeça, parecia que iria explodir. O padre continuou.
-Aproxime-se. Tem pão para todos!
James não estava muito consciente, fazia movimentos involuntários e lentos com os braços. Aceitou o pão e imitou o que o outro fazia. Padre riu.
-Vocês dois hein? Comam mais devagar, não precisa comer de pressa desse jeito! Não vai acabar.

Quando terminaram, o homem se preocupou ao notar a presença de sangue no couro cabeludo do rapaz, pediu para ele esperar, chamou um médico. Quando voltou, assustou-se ao ver que uma das pupilas de James estava maior que a contralateral.

***

Tina chega ao hospital central da cidade vizinha de Itamonte, São Lourenço e aguarda ansiosa para o horário da visita, pelo que pode saber ligando para lá, é que se tratava de às 16 horas também. Ainda faltavam cerca de 3 horas.

***

Mais tarde…

Berta e Carlos chegam na capital. Eles logo pegam um uber para o hostel que irão ficar na bexiga.

***

Na Penitenciária Feminina na Vila Industrial…

O delegado Lucas terminava de conversar com o último policial, no caso Farias, aquele do cachorro Pastor Alemão Alí baba.
-Eu não teria motivos, Lucas, para entrar aqui e roubar o pen-drive. Sou um profissional ético. Isso é obstrução de justiça, o senhor sabe? Eu responderia por isso.
Lucas acredita
-Tá certo, Farias! Desculpa incomodá-lo. Pode se retirar.

Sozinho, Lucas analisa a situação
-Ouvi todos, não havia mais ninguém que…

Ele para em um ponto fixo. Sua expressão muda com o aumentar de um instrumental de suspense.
-Só pode ter sido ele. Mas por quê?
Ele liga para o celular de Otávio e só dá caixa postal. Liga de novo estranhando tudo aquilo. A última mensagem de texto do rapaz datava da tarde do dia anterior.

***

Berta e Carlos chegam ao prédio de Alexandra em Mogi das Cruzes. CAM vertical mostra desde o térreo onde estão até o último andar. Eles se adiantam para a portaria. A porteira abre.
-Pois não? Que andar que vão?
Berta revela sua intenção
-Bom…não vamos a nenhum andar. Na verdade queremos acesso a algumas filmagens de alguns dias atrás.
A mulher é cotundente.
-Não posso revelar nada. Isso é sigilo. Nem para morador do prédio eu posso!
Berta retira da carteira algumas notas de cem reais.
-Nem se por um acaso, acontecer de você ganhar pelo serviço dessa informação?
A mulher fica brava.
-Olha minha senhora, eu não estou a venda!
Berta insiste, tirando o dobro da quantia inicial
-Vamos lá, todos possuem seu preço. Isso aqui você não ganha nem em um mês sequer de trabalho.
A porteira se levanta irritada
-Eu vou chamar a polícia se você continuar a falar!
Berta se assusta. Carlos pede desculpas. Nesse instante, o zelador passa por eles e ele tem um insight.
-Seu peixoto! Por favor, venha cá um instante.
Berta torce para que dê certo. A porteira tenta se acalmar. Carlos explica a situação.
-Você se lembra de mim, não lembra?
O velho ri
-Como poderia me esquecer, sempre simpático quando aparece aqui com o namorado. Alexandra está bem? Faz tempo que não a vejo.
Carlos se emociona.
-É sobre isso que preciso falar com o senhor…

***

O horário de visita é atingido. Tina olha para os lados para ver se não há ninguém próximo. Ufa! Parecia que naquele dia, Darcy não viria até ali. Passou seus dados e foi encaminhada até uma enfermaria.

Ali dividindo o quarto com mais duas pacientes, Tina assistia televisão quando Virgínia entrou. A enfermeira anunciou. A enferma estranhou.
-Você aqui? Mas você não trabalha na farmácia de Itamonte? O que está fazendo me visitando?
Virginia pede.
-Podemos conversar a sós?
Tina concorda e elas vão para o corredor dos quartos até uma janela que dá para a rua dos fundos. A jovem começa.
-Pois então, eu…

De repente a mulher esbugalha os olhos. Virgínia se desespera com o sangue jorrado em sua blusa. Silêncio. Em slow motion, Tina vai pendendo ao chão, agarrando-se a jovem até cair espatifada. Escuta-se uns gritos de profissionais da área da saúde ao fundo, aproximando-se do corpo. Virgínia volta para janela e avista na rua dos fundos, ninguém menos que Darcy correndo. Ela volta para o corpo de Tina que é levado por uma maca para emergência, ela acabara de levar um tiro.

***

Em Mogi das Cruzes…

Berta e Carlos conseguem com autorização e supervisão de Peixoto e da porteira assistirem às gravações da noite do assassinato. Berta pede para um profissional na sala de comandos.
-Pode passar. Foi depois da meia-noite que você falou Carlos?
-Sim. Sim.
A fita é avançada e eles conseguem ver o momento exato que Martim sai com o corpo de James do elevador até o estacionamento subterrâneo e deixa no carro e depois sai da sala das escadas com o corpo de Carlos e coloca no banco de trás. Carlos berra.
-Maldito! Desgraçado! Assassino!
Berta pede para avançar um pouco mais e depois eles percebem que Martim sai. Ela estranha.
-Ué? Ele não saiu com os corpos dos dois? Volta antes dele levar o primeiro corpo para o carro, por favor.
O profissional volta. Mas eles não encontram nada. Berta constata.
-Ele não saiu com os corpos de Alexandra e de seu namorado do apartamento. Nenhuma das câmeras mostra isso. Tem como, seu Peixoto, sair do prédio sem ser filmado?
O homem nega, dizendo que só os andares não possuem câmeras no corredor, mas todo canto do térreo possui. Berta se volta para Carlos e eles entendem o que cada um quer dizer com a troca de olhares.

Com uma chave reserva, conseguem abrir o aparamento de Alexandra. Carlos se apavora ao ver o cenário dos corpos dispostos na sala e no corredor perfurados a tiros de bala, o sangue secara no chão. Um enxame de moscas tresloucadas que já estavam criando suas larvas ali fogem correndo em várias direções, o cenário é acompanhado de um cheiro forte de carne podre. O jovem chora desesperado ao lado do corpo do amado.
-Me perdoa!
E soluça. Berta estava petrificada com o estado dos corpos, do apartamento, da dignidade humana. Sentiu uma raiva. Uma sede de fazer justiça muito forte. Aquilo não poderia ficar impune. Era bárbaro demais. Violento demais. Pediu para o zelador que estava assustado diante da porta.
-PELO AMOR DE DEUS! CHAMA A POLÍCIA AGORA!

O homem sai correndo desesperado. A mocinha se ajoelha ao lado de Carlos chorando ao lado do corpo de Junior e o abraça em silêncio.

***

O médico avalia o estado geral de James num quarto na paróquia e explica.
-Olha, padre. Pedi para ele soletrar a palavra canguru, está conseguindo, ainda que com dificuldade para falar, mas isso deve ser por um fator psicogênico, de estresse. Pedi para ele desenhar uma casa, ele desenhou. Mas não se lembrou do nome e nem consegue prestar atenção. Está com uma pressão baixa, apresentou bradicinesia, ou seja, movimentos lentos e irregulares. Isso tá me soando um traumatismo crânio encefálica com tendência a lobo temporal médio e/ou a tronco encefálico, o sangue na cabeça e a midríase na pupila comprovam, mas não total se não estaria em torpor, mudança de humor, até coma. Ele precisa fazer uma tomografia computadorizada, eu indicaria uma ressonância que é mais aprofundada.
-Você sabe se o convênio cobre?
-Pelos meus anos de experiência, não. Você terá que pagar a parte e é carinho.
-Puxa a vida.
Ele anda de um lado para o outro até que tem uma ideia.
-Já sei! Vou pedir doações na missa hoje a noite. Por favor, me fale o valor.

***

No Sítio em Ribeirão Preto … 

Martim está enfurecido com Darcy ao telefone no quarto do casal. James(Otávio) escuta tudo pelo corredor, tinha se comprometido a brincar com o menino pequeno, mas ele se entretera tanto com o fogão que o deixará lá.
-Como é que você deixa a situação chegar nesse ponto? É um burro! É um asno sim! Você ainda dá um tiro nela pela janela do hospital? Um local extremamente movimentado! Você tem muito que aprender comigo, seu amador. Nem era para a mulher de Gregório saber de nada, você não tinha nada que ter contado para ela, achando que ela fosse guardar segredo e olha aí no que deu! E o Gregório continua foragido? O quê?! (Ele acha inadmissível) Que história é essa que ele tá na casa da minha cunhada em São Paulo? Trabalhando? Por que diachos ele veio para cá? Ele não pode dar esse mole, já procuraram ele lá, o pior é que não usa celular. Ai, mas eu mereço. Eu não tenho um segundo de paz. Vou ter que encontrar com ele pessoalmente e é agora..

E desliga o celular, buscando a roupa que vai usar. No corredor, James(Otávio) fica assustado.

***

Lucas está pressionando a campainha do apartamento de Rogério, mas nenhum sinal de vida. Ele então recebe um chamado notificando de uma nova denúncia de dois corpos encontrados metralhados dentro de um apartamento em Mogi das Cruzes.

O apartamento de Alexandra já estava enfaixado na porta, proibindo a entrada, legistas tiveram foto dos corpos, no corredor daquele andar, Berta dá seu depoimento e Carlos acusa Martim abertamente pelos crimes acontecidos. A imprensa representada por Albino espalha as falas polêmicas.

***
Anoitece

Melina percebe que suas crianças já estão dormindo em suas respectivas camas. Ela retira o livro de cima de si e ajeita seus óculos, havia lido histórias para eles pegarem no sono. Ela dá um beijo em cada nuca e sai do quarto em silêncio, deixando a porta encostada.

Ela vai até o jardim e percebe que Gregório está sentado no chão, comendo. Aproxima-se dele.
-E então, está gostando daqui?
Gregório sorri
-Sim. Lá era uns bicos que eu fazia de vez em quando, sou caseiro na casa do Martim, modeste a parte, sei cuidar muito bem, além de mexer com jardinagem. Agora terei um emprego mais fixo, isso vai me ajudar muito.
-Fico feliz em poder contribuir. Quanto a suas qualidades, estou percebendo mesmo. Está tudo muito aparadinho mesmo, gemas apicais terão espaço para crescerem. Bom, vou te mostrar o seu quarto, venha.

Ela o leve até uma casinha aos fundos da casa e mostra abrindo a porta, seu interior. Era um quarto pequeno com uma cama simples e um criado mudo, mas tudo muito organizadinho. Tinha um banheirinho também. Ele agradece e se acomoda.
Ela volta para a sala e lhe entrega um celular retornando ao quartinho dos fundos.
-Comprei para você, apesar de estarmos na mesma casa, você pode querer sair e eu também. Amanhã passo para te ensinar a mexer, agora vou me recolher, está tarde, tenha uma boa noite.
Gregório gostou da ideia. Sorriu para ela.

***

A missa se inicia por volta das sete na paróquia em Brodowisk. Chega o momento da homilia e o padre pede ao falar da parábola do bom samaritano uma ajuda no momento da oferenda a fim de custear a radiografia de um pobre morador de rua que provavelmente está com um traumatismo craniano. Ele aponta para o jovem que está totalmente letárgico. Dona Bennit que sempre chegava cedo e portanto sentava na frente se solidariza com o estado do rapaz e deseja fortemente cuidar dele.

***

Berta está em uma cafeteria no centro da capital paulista acompanhada de Carlos quando Alana chega juntamente com Gêmula.
-Que surpresa maravilhosa, amor. Você nem para me avisar que vinha para Sampa. Teria preparado lá em casa para te receber.
Berta balança a cabeça de que não precisaria de tanto e beija a namorada. Gêmula cumprimenta Carlos.
-Preferi te fazer uma surpresa! E tudo foi muito rápido também. Estou ajudando Carlos em sua missão.
Alana não entende, achando graça
-Missão? Ah, obrigada.(Ela agradece o garçom que a traz cardápio)
Berta explica
-Sim. Ele está atrás de um assassino. Acabamos de voltar de um depoimento extenso e longo. A imprensa já deve ter vazado também. Aconteceu em Mogi das Cruzes, dois irmãos foram assassinados a metralhadoras dentro do apartamento da irmã. E Carlos quase foi atingido. O assassino deixou os corpos mortos no apartamento para não levantar bandeira já que sabia que poderia ter câmeras no térreo. Chegamos lá hoje de tarde, já estavam cheirando mal.

Gêmula se assustou com a descrição. Alana ficou muito surpresa
-Caralho, velho. Que história doida. Esse cara precisa ser preso, precisamos fazer algo Bertinha. Mas você está bem meu querido?
Carlos se emociona.
-Não muito. Ainda assustado. Ele era meu namorado, sabe?
Gêmula se levanta e o abraça fofamente.
-Eu sei como é isso. Perdi minha mãe esses tempos atrás de uma forma brutal, acredito que vocês devam saber, minha face está estampada em quase todos os veículos de comunicação.
Berta não se recorda. Carlos demonstra interesse na história.
-Sério? O que aconteceu com ela? Gêmula, seu nome não é?
Gêmula revela.
-Isso. Gêmula. Vocês não devem estar muito ligados a notícias nos últimos tempos, porque o caso da minha mãe tá tendo repercussão. Minha mãe é a empregada Totoya que morreu esfaqueada pela patroa Vera.
Carlos se levanta contérrito.
-O QUÊ?!
Ele troca olhares com Berta que sorri surpresa. Alana não entende.
-Porque toda essa animação, gente?
Berta concluiu
-Porque o motivo que levou a morte dessas duas pessoas foi exatamente a morte da sua mãe.
Gêmula fica incrédula.
-Como assim?
Carlos senta para explicar
-Calma. Vou contar tudo. Eu descobri lá em Itamonte por uma conversa quando voltava da padaria…

Desfocar em suas imagens e focalizar em um homem saindo de um caixa em um posto de gasolina e parado na porta de seu carro. Close em na face perplexa de Martim ao constatar que Carlos estava vivo juntamente com aquela garota que conheceu no hotel. O que estaria acontecendo?

 

Continua…

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POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

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