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O Lobo e Cordeiro – Capítulo 15 (Penúltimo)- Movimento Pendular

O Lobo e Cordeiro
Romance 2015
WEB MINISSERIE
Escrito por Alisson Baxter
Exibida pela TVN : 2017

Capítulo 15 (Penúltimo)
~Movimento pendular ~

 

 

-Então é verdade? Você está mau-comunado com esse sujeito?

Proferiu o delegado Lucas. James(Otávio) o encara amedrontado.

Otávio(James) é irônico:
-Imagina se meu irmão vai estar envolvido com um assassino. Ele é um santo, voltou de uma clínica psiquiátrica.

E começa a rir. Martim intervém.
-Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? Eu acabo de entrar pela porta da cozinha e dou de cara com essa cena.

O delegado Lucas o encara profundamente.
-Seu cinismo é convincente, meus parabéns você é um grande ator.

James(Otávio) olha para Martim. O vilão o encara sério. Otávio(James) continua.
-Sabe que eu não via a hora de você ser preso e te levarem daqui algemado.

James(Otávio) se levanta.
-Preso? Eu? Por quê?

Otávio(James) o enfrenta.
-Pela tentativa de assassinato que você tentou fazer comigo ou te deu uma amnésia e você se esqueceu?

James(Otávio) se virou sem entender para Lucas.
-Eu não sei o que seu namorado tá dizendo, ele deve estar maluco da cabeça.

Otávio(James) o derruba no chão.
-Quem está maluco da cabeça aqui é você. Seu criminoso, bandido, assassino! Não adianta negar, porque todo mundo sabe o que você fez! Não tem ninguém idiota aqui! Você me dopou quando esteve aqui, mentindo, dizendo que precisava da minha ajuda, que tava sendo perseguido, daí declarou seu amor por Martim na minha cara, dizendo que Otávio não iria existir mais, realmente não ía mesmo, porque você achava que iria passar por mim até o resto dos seus dias. Só que meu santo é forte. Não é fácil me derrubar, eu quase morri, quase. Mas o destino me deu essa gostinho de cuspir tudo isso de volta na sua cara. Eu tô vivo Otávio, vivooooo. (E ri com as mãos para o alto, mostrando-se)

Martim confirma sua suspeita. Otávio finalmente revela sua identidade.
-Pode rir o quanto quiser, sua cópia mal feita dos infernos. Porque quem ri por último, ri bem melhor. Essa história não vai terminar assim.

James concorda
-Realmente essa história não vai terminar assim, porque você vai para a prisão!

Eles não percebem quando Martim lentamente se deslocava para a cozinha. Agora ele está de posse de uma arma na mão que pegou numa caixa de registro. Atira em Lucas que cai no chão perdendo sangue.

James grita e Otávio avança para cima dele.
-Agora eu te mato de uma vez por todas!
O mocinho o vira no chão ficando em cima dele no meio do confronto.
-Isso é o que nós vamos ver, sua cobra invejosa.

Martim sobe correndo para tentar fugir por alguma janela e James consegue fazer o irmão desmaiar quebrando um vaso na sua cabeça.
-Clone maldito! Animal peçonhento! Vê se dorme um pouco e para de encher!

Ele descansa ofegante numa pilastra e vai até Lucas que sofre com a bala. Ele corre até a cozinha e pega um pano para estancar o sangue
-Aguenta firme, que eu vou chamar ajuda.
Lucas o pede.
-Não deixe ele fugir. Pega minha arma, mas não deixa esse assassino fugir.

Instrumental de ação. James pega a arma e olha de volta para Lucas.
-Vai!

O jovem tremendo sobe as escadas correndo. Martim percebe que tem alguém chegando e tenta atirar, mas não sai bala.
-Merda

Ele tenta procurar sua metralhadora antes de fugir, mas James é mais rápido.
-Fim da linha Martim!

Silêncio. O protagonista tremia com revólver na mão. Martim se vira com uma face angelical para o mocinho.
-James, meu amor. Como é bom te ver aqui no nosso quarto. Lembra quando te trouxe para cá? Você estava tão feliz porque começaríamos nossa vida de casal. Longe do preconceito das nossas famílias.

James se comoveu com aquilo. Transpirava. Contudo, mantinha-se firme. Nada falava.

-Nossa primeira noite de amor aqui, nesta cama, recitando o soneto de fidelidade do grande Vinicius de Moraes. Mas eu me lembro de outras memórias também…quando nos vimos pela primeira vez naquele ônibus circular, você querendo fugir para sua ilha da Utopia? Lembra? Escalamos colinas e tivemos nosso primeiro beijo ao luar. Bons tempos.

James chorava. O Poder de manipulação de Martim era impressionante. Parecia que de fato ele se importava com tudo aquilo.

-Nossa primeira noite de amor…Depois daquela chuva que a gente tomou voltando da biblioteca, lembra?

Ele ria emocionado, fingia se preocupar. Um lado de James começava a doer. As inseguranças a brotar. A dúvida se ele estava fazendo o certo começou a brotar.

-Lembra mor, eu te apresentando o atelier e a gente brincando de Pollock, sujando de tinta e depois se beijando, se beijando muito. Você não sente saudades disso?

E foi se aproximando. Cochichou.
-Passa essa arma para mim. Passa…vamos acabar logo com isso e acabar nessa cama, fazendo aquilo que sabemos fazer de melhor, nos amar…

E se aproximou tentando desarmar o rapaz, lambeu a face de James num tom sádico. James estava imóvel, sofria.
-Isso, meu cordeirinho, obedece o seu macho aqui, ninguém quer…

Carlos entra pela porta e impede que isso aconteça, voando para cima de Martim
-Monstro!
E pula em cima de Martim, os dois começam a rolar no chão furiosos. James treme ao apontar a arma para Martim. O mocinho não percebe que está de costas para a porta o que dá brecha para Otávio já despertado o desarmar e fazer sua cabeça bater no espelho do banheiro. A testa de James sangra.
-Não pensa que vai ser só isso, não James querido.
-Realmente não vai ser só isso, vai ser muito mais do que foi agora!
Otávio tenta agredir James, mas o mocinho é mais rápido e vira seus braços para trás, abrindo a tampa da privada com o pé.
-Agora você vai ter o que merece, sua desgraça humana!
-NÃO!
E mergulha a cabeça de Otávio na privada, puxando a descarga.
-Era para você nunca ter saído do esgoto, sua ameba! Volta para o Tietê, oferenda!
Otávio esperneia desesperado de nojo. James o arranca com força e o joga contra o box do chuveiro. O vidro se estilhaça em mil pedaços do outro lado. Otávio finalmente desmaia.

***

No banco de trás do carro, Gêmula brinca com Miguel.
-Isso não é simplesmente minha mão, é a Zenaide, a cobra amiga.
E faz voz de fantoche.
-Olá pequeno Miguel, sou Zenaide, já ouviu falar dos cantinhos do corpo que riem?
Miguel balançou a cabeça que não.
-Não seja por isso, para tudo temos uma primeira vez.
Gêmula fez cócegas nele que racha de dá risada. Berta entra no banco da frente.
-Tô preocupada com o pessoal! Estão lá dentro e até agora não voltaram. Carlos entrou por teimosia e não deu notícia. Acho melhor chamarmos Farias.
Close no rosto de Gêmula preocupada.

 

***

Melina agradece Bennit pela hospedagem num quarto vago.
-É realmente muita gentileza sua. Hospedou meu filho, não tenho palavras para te agradecer.
-Imagine, minha filha. Eu faço de coração
Estarei na capelinha no jardim orando por eles. Que a prisão daqueles dois bandidos seja feita o mais rápido possível e eles paguem por todo mal que fizeram.
-Amém. Logo estarei lá.

Assim que Bennit sai, Melina trata de tirar algumas peças de roupa que trouxera para passar a noite e encontra uma foto no fundo da bolsa que não repara. Tirara no Masp na época que encontrou James no banheiro.
-Que coincidência!
Ela estava sozinha na foto ao lado de uma exposição de Auguste Rodin intitulada o pensador. Sorriu. Bons tempos. Por que não se recordar um pouco? Pesquisou sobre a exposição e encontrou, na página do museu pela internet, um acervo com algumas fotos de exposições antigas, despercibidamente não notou um detalhe importante em uma delas.

***

Berta entra com Farias na casa e se desespera ao ver Lucas caído.
-Ele tá muito ferido!
Farias fica puto da vida e chama os demais policiais. Ele liga chamando uma ambulância.

James volta ao quarto e percebe que Martim ficou com sua arma e agora faz Carlos de refém.
-Pelo Amor de Deus! Não faz nada com ele!

Martim ri. Estava ofegante pelo confronto. Parecia uma outra pessoa.
-Quem é você para falar em Deus? Esse sujeito achou que fosse me derrubar, mas ninguém me derruba!

Carlos se sufoca com o braço de Martim.
-Me larga. Tô ficando sem ar. Tsc Tsc.

Martim gargalha.
-Que tal matarmos você estrangulado?

James grita pedindo para parar e Berta invade o quarto acompanhada de Farias.

-Chegou a cavalaria! Agora a emoção está garantida.

Farias está fora de si.
-Ordinário! Sanguinário!

Martim gargalha alto.

-Lucas está caído na sala!

Brada James. Berta o atualiza.
-Nós já sabemos, a ambulância está chegando.

Mais policias entram no quarto. O vilão se incomoda.
-O que vocês todos estão fazendo aqui? Tão achando que é festa rave por acaso? Passos para trás, se não estouro os miolos dele com bala e ao que sei é o pior trauma cerebral que alguém pode ter, a raridade é sobreviver.

Berta grita.
-Mas é muito psicopata mesmo! Um verdadeiro monstro.

Martim ri.
-Sou, sou um psicopata mesmo! Fui selecionado pela mãe natureza para exterminar alguns hominídeos da face do planeta! Sou resistente a todas as adversidades. Vivo para matar! Meu instinto é fascinante.

Carlos se retorce de raiva, tentando sair.
-Monstro! Você matou o meu namorado por simples prazer!

Martim confessa.
-Sim Carlinhos. Dei cabo na vida do seu parceiro, coloquei um ponto final no seu namoreco e de coadjuvante te transformei em um dos protagonistas dessa história, deveria me agradecer, seu ingrato.

Farias se irrita.
-É melhor esse cara calar a boca, eu não vou aguentar ficar aqui por muito tempo, vou mandar bala nesse cara antes dele pensar em reagir.

Martim provoca
-Falou o pau mandado do delegado! Tô tremendo de meda aqui.

Farias rebate.
-Antes fosse só isso. Mas tem muita coisa que você nem sonha.

Berta toma frente.
-Ele ainda zomba da gente. Não tem sentimento, noção do mal que fez a tanta gente. Você matou o amor da minha vida naquela cilada que pediu para seu capanga fazer! Eu te odeio com todas as minhas forças!

-Então você é a namorada daquela guria que morreu? Meus pêsames, não era para você sentir dor, era para ter morrido junto. Mas uma opinião sincera, formavam um péssimo casal. Agora, fala a verdade, foi um plano perfeito! Muito criativo! Todos mortos intoxicados por gás de cozinha. Decidi no bem me quer e mal me quer como iria ser tudo. Deram sorte de ter caído isso, deu ser bonzinho, a ideia inicial era meter bala em todo mundo, assim não iria sobrar possibilidade para abrirem o bico.

-Você é muito sem escrúpulos mesmo. Ainda quer que sejamos gratos por você não ter pensado num plano tão infalível assim? Eu não acredito que eu ouvi uma barbaridade dessas.

-Mas ouviu…

James chorava com tudo aquilo. Era muito forte para ele, ainda não aceitava a ideia que Martim era aquilo. Berta o consola.
-Você tá bem?

Martim caçoa.
-Ah naum…o bebê chorão abriu o bocão? Mas você é muito besta mesmo né?

James quebra o silêncio e o enfrenta
-É inacreditável. Inacreditável o quanto insensível e desumano você é. Você não é gente, Martim.

Martim mostra a língua enojado.
-Lá vem você com esses discursos chatos. Você realmente é muito inferior a mim mesmo. Não sabe de expressar, anda de uma forma desengonçada, é muito mimadinho, eu realmente me enganei quando te achei no ônibus, você não presta para nada.

James chorava alto
-VOCÊ É UM DESGRAÇADO! UM DEMÔNIO. Ele me manipulou todo esse tempo Berta, dizendo que me amava, que a gente ia se casar, enquanto matava as pessoas ao meu redor. Jogou a culpa na Vera, coitada. Matou a melhor amiga dele. Sou eu mesmo que não presto nada? Seu assassino desgraçado.

Martim o olha superior.
-Pode dizer o que você quiser, mas não sou eu que tenho um monte de estrias pelo corpo, que vivo chorando porque os machos me dão pé na bunda, não sou eu que nasci feio e portanto tenho que me adaptar que não faço parte da beleza padrão. Fala para ele Carlos, fala para ele as conclusões que você teve. É óbvio que não vão te querer, você é muito inexperiente, é piegas, fica repetindo trechos de livro que você lê. Isso lá é papo de gente? Você nem inteligente é? Pare de querer provar que é, é ridículo.

James chorava, sentiu-se a pior pessoa do mundo.

-E sabe…não adianta você chorar, porque isso não vai mudar. Você é uma aberração James. Seu corpo fede, fede ranço. Eu tenho nojo de você.

O mocinho estava com falta de ar. Berta interveio berrando.
-NÓS É QUE TEMOS NOJO DE VOCÊ! NOJO!

Carlos se desvencilhou e conseguiu escapar. Martim tentou atirar, mas Farias foi mais rápido e o atingiu no peito, o vilão cambaleou, desequilibrando-se em sua cômoda, derrubando todos os cosméticos e produtos que estavam em cima, caindo no chão.

Outros policiais apareceram e o algemaram.

-Agora, você vai ser preso, seu rato imundo!

Close no rosto de Berta enfurecida. James estava fora de si com tudo que ouvia, sofria. Carlos recuperando o fôlego o acudiu.
-Tá tudo bem, ele foi pego!
-Me solta!

E saiu disparado para o andar de baixo. Martim sofrendo foi levado para uma viatura, gemia pela bala levada.
-Quero que você morra seu animal!
Gritou Gêmula que fez questão de enfrentá-lo e cuspir na sua cara. Ele a encarou com tédio.
-Assassino! Agora você vai passar os restos dos seus dias na cadeia, vai apodrecer lá porque vão jogar a chave fora! Você tá ouvindo?

E dá socos e murros no vidro da viatura.

Minutos depois Otávio desmaiado sai da casa levado por policiais e entra em outra viatura.

Berta vê que a ambulância está saindo com o corpo de Lucas e o acompanha. Gêmula bate a porta do carro assim que retorna e Carlos tenta acalmar James que só chora com Miguel no colo.
-Mas por que você tá chorando? Eles foram presos!
Pergunta Gêmula preocupada. Close no rosto do mocinho extremamente mal.

Minutos depois, já a caminho de Brodowisk, Carlos avisa a Melina e a Bennit que tudo deu certo.

***
No outro dia…
***

Rogério finalmente encontra em um outro diário antigo, depois de passar a semana passada inteira procurando, o endereço da cartomante.

Ele desce do metrô linha vermelha na estação Penha e caminha algumas ruas a dentro. Surpreende-se ao ver que é um prédio antigo carcomido pelo tempo. A tinta estava descascada, algumas sem reboque, pichações nos altos andares, as varandas se sobrepunham a calçada, era possível ver roupas estendidas, crianças chorando e um piriquito piando alto.
-Jesuis Craiste! Que lugar eu vim parar? Qual será o apartamento dessa mulher?

Ele se adentra pelo arco da entrada e um velho antigo termina uma faxina com espanador em guarda-volumes.
-Bom dia! O senhor poderia me dar uma informação, por favor? Onde fica o apartamento da cartomante daqui.
O velhaco era português. Falou altamente fanhoso e o assustou.
-Rapaizinho…entrando pela terceira portinhola no segundo andar! Escadas a lá
Rogério tremeu
-Ah tá! Muito obrigado
E saiu. Sozinho ele disse para si mesmo.
-Que porteiro do outro mundo é esse?
Subiu as escadas e percebeu que rangia e levemente seu pé afundava.
-Desde quando prédio tem escada de madeira? Espero que eu não fique preso ou leve um tombo com isso aqui!
Ele chegou ao patamar do segundo andar e gritou quando uma teia de aranha invadiu seus olhos.
-Arghhh! Que nojo!
Uma mulher apareceu com cabelos negros envelhecidos caídos a perna portando um longo vestido roxo, parecia uma feiticeira.
-Estava te esperando há muito tempo, que bom que chegou! Queira entrar em minha humilde residência.
Rogério estremeceu.
-A senhora é…?
-A cartomante ora? Quem mais eu poderia ser para fazer sentido essa história.
-Que papo de maluco, pai amado.
-O que foi que você disse?
-Nada. É por aqui, embaixo dessa portinhola né?
-Exatamente. Vamos. Temos muito a tratar.
Ele engole seco e cabreiro entra.

***

Melina desce as escadas da pensão de Bennit e chega a cozinha.
-Senti o cheirinho desse café cheiroso lá do quarto, tão fazendo empada para o café da manhã?
Bennit de avental confirma junto às suas cozinheiras.
-Na verdade é torta de palmito e rabanete.
Melina bate palminhas eufórica. Berta, Carlos, Gêmula, Nabuco e Marta estão sentados à mesa.
Berta termina de falar ao telefone.
-Certo. Obrigado por me avisar.
Ela desliga o telefone, respirando fundo. Carlos questiona.
-O que foi amiga, o que está acontecendo?
-Mãe da Alana me confirmou, amanhã vai ser realizada a missa de sétimo dia dela.
Ela se emociona. Gêmula a abraça.
-Fica assim não. Perdemos nossos queridos tudo ao mesmo tempo, né? Pela mesma tragédia. Semana passada foi a missa da minha mãe, agora a da Alana e a do Junior, Carlos, quando será?
– Não terá. Família dele é ateia.
Melina percebe que seu filho não está a mesa. Onde está James? Carlos revela.
-Está no jardim, ainda se encontra muito mal depois de tudo que ouviu.

Cortar para:

James está chorando num balanço de pneu numa velha árvore quando Melina se aproxima.
-Filho, você não vai vir tomar café? Dona Bennit acabou de preparar uma torta de rabanete com palmito.
O jovem não respondeu, seus olhos estavam vermelhos, havia dormido mal a noite, era como se tivessem arrancado sua alma e ele ficara com falta de ar. Melina se aproximou
-Hey, mamãe tá aqui. Você não quer desabafar um pouco sobre tudo que aconteceu?
– Não. Eu só quero ficar um pouco a sós, se você não se importar.
-Mas…
-Por favor, me deixa em paz!
Melina sai mal com a reação do filho. A voz de Martim ainda repercutia no emocional de James. Aquelas agressões. O repúdio a sua essência, a sua aparência. Como alguém conseguia ser tão repugnante? Queria botar para fora, enfrentar, mas sofreu calado.

***

Rogério entra dentro da sala escura da cartomante. Aos fundos, vemos algumas paredes com adornos, todos com símbolos exóticos, portas camufladas pela pouca iluminação. O incenso provoca uma fumaça etérea no ar. Ao centro, uma mesa com uma bola reluzente azul de cristal, cartas a mesa do naipe de copas.
-Queira se sentar, por favor.
Rogério obedece, olhando para onde estava se sentando.
-Aaaa!
Algo peludo passa pela sua perna. Era Pandora, a gata de Viviane.
-Não tenha medo, é minha felina. Né coisa fofa?

Rogério encara a gata mal penteada e sente uma sensação estranha. Viviane continue.
-Pois então. Como disse, senti que veio distante para entender tudo.
– A senhora sabe?
-Claro que sei. Quer entender quando terá sorte com amor, não é? Deixo ver quando uma garota vai…
Ele a interrompe
-Na verdade eu sou gay.
Ela fica sem graça e tenta ignorar seu erro.
-Pois então um rapagão está sendo preparado para você pelo senhor do universo…
Rogério percebeu o quanto fajuto era aquilo.
-Mas eu não estou interessado.
Ela disfarça
-Claro…claro. Você veio aqui para saber do seu profissional. É cabeleireiro né meu rapaz?
-Minha mãe tem um salão, até gosto de fazer algo nos meus amigos, mas não, definitivamente não quero seguir com essa profissão.
-Ah claro, veio falar da morte
Rogério se lembra de James.
-Que morte?
-Sabia, vi no seu rosto quando entrou por aquela porta, seu amigo não é?
-Amigo? Que amigo?
-Irmão quis dizer.
-Mas eu sou filho único
Ela fica frustrada. Ele se sente a vontade para falar, ela era mais atrapalhada do que qualquer outra coisa.
-Olha, vim aqui para falar da manta
Ela estranha.
-Manta? Que manta?
Ele retira da bolsa e ela se recorda, muda a expressão. Balbucia.
-Eleonora Bálsamo! Meu Deus, quanto tempo, deve fazer uns vinte anos isso.
Rogério ri.
-Me surpreende muito a senhora lembrar. Porque a manta está desbotada e mesmo assim a senhora reconhece.
Ela se explica.
-A meu rapaz a gente nunca se esquece disso. Não é todo dia que uma cliente árdua sua deixa para você doar uma manta.
-E é isso que eu quero saber
Ela não entende.
-Saber o quê?
Rogério completa.
-Para quem a senhora doou a manta!
Close no rosto de Viviane.

***
Mais tarde…

Um camburão chega numa penitenciária na capital paulista localizada próximo a Diadema. O carro abre e Martim sai acompanhado de policiais, a população grita “Assassino” “Monstro, filho da mãe tem que morrer” e “psicopata maldito”

Mas ele é tão frio que nem liga para o que falam dele. Clics são ouvidos. Flash cega seus olhos, porém, ele continua caminhando como se nada estivesse acontecendo. Sente até um certo prazer de nenhum grito, nenhuma prisão ser capaz de trazer de volta a vida que ele tirou, sente-se poderoso.

Farias só observa de longe em silêncio. Depois é a vez de Otávio. Ele acaba tropeçando e a população tenta linchá-lo. Mas os policiais conseguem agir rápido e levá-lo para dentro da delegacia. Albino se satisfaz depois de apresentar para o jornal da noite aquela notícia, quem sabe finalmente não conseguiria o tão sonhado cargo de âncora.

***

Melina e Carlos chegam ao hospital e descobrem que Lucas está tendo alta. Eles correm para o quarto e ele está conversando com o doutor. Melina se encanta.
-Então você já está saindo? Que maravilha!
Lucas sorri.
-Graças a Deus, foi só um susto.
-Estamos voltando para São Paulo, só vamos passar na pousada de Dona Bennit para levar o pessoal e já estamos indo. Quer uma carona?
Revela Carlos. Lucas ri.
-Só se for agora. Aliás, Otávio já foi transferido para capital?
Carlos revela.
-Já sim. Foi transferido uma penitenciária na zona sudeste.

***
Anoitece…

James está em seu quarto, o cruel e antigo o quarto. O quarto que ele se refugiava sempre quando algum namoro não dava certo, o resquício de fuga, de conforto para ele não olhar para sua inexperiência, sua incompetência de engatar um romance nem que esse durasse poucos anos. Tudo estava como no início e o ambiente estava mais insuportável do que nunca. A diferença é que não existiria mais Totoya para acudí-lo, nem seu pai para chamar atenção, nem Martim para ele poder encontrar repentinamente num ônibus circular numa cidadezinha no interior e fazer dar certo. Toda aquela história já havia lhe provado que só levava a sofrimento, como ele desejava estar em um outro universo paralelo, onde tudo aquilo poderia ter uma nova chance de acontecer.

Abriu seu guarda-roupa, avistou seu perfume, pegou-o. A última vez que o usara fora para se encontrar com Renan, aquele cara do aplicativo. Tantas reviravoltas haviam acontecido em sua vida, no entanto, parecia que sua vida andava em círculos cada vez maiores e piores, pois a cada retorno, menos suporte ele teria, menos chance de ser feliz.

Queria por um fim a tudo aquilo. Era como Martim disse, ele não se encaixa no padrão, no padrão LGBT branco, malhado, olhos claros, mauricinho, digital influencer, modelo. Não era daqueles caras que podiam ser efeminados que estava tudo certo já que eram famosos, então um milhão de caras queriam ficar com eles. Sentiu uma cólera corroê-lo por dentro até que ouviu buzinas de um carro e pessoas ao longe gritando alguma coisa.

Foi tomado por aquela emoção já que não conseguia se concentrar. Panelaços corriam à solta quando chegou à rua. Caminhou junto com a multidão vestida de verde amarelo por um tempo sem entender nada, mas aquele fluxo, aquele tom de voz enfurecido vibrava na mesma frequência que todo seu sentimento, até que desembocou na Paulista, ali um pato gigante da Fiesp se fez presente. Faixa de impeachment já eram levantadas. Mas o que mais o chamou atenção foi o ataque de alguns manifestantes contra um homossexual andrógeno vestido de vermelho que tentava impedir o avanço do movimento e gritava para eles pararem.

James flagrou cada pontapé no órgão genital, chutes nas costas, choros, pauladas, gritos de socorro, mas o mocinho não fez nada, ninguém fez nada, James sentiu uma compensação, como se parte de seu sofrimento tivesse indo embora e uma satisfação de prazer ficasse. Ele literalmente torcia para que o pior acontecesse, até que o homossexual andrógino depois de cuspir muito sangue, veio a óbito. James sentiu uma felicidade, algo parecido com o que sentira quando imaginou Totoya sendo estrangulada naquele ônibus intermunicipal.

Aproximou-se meio sem entender nada e foi cumprimentado pelos assassinos. Um deles possuía como tatuagem a suástica nazista.

***

Otávio chega ao pátio central da penitenciária, estava com alguns pontos no rosto e no corpo, em que muitos familiares estão visitando os presos e se surpreende ao ver Lucas.
-Meu amor, você veio me visitar?
Lucas é seco
-Senta aí.
-Nossa o que foi que eu fiz a você?
-Enganou, mentiu, traiu. Você dormiu com aquele assassino, tentou matar o próprio irmão o qual desde que soube da sua existência, vem tentando te ajudar.
Otávio pensou numa estratégia.
-Sim. Eu sei que errei…
-Ah, agora você sabe?
-Eu tenho pensado muito nisso desde ontem. Eu fui longe demais. Mas eu nunca desejei o Martim, isso James mentiu. Eu assumi o lugar dele por necessidade, tem um pessoal do tráfico que agrediu o Rogério por minha conta, eu te contei isso quando conversávamos uma vez, tô limpo, quero estar, mas esse pessoal não deixa.
-Isso não tem o menor sentido. Se você corria perigo deveria ter procurado a polícia, me procurado e não ter tentado matar James.
-Eu fiquei desesperado! Vai que eu abrisse o bico e eles dessem o jeito de me apagarem, sem contar que eu poderia ser preso por estar envolvido nisso. Eu tô muito arrependido disso, eu sinto tanta falta de você (e o beijou. Lucas tentou se esquivar, mas se entregou). Eu te amo, meu amor. Tenta me entender.
-É difícil, muito difícil
-Você sabe que eu tenho caráter. Todo esse tempo, eu senti tanta falta de você. Eu não paro de pensar em nós.
Ele o olhava meio emocionado. Otávio continuou.
-Me ajuda a sair daqui, vamos fugir para algum lugar!
Lucas revelou.
-Isso é impossível!
Otávio implorou.
-Eu sei que não é. Você conhece todos os esquemas das penitenciárias, pode me ajudar. Deve ter amigos que trabalham aqui. Eu quero muito recomeçar, recomeçar ao seu lado.
O sinal toca anunciando o fim da visita e ele o beija.
-Pensa nisso
E é levado. Lucas sofre

***

No outro dia pela manhã…

Melina acorda com seus filhos Luquinhas e George abrindo a porta. Ela vai até o quartinho de Miguel que é próximo ao seu e os irmãos acordam ele em meio a cócegas
-Ah, socorro! Meu ponto fraco.
Melina ri alto.
-Seus malandrinhos. Vem, vamos descer para tomar café.

Antes de descer, ela passa pelo quarto de James e percebe que ele não se encontra. Ao chegar a cozinha, elogia Matilde.
-Bolo de limão com nozes. Meu favorito.
Matilde esboça seu sorrisão até a orelha
-Ah Dona Matilde, era essa a intenção que a senhora gostasse.
Melina corta um pedaço e experimenta.
-Tá divino. Experimentem crianças! James saiu?
Matilde a revelou.
-Eu acho que ele nem dormiu em casa, senhora. Porque ontem antes deu me recolher, havia feito a cama dele e ela está do mesmo jeito que eu deixei.
Melina se levanta preocupada.
-O quê? Ele não dormiu em casa?
Close em seu rosto preocupado

***

James acorda meio zonzo, estava na casa de alguém. Dormira no chão? Um cara chegou e o revelou que tinham feito café, se ele queria um pouco, o mocinho confirmou.
Ao longo das paredes era possível avistar quadros e fotos de homens antigos que ele não tinha a mínima noção de quem era.
-Onde estou?
O homem riu, quando ele chegou a mesa mais outros dois estavam sentados. Um deles que se chamava Baltazar disse:
-Mano, você virou quase dois litros de vodka, ontem, se é louco.
James ficou surpreso.
-Isso mesmo aconteceu?
Ele não sabia muito bem quem eram aqueles homens, só percebeu que um deles possuía a suástica nazista no dorso da mão. Lembrou-se da manifestação
-Aconteceu sim, brother. A gente saiu da manifestação e ficamos horas falando do quanto a mídia distorce o holocausto, a imagem de Hittler, viemos para cá comemos pizza, bebemos um pouco.
James se lembrou vagamente.
-Nossa, minha mãe deve estar preocupada.
Um deles riu.
-Ah, filinho da mamãe!
O outro chamado: Fábio riu.
-Ai, sou uma borboleta, preciso da aprovação da mamãe!(gesticulou as mãos num tom homofóbico). Liga para isso não velho, você já é um cabra feito. Eu já tô saindo para o trampo, te dou uma carona até sua casa. Senta aí e toma o pingado.
James agradeceu meio tímido.
-Valeu.
Baltazar virou para Fábio e Rafael e falou.
-Continuem falando do livro que leram do Mises para mim.

***

Lucas sofre na delegacia e se lembra da visita que fez a Otávio no dia anterior. Fugir? Não seria tão fácil, mas ele conseguiria numa possível transferência prisional. A questão é valeria a pena? Otávio dissera a verdade?

***
Mais tarde…

Berta abraça a mãe de Alana na missa de sétimo dia. Depois da cerimônia, elas voltam para casa de Gêmula e descobrem que Carlos recebe como visita, sua amiga farmacêutica de Itamonte, chamada Virgínia.
-E então no fim das contas estávamos lidando com o mesmo criminoso?
Questiona Carlos. A jovem confirma
-Pois é. Ele tentou por meio de Darcy dar cabo na vida de Tina, a esposa de Gregório. Mas não conseguiu, ela o denunciou, só que ele desapareceu, anda foragido.
Gêmula escutou o fim e pediu para que a explicassem, cumprimentou a visita. Berta trocou olhares com ela corada.

***

James chega em casa com uma cardeneta na mão. Melina o surpreende, saindo de uma penumbra assim que fecha a porta da sala
-Onde você estava? Posso saber?
James explicou.
-Com alguns amigos.
-Que amigos?
-Um pessoal que estou conhecendo!
-Que livro é esse que está segurando nas mãos?
-Nada. Só um livro de história, ficamos debatendo um pouco sobre alguns momentos históricos. Agora vou dormir um pouco, dá licença.
E sobe correndo. Melina estranha e muito aquela situação. Tenta ir atrás, mas o garoto tranca a porta.

***
Mais tarde…

Rogério chega para visitar Otávio.
-Fiquei sabendo da sua prisão. Estou com medo.
Otávio o aconselhou.
-É melhor você sair do estado e se possível ir para outro país latino, Roger. James revelou a polícia que você tentou enterrá-lo vivo.
Rogério se desesperou.
-Eu não vi nada nos telejornais, agora estou com medo de não sair dessa penitenciária livre.
-Calma. Não tem como eles ligarem os pontos. O inquérito contra você ainda tá correndo, estão colhendo provas. Você consegue habeas corpus fácil fácil. É a palavra dele contra a sua.
-Sabe que por um momento, eu me senti aliviado dele estar vivo. Eu estava me martirizava muito, achava que realmente eu havia sido um assassino.
Otávio apela.
-Você tá louco? Ele vivo foi a nossa desgraça. Se ele tivesse morrido naquele rio, não teríamos mais problemas. Tudo iria terminar nos fundo daquelas águas.
-Não necessariamente, migo. As investigações contra Martim continuariam correndo a solta.
-Mas eu não estaria aqui e nem você ameaçado. Esse seu senso de empatia, às vezes, me soa muita ingenuidade. Afinal, pare de rodeios, me conte, descobriu quem ficou com a manta?
A expressão de Rogério mudou.
-Sim e você não vai acreditar em quem é sua mãe.

Em OFF. Revelou

A face de Otávio se transformou, ele se emocionou
-Não acredito… Ela.. é minha mãe?

Rogério confirmou
-Sim. Só pode ser. E encaixa perfeitamente com toda história.

-Mas por que ela me largou na marginal Tietê?

Neste exato momento, Lucas chega para visitar Otávio, havia decidido sobre o pedido do rapaz e se surpreende ao ver Rogério por ali.

-Você por aqui?

-Eu espero que não me entregue! Estava contando ao Otávio sobre a mãe biológica dele.

-Mãe biológica? Vocês descobriram?

Otávio o acalma esboçando um sorriso.
-Se ele voltou, é porque está do nosso lado.

Rogério se despediu e saiu. Lucas se aproximou meio sem jeito de Otávio que lhe roubou um beijo.

-Me conta o que descobriram?

-Calma, uma coisa de cada vez. E então vai me ajudar a fugir daqui para sermos felizes?

Lucas confirma. Otávio se anima.
-Presta muita atenção nessa oportunidade que estou te dando, o plano é o seguinte…

***

Martim dentro da cela observa as grades que as fecham. Um preso mais velho brinca com ele.
-Que foi bonequinha? Tá desiludida por que o príncipe não voltou com o sapatinho de cristal?
Martim respondeu alto.
-Ah, vai te catar!
O homem o enfrentou apontando o dele
-Você não vai falar comigo assim, não? Eu sou Sergião, mando nisso tudo aqui.
Os outros caras de cela levantam. Martim continua.
-Pode ser deles, porque de mim com certeza não será. Não sei se você viu o carcereiro anunciar, mas já matei umas dez pessoas, não queira ser o próximo.
Sérgio o peitou puxando seus braços.
-Perdeu a noção do perigo, boneca, perdeu?
-Me larga, seu velho nojento!
E o empurrou no chão. Na hora, os outros presos pularam em cima dele.
-ME LARGUEM! NÃO!
Sergião bradou.
-Tirem a calça dele, que agora ele vai ver quem é Sergião de verdade.
E enquanto Martim se retorcia, o velho mexia na sua genitália.

***

James terminava de pesquisar sobre os ideais da Ku Klux Klan, movimento racista, supremacista branco estadunidense. Ele se identificou muito quando viu palavras como anticomunismos, homofobia, certamente o 3° Klan era o melhor de todos.

Cortar para:

Cam subjetiva observa Melina atravessar a faixa de pedestre e entrar na padaria e cumprimenta a tal pessoa misteriosa que está na CAM subjetiva.
-Tudo bem com você? Estou tão preocupada com James, dormiu fora ontem de noite na casa de uns amigos me disse. (Ela põe o casaco na cadeira e se senta). Voltou estranho com um livro na mão. Ele faz tratamento psiquiátrico, ontem não se medicou segundo Matilde, eu não sei o que eu faço.

A câmera deixa de ser subjetiva e se vira para a pessoa misteriosa revelando ser Farias.

-Ele sofreu muito Melina. Quando Lucas me contou o que aquele assassino sanguinário falou, eu fiquei muito sufocado, enojado, ele foi muito baixo. Tocou nas feridas de James para valer.

Melina chorava
-Mas esse desgraçado não pode continuar perturbando a cabeça de meu menino. James precisa super isso, eu não quero ver meu filho de volta para a clínica, Farias.Eu não quero.

Farias acariciava as mãos da mulher num tom de consolo.

***

Martim chora ao ser largado pelos caras. Sérgião tripudia zombando.
-Isso é para você aprender a não medir forças comigo, tá ouvindo? Podemos estar numa sala privilegiada porque estudamos, mas existe hierarquia aqui, dentro, você ouviu?
Martim não consiga olhar para ele. Estava ainda se recuperando do estupro. Sérgio pegou sua cabeça e retorceu.
-Você ouviu caralho?
Martim estremeceu e respondeu chorando.
-EU OUVI!
-Ótimo, agora chora e pensa em todas as famílias que você destruiu, seu filho da puta.

***

Amanhece…

Otávio já tinha combinado com alguns presos de sua cela e outros na janta sobre o plano de Lucas e em troca eles teriam direito a um bom advogado.

Não demorou muito uma rebelião começou a acontecer no café da manhã, chutaram o vilão, derrubaram-no no chão.
-SOCORRO! Alguém me ajuda!
Gritavam que estavam inconformados com o que ele fez com o irmão. Daqui a pouco mais gente se juntou e mesmo alguns presos que nem sabiam nada juntaram a causa. Não demoraram muito alguns policiais ajudaram a separar a briga, levaram os responsáveis para solitária e Otávio para a enfermaria.

Chegando lá, o garoto fingia sofrimento, estava com o nariz sangrando, hematomas por toda parte.
-Por favor falem com o delegado responsável! Eles iam me matar! Preciso ser transferido.

Close em seu rosto ferido.

***

James termina de ler sobre os skinhead white power, grupo terrorista de extrema direita como pedia uma das indicações da caderneta. Aquilo se mistura ao sentimento de inveja que tinha de alguns casais homoafeativos que seguia em suas redes sociais. Já que ele não poderia ter um minuto sequer de amor com uma pessoa que o amasse de verdade, porque iria permitir que todos aqueles outros vivessem seus relacionamentos?

Tudo era pelo corpo definido? Pelo comportamento discreto? Pelo nariz afinado? Pelo jeito de difícil? Pelas roupas importadas? Pela fama? Por que só assim podia ser aceito? Por que não podiam aceitar ele do jeito que ele era?

Viados imundos. Como ele odiava toda aquela categoria que pregava tanto inclusão, mas no fim excluía indivíduos que fugiam do padrão. Passou para um site fitness e repetiu para si mesmo.
-Se é o corpo, a aparência que dita as regras, pois isso não será o problema, porque eu vou ser o jovem mais bonito de todo universo e nenhum de vocês vai poder me tocar, porque eu vou exterminar todos vocês, um por um.

***

Lucas está preocupado, arrumando uns papeis e os colocando numa caixa no depósito da delegacia quando Farias entra. O delegado leva um susto.
-Eita, calma. Só vim dizer que vou dar uma volta com ali babá, o dia está calmo e sereno. Ah, só para te afirmar. O superior tribunal de justiça acabou de emitir o alvará de soltura de Vera. Se você quiser cuidar disso.

E saiu. Lucas ficou preocupado.
-Espero te ver muito em breve, meu amor.

***
Mais tarde…

Otávio sai da penitenciária com uma face misteriosa, parecia segurar um riso. Ele é levado por policiais até um camburão onde outros o recebem. Eles haviam recebido propina de Lucas e negociado alguns cargos também. A imprensa farfalhava alto. Albino tentou conseguir uma palavra com o gêmeo do mal, mas acabou batendo o microfone na cabeça de um profissional que fazia segurança, o mesmo lhe deu um empurrão, o repórter voou longe.
-Mas que despautério é esse! Isso é abuso de autoridade!
O camburão se fechou.

***

Uma carcereira anunciou a Vera que ela estava solta.
-Eu estou livre? LIVRE?!
Slot motion. Ela saiu da cela emocionada sobre os aplausos. Ela retira seus pertences e caminha para fora. Lucas a aguarda com uma viatura.
-Até direito a viatura, eu tenho?
Lucas ri.
-Eu avisei a senhora que a injustiça seria reparada. Cá estamos aqui.
Ela fica feliz. Ele abre o carro para ela entrar.
-Para onde vamos?
-Pensei na casa de Melina.
Quando ele fecha a porta do motorista, mandam mensagem a ele que estão prestes a executar o plano.

***

Instrumental crescente. Na estrada, no interior do camburão que está levando Otávio, os policiais se entreolham, um assovio do motorista os fazem se mobilizar, retiram a algema do vilão que agradece.
-Finalmente! Não aguentava mais esperar. Ai, meu pulso.

Instrumental explosivo. Um carro ao longe se aproxima. Quando todos já estão de cinto, o motorista joga o camburão para um descampado, o veículo tomba, Otávio abre a porta e espera aquele carro se aproximar. Ele entra e zarpam

Otávio manda uma mensagem para Lucas de um celular que recebe de um dos policiais dizendo que só ia pegar seus pertences e o encontraria no Terminal Portuguesa-Tietê como haviam combinado para fugirem. Lucas respondeu que já havia conseguido as identidades falsas. 22h lá se encontravam.

***

Anoitece…

Lucas chega com Vera na casa de Melina. Apertam a campainha. A casa estava com os cômodos escuros.
-A senhora tem muito o que conversar com todos, entende agora por que a trouxe aqui?
Ela acena com a cabeça baixa envergonhada.

Apertam novamente. Matilde aparece no portão.
-Desculpem a demora, estava terminando a janta das crianças. Não podia sair.

Lucas não entende.
-Ué? Mas Melina não está em casa? James?

Matilde explica.
-Melina saiu assim que viu a notícia na televisão da fuga de Otávio, ela estava preocupadíssima. James saiu pouco tempo depois pelo mesmo motivo. Fazem um tempo ja que não voltaram. Se vocês quiserem aguardar.

Vera confirma.
-Claro, queremos sim.

Eles se adentram. Lucas diz para Vera que não conseguirá aguardar. Mas pede para que ela fique. Ele sai com o carro. Minutos depois de tomar um chá, ansiosa, Vera agradece Matilde, mas diz que vai para casa e no outro dia retorna para falar com a família.

***

Gêmula acorda e percebe que dormiu no sofá.
-Nossa, que sono pesado. PESSOAL?

Ouvi-se apenas a ventania lá fora.
-Que horas são?

Ela vai até a cozinha e descobre ser 19h. Dirige-se até os quartos e não vê ninguém.
-Mas onde foi todo mundo? Sabem que depois daquele atentado não gosto de ficar sozinha aqui, ainda mais de noite.

Ela olha no celular e vê que ninguém deixou uma mensagem. Estranha. Veste uma blusa e sai para rua.

***
Mais tarde...

Lucas liga preocupado para Otávio e não consegue resposta. Já ia dar dez horas da noite e nada. Será que alguma coisa havia acontecido no caminho? Ligou para os policiais que confirmaram tê-lo deixado em uma residência na Vila Prudente. Anotou o nome da rua e o número. Não teve outra alternativa a não ser trocar as passagens para o outro dia e partir para lá

***

Instrumental de mistério. Em sua pousada, Bennit está fazendo suas orações quando tem um mal pressentimento por uma brisa inesperada. Ela retorna ao interior da pousada e toma posse de uma foto que Berta retirou ao lado de James, Carlos e Gêmula que estava revelada em cima de uma cômoda na sala e a observa de perto.
-É, querido, eu bem que avisei que essa história não iria terminar assim, aqui se faz, aqui se paga.

Close em seu rosto enigmático

***

Lucas chega ao endereço e estranha ao ver todas as luzes apagadas, exceto uma aos fundos no segundo pavimento. Aperta a campainha e ninguém aparece. Ele então percebe que a cerca está apenas fechada e se adentra
-Otávio?
Chama, mas ninguém responde. Ele mexe na maçaneta da porta e ela estava apenas fechada. Acendeu a luz, a sala parecia tranquila, os móveis estavam bem organizados, embora empoeirados, nenhum sinal de vida ali, a casa parecia desocupada. Ali, sobre o tapete fora onde Maria, mãe de criação de Otávio falecera de infarto. Adiantou-se pela escada e chegando ao corredor notou quadros antigos de família dispostos na parede ao acender a luz, mais adiante um papel de bala de menta Asus estava no carpete vermelho no chão. Ele particularmente adorava. Parecia recentemente usada, porque ainda preservava o aroma.

Chegou ao banheiro e bateu na porta.
-Otávio? Está aí?
Ao abrir o único aposento iluminado desde o princípio, soltou uma expressão de horror ao constatar o pendular de um corpo em suspensão no ar, uma corrente amarrada em uma haste de metal conectava o teto ao cadáver: Otávio estava morto enforcado.

Instrumental explosivo. Close no rosto aterrorizado de Lucas.

 

Continua…

POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

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