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O Lobo e Cordeiro – Capítulo 6 – Instinto

O Lobo e Cordeiro
Romance 2015
WEB MINISSERIE
Escrito por Alisson Baxter
Exibida pela TVN : 2017

Capítulo 06

~Instinto~

Em um sobrado na capital Paulista…

Otávio chega do mercado carregando sacolas quando percebe que a porta da sala está escancarada. Ele se adentra e encontra Cintia, a vizinha e melhor amiga de sua mãe ajoelhada ao lado de um corpo que enfarta. Seus olhares se encontram. A mulher que o parira agora morria bem na sua frente, era dislipidêmica hereditária. Seus lábios pálidos, relutavam por um pouco de oxigênio, o menino observava a própria mãe em silêncio. Ela disparou quando o viu:
– Mesmo sendo um diabo em carne e osso, não se intimide, preciso ainda revelar-te uma coisa.
Ele gelou. Havia nos últimos meses participado de tráfico de cocaína pelo país, era branco, os policiais não o associavam ao delito, já que esses haviam sido doutrinados a exterminar negros num verdadeiro genocídio a céu aberto, mas se mesmo sua cor de pele não adiantasse, usaria sua face angelical, ele dormiria, venderia seu corpo, tudo para que continuasse na empresa de vendedores anônimos. Ela, porém, sabia a qual laia o menino pertencia, mãe sempre sabe das coisas. Ele se aproximou ainda perturbado:
– Deixa de bobeira, você é forte, vai logo está de pé. Quanto a revelação, só peço que não seja mera opinião, estou farto de seus lirismos comedidos.
Ela riu, apesar de sentir que lhe socavam a garganta, uma náusea forte a refreou, ela sempre estivera certa ao seu respeito, era ingênuo no fim das contas:
– A terceira bruxa fiandeira já veio bater na minha porta pela segunda vez, ela é impaciente, trouxe munição dessa vez, acho que terei que deixá-la usar a tesoura. Ai que dor…Pai amado,preciso ir desse jeito? Mas deixemos de formalidades, o que eu tenho para revelar para você é importante.
Lágrimas escorreram pela sua face
– Não posso partir sem te deixar a par de tudo!
Ele estremeceu. Fazia anos que não via aquela pobre senhora deixar-se levar pelas emoções tão fortemente que renovasse o orvalho de seus olhos:
– Desembucha mulher, não tenho todo o tempo do mundo!
Cintia o censurou com uma expressão de reprovação. Ele a ignorou.
– Você não é meu filho!
As pupilas do rapaz se dilataram:
– O que está dizendo?
A mulher concluiu  com dificuldade, começara a entrar em estado de hiperidrose.
– Eu sempre fui estéril…desde um aborto efetuado sem nenhum preparo médico adequado quando jovem. Mas nunca deixei de lado o sonho de ser mãe. Quando seu pai morreu, ou melhor, o meu amor, já que ele não tinha nenhum parentesco contigo, passei a vagar pela cidade em busca de felicidade, fiquei sem chão, a solidão era insuportável. Foi quando encontrei sobre um pneu velho coberto por uma toalha, um recém nascido largado na marginal tietê. Tadinho. Era você!
Close no rosto paralisado do rapaz
– O que… Está dizendo?
Cintia afirmou
– Foi isso mesmo que você ouviu Otávio! Você foi abandonado pela sua família biológica próximo ao Tietê!
A alma do rapaz desfaleceu. Sobre seu espanto, sua mãe tivera um reflexo vaso-vagal e vomitara. Cintia, que era enfermeira, tentou ajuda-la, mas a pobre já entrara em um estado de torpor. Ele sentou ao seu sofá e segundos depois, antes mesmo do óbito ensimesmar-se, já partira com a mochila nas costas, sua vida fora de uma mentira e ele precisava dar um jeito de resiginificá-la, buscando a verdade. Nos braços de sua vizinha, faleceu. Aos fundos, ouvia-se a sirene do Samu se aproximando.

***

Melina desce as escadas totalmente fora de si e por pouco não tropeça.

-FORTUNATO! FORTUNATO!

O homem que terminava de explicar por telefone a seu cliente como deveria se portar para a visita da assistente social, é interrompido pela mulher que entra de supetão no escritório.

-AMOR, VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR NO QUE ESTÁ ACONTECENDO! SÓ PODER SER UM PESADELO, MEU DEUS!UM CARMA QUE ROGARAM EM NOSSA FAMÍLIA! NÃO É POSSÍVEL!

O advogado fica preocupado.

-Senta um pouco, querida. Vou pegar um copo de água para você!

Ele vai até a cozinha, mas ela não o espera e vai atrás, disparando num só tom.

-Sua irmã acaba de me ligar! James desapareceu de novo! O Pior é que…ele se envolveu, amor. Envolveu-se com seu primo Martim, foi abusado sexualmente e agora os dois estão vivendo um romance!

O cinquentão caiu para trás, esbugalhando os olhos, uma vermelhidão subia pelo pescoço, começou a ficar com falta de ar, Melina afrouxou a gola para ele respirar melhor, sentou-se a mesa.

-Eu não tô acreditando! EU NÃO TÔ ACREDITANDO QUE AQUELE MARGINAL TOCOU EM NOSSO FIHO! Onde estava Totoya nessas horas? Ela é muito bem paga para cuidar do menino!

-EU NÃO SEI, AMOR! EU NÃO SEI! Parece que ele esmurrou a coitada, jogou a própria Vera no chão! Ela está com a testa cortada! Você sabe muito bem como ele fica sem tomar os remédios! Agitado! Violento!

Fortunato bateu na mesa irado.

-Chama polícia, Melina! PEDE PARA VERA CHAMAR A POLÍCIA! Estamos indo agora para Itamonte!

***

No carro de Martim, James contemplava as árvores encobertas por neblina, estavam descendo a serra da Mantiqueira. Seu olhar estava perdido. Estaria certo fugirem daquele jeito feito prisioneiros? Sentia-se uma Anna Karenina de Tolstói, tendo que fugir para Europa com Vronsky. Tudo bem que ele não era uma czarista, nem estava traindo ninguém, mas sentia em Martim um progressismo, uma possibilidade tão grande de desconstrução, uma liberdade, uma sensibilidade que o Conde oferecia a sua amada diante uma sociedade ortodoxa russa no século XIX. De repente, uma imagem tomou sua mente, sua tia já era hipertensa, havia fumado por longos anos, tinha problemas com enxaqueca, já fora alertada pelo médico do risco de AVC e se viesse a ter um episódio daqueles diante todo aquele cenário, questionou Martim.

-Amor! Você sabe que eu decidi fugir contigo, mas não sei se estamos fazendo o certo!

Com uma das mãos no volante, levantou a outra e acariciou James a fim de aliviá-lo daquela situação.

-Por que não estaríamos mor? Nos amamos, mas ali em Itamonte, a Vera ia encher nosso saco! A vizinhança ia nos linchar, eles tem uma cabeça muito fechada para dois homens se amarem.

-É que ela tem problema de saúde, sabe? Eu tenho medo dela passar mal, acontecer o pior por minha culpa e…

Martim completa com um olhar frio.

-E morrer?

James se assusta com o jeito que ele profere, o olhar do homem parece entrar num estado de êxtase, meio risonho.

-Nossa Martim, por que está olhando desse jeito para mim?

O Homem se interrompe daquele transe momentâneo e foca na estrada

-Desse jeito como?

-Meio satisfeito, não sei dizer. Eu falei de algo tão…sério!

Martim se vira novamente para ele meio confrontador

-Eu não acho que seja algo sério! Se ela morrer, morreu! Todo mundo morre um dia! Você não deve se sentir responsável por algo que não lhe cabe. Sêneca em Roma já dizia que não importa se a vida é curta ou longa, o que importa é se ela foi bem vívida! E é o que estamos fazendo. Convenhamos, Vera já está no bico do corvo! Não deve durar mais que uns 5 anos.

James se surpreende.

-Nossa que horror! Martim! Ela tem muito que viver ainda! Ela pode ter os defeitos dela, mas essa mulher me criou mesmo a distância, sempre foi muito atenciosa, ela só está confusa, é novidade para ela essa questão de homossexualidade.

Martim pensa um instante e se vira para ele.

-Sabe que às vezes a sua ingenuidade me…(O garoto teme que ele o critique, mas Martim sorri e lhe rouba um selinho) provoca encantamento, é tão fofo, todavia, você não sabe de nada, meu amor, o ex-marido dela, seu tio que faleceu há 10 anos, seus pais devem ter escondido de você, imagino! Era uma criança! Ele morreu de pneumonia por que tinha imunidade fragilizada, ele era aidético!

Close no rosto surpreso de James.

-O quê?

Martim finaliza.

-É isso que ouviu! Ele tinha HIV! Ele traiu a vida toda Vera com uns caras da cidade! Ela descobriu, mas mesmo assim continuou com ele. Então dizer que ela não aceita, é uma hipocrisia!

James perdeu-se em pensamentos, aquilo o fez mal. Martim acariciou suas mãos e o beijou, seus olhares no entanto, pareciam contemplar aquele espetáculo.

-Eu sei que essa história é horrível! Mas Vera não é essa pessoa que você pensa! Não custava ela te aceitar, sabe? Nos aceitar. Ela foi egoísta, pensou só no preconceito enraizado dela. Corta-me o coração dizer isso a você desse jeito! Você já tem os seus problemas, não merece ter mais esse, contudo, eu não posso afirmar que te amo e ao mesmo tempo esconder uma informação dessas ao te ver se enganar. Não quero que tenha raiva dela… Só quero que aprenda a se colocar em primeiro lugar.

James deitou em seu ombro e fechou os olhos, lágrimas escorreram pelas suas sardas, Martim observou o movimento em silêncio. No porta-malas, Totoya ouvia tudo, estranhando muito.

***

Otávio termina a rodovia Ayrton Senna e chega finalmente a Marginal Tietê e sobre o incendiar forte do sol se imagina sendo largado ali por alguma alma desumana, uma criança com frio, tremendo, chorando em vagido, até que ouviu uma voz familiar o chamando. Ele se virou. Rogério, um de seus amigos estava ali bem na sua frente. Ele instigou:
– Roger…O que está fazendo aqui?
– Eu já tô sabendo de tudo, miga! Passei na sua casa! Cintia me contou o que aconteceu, conhecendo como te conheço, sabia que via para cá.

Otávio que estava tentando não chorar, naquele exato momento jogou-se no chão como uma muralha que pende ao ser derrubada. Chorava forte. Rogério o abraçou. Otávio gritava desesperado.

-EU FUI LARGADO AQUI, ROGER!! UM BEBÊ! MEUS PAIS ME DEIXARAM AQUI….Eu poderia ter morrido, poderia ter caído dentro desse esgoto nojento, ser atropelado por algum maníaco. Como que puderam fazer isso comigo? Eu nunca fiz mal a eles! Eu era indefeso! Como tiveram a coragem? Eu nunca vi algo tão horrível em minha vida!

-Eu sei amigo…eu sei! Nem eu tô acreditando nisso tudo… Mas fala! Joga isso para fora!

***

Vera berra indignada ao telefone, estava falando com o policial.

-COMO ASSIM VOCÊS NÃO PODEM VIR AGORA? MEU SOBRINHO TÁ DESAPARECIDO COM UM MANÍACO QUE DESVIRTUOU A CABEÇA DELE! SÃO PRIMOS ! Eu sei que ele já é maior de idade! Só que ele faz tratamento psiquiátrico, estou com o laudo aqui dele! Vocês precisam mandar uma viatura para cá! É UMA EMERGÊNCIA! Só no fim do dia? Mas meu bem, não é possível que vocês não tenham mais gente na equipe! Eu sei que estão lidando como o tal do assassinato da filha do fazendeiro Floriano, sei que existe um assassino a solta! Mas o meu caso…

Desligam o telefone. Ela fica irada.

-Que merda de polícia que não faz nada! Também com essa corrupção! Deve ter dedo do PT que roubou milhões e eles não repassaram dinheiro e não botaram gente decente! Quando falam que precisa de intervenção militar ninguém acredita! Ah, mas eu não vou ficar quieta, eu vou lá! Vou tomar banho e ir na casa daquele sujeito! Na casa daquele sujeito e trazer meu sobrinho de volta! Tomara que eles estejam por lá! E a Totoya que não volta do açougue, disse que ia dar uma passadinha lá para mim!

***

Depois de duas horas e meia de viagem, Martim resolve passar o resto do dia dia e dormir no hotel de um amigo em Lorena, cidade do interior de São Paulo. Estaciona o carro e desliga o motor. James fica encantado com a decoração.

-Amor! Eu tô chocado! Parece um castelo! Olha só essas janelas! Essas torres!

Martim sorri, puxando o blazer.

-Sabia que ia gostar.

Martim se dirige a recepção com James, deixando a chave no volante. Ele cumprimenta seu amigo, dono do local, com um grande braço e uns tapas nas costas. Neste instante, Totoya abre o porta-malas, sai e o fecha delicadamente, escondendo-se atrás de um árvore do outro lado da rua. Os dois somem lá para dentro. Um funcionário aparece para estacionar o carro em uma das garagens na área externa depois dos portões, o hotel oferecia esse serviço. Totoya fica pensativa.

-E agora como vou entrar lá dentro? É um hotel caro! Se bem que…esse corpinho ainda dá para o gasto! É…Totoya você precisará relembrar a época que rodava bolsinha na Augusta! E os homens nunca te criticaram! Tá aí! Alguém há de me colocar lá dentro! Mas agora preciso encontrar uma lanchonete, essa adrenalina toda me deixou faminta!

***

 

Vera chega na casa de Martim e aperta campainha de forma insistente.

-APARECE SEU ANIMAL! EU SEI QUE ESTÁ COM MEU SOBRINHO AÍ DENTRO!

E bate com força na porta. Gregório que estava tomando conta da casa aparece.

-Mas o que a senhora está fazendo, minha senhora? Enlouqueceu de vez?

Vera o empurra, entrando para o interior da residência.

-CADÊ ELES? ONDE ESTÃO OS DOIS?

Ela entra na cozinha, disparatada, adentra pelos quartos.

-ONDE ESTÃO ELES?

-Minha senhora, por favor!

Ela retorna ao exterior.

-O carro! ONDE ESTÁ O CARRO?

George finge que não escuta. Mas ela parte para cima dele, sacudindo sua camisa, dando-lhe socos.

-ONDE ESTÁ O CARRO? ME FALA ONDE ESTÁ O CARRO? EU EXIGO SABER ONDE ELES ESTÃO!

Ela acaba passando mal e começa a ficar tonta. Neste instante, Fortunato e Melina, que tinham acabado de chegar na cidade e verificado que ela não se encontrava na sua residência, descobrindo pela vizinha que encontrou com ela pelo caminho e foi confidente de seu destino,  invadiram portão a dentro, presenciando a cena da mineira.

-VERA! VERA!

Lentamente eles desceram a mulher no chão. Estava pálida. Desmaiou. Melina bradou.

-A pressão dela deve ter caído! Precisa de um médico!

-Eu vou chamar! Fique com ela aí!

Nesse ínterim, Gregório escapou de fininho.

***

Rogério chega com o amigo em seu apartamento, já estava anoitecendo. A face cansada de Otávio, o andar arrastado, ainda desiludido, assustado com toda revelação que tinha ouvido.

-Fica a vontade, becha! A casa é sua! Se quiseres tomar banho, tenho roupas limpas! Você sabe, pode pegar!

Otávio agradece e se dirige ao quarto, retirando suas roupas. Ele toma uma ducha fria. Chora inconsolavelmente, depois penteia seu cabelo, limpando o vapor do espelho. Puxa água do banheiro com rodo e troca de roupa no quarto de Rogério. Dirigi-se a cozinha ao ouvir barulho de café sendo coado. Rogério o repreende.

-Ah não, miga! Vamos mudar essa cara aí! Puxa vida, você tomou banho, pensei que fosse dar um up! Precisa reagir! Sei que o babado foi forte, mexeu com as estribeiras! Mas a vida não acabou!

Otávio discorda, puxando a cadeira e sentando a mesa.

-Pois para mim acabou! Vivi esses vinte anos numa mentira! A minha história é uma farsa! Perdeu o completamente o sentido!

Rogério o abraça depois de por a garrafa de café na mesa juntamente com a travessa de bolinhos de chuva.

-Mas essa minha irmãzinha adora uma ceninha né? Eu sei que você tá sofrendo, também estou… Só que você precisa entender que essa é a sua história! Não tem mais tanta importância se mentiram para você, sua mãe te amava, tenho certeza que fez isso para te proteger, para te poupar. Agora você sabe da verdade e por mais doloroso que seja, deveria despertar em você um sentimento de busca até meio misturado com raiva para ir atrás do seu passado e descobrir a verdade, a sua verdade!

Otávio o observa por um instante e depois o empurra indignado.

-Você romantiza demais a situação, Roger! ESSES MONSTROS ME LARGARAM NA SARJETA! ELES NÃO MERECEM OS MEUS SENTIMENTOS! NEM UM PINGO DE SENTIMENTO!

Rogério termina de mandar mensagem para Cintia no celular.

-Cintia acabou de me dizer que acabou de agendar o velório para amanhã de tarde. O médico já atestou a morte.

Otávio solta gritos esbaforido e se dirige ao quarto de hospede.

-E eu quero lá saber!

Bate a porta.

***

Totoya se adentra ao local com óculos escuros e uma roupa meio caliente que havia comprado em um brechó, no centro da cidade. Ela apruma o decote e observa de longe na recepção até o momento que Orfeu, amigo de Martim, desaparece no interior do hotel com um casal de clientes. Assim que se afasta, ela vai para o ataque, mascando chiclete e exalando uma fragrância barata de farmácia. Um dos recepcionista a recebe meio sem graça, era o mais idoso da casa:

– Vai querer um quarto moça?

– Na verdade, eu vou querer é outra coisa, seu moço!

Ele se cora ao ver os seios à mostra da indonésia

– Não entendi seu pedido! Eu vou…eu vou…

Ele corre para dentro perdido.

-Ei, meu senhor! Meu senhor! Que droga!

E bate no balcão, irritada. Orfeu reaparece no saguão de entrada e ela senta nas poltronas por perto, disfarçando com uma revista na cara. Como agora iria conseguir entrar no quarto do casal e arrancar de Martim de uma vez por toda uma boa grana? O que ela sabia a seu respeito renderia milhões! Sabia que ele não tinha tudo isso, mas uns milhares conseguia fácil, pelo menos era muito mais do que ganhava para ser babá daquele problemático!

Neste mesmo instante, no estacionamento, Martim e James estão saindo para ir ao cinema no grande shopping da cidade.

***

Já era de noite, quando Melina ligou para Fortunato do hospital, avisando que Vera repousava bem segundo o anúncio de um médico de plantão. Fortunato se felicitou e desligando o celular se adentrou numa delegacia.

-Gostaria de falar com o delegado, por favor!

Lá ele descobre que uma denúncia já fora feita e consegue insistindo que comecem finalmente a procurar por James e Martim, mencionando Gregório, o qual fugiu e ele descobriu,nas redondezas, ser um caseiro. Ao fim, mostra duas fotos, uma de seu filho e outra de seu primo.

***

Já era nove da noite, quando Martim e James aguardavam na grande fila de um supermercado, dentro do shopping, depois que saíram do cinema. No entanto, a compra não passou nos cartões de Martim e ele perdeu a paciência, procurando por um banco 24 horas por perto, tentou passar sua biometria, mas não conseguia, tentou em outro, não conseguiu novamente, chutou o caixa eletrônico.

-MERDA! Por que não trouxe meus cartões bancários? Deveria ter pego a carteira inteira, caralho!

James o acalmou.

-O supermercado fecha às dez! Ainda dá tempo! Faz o seguinte..volta para o hotel, que pelo que pude perceber não é longe daqui, pega os cartões bancários e conseguimos levar as compras hoje!

Martim o beija.

-Você é um gênio, amor!

James se cora.

-Sou nada! Agora corre lá! Vou aguardar dentro do supermercado!

***

Totoya nota quando Orfeu não está por ali que uma faxineira, aos fundos da recepção, entrou com uniforme por uma porta e saiu sem ele. Tratava de um vestuário. Como não pensou nisso antes? Era o jeito perfeito! Esperou a câmera vibrar para não filmá-la e entrou no aposento.

Martim terminava de mexer na gaveta de uma cômoda, apossando da carteira, quando alguém apertou a campainha.

-Serviço de quarto!

O artista plástico estranhou

-Serviço de quarto? A essa hora?

Ele abriu a porta e levou um baita susto ao ver Totoya vestida de faxineira bem irônica na sua frente.

-Surpresa!

E soltou uma risada estridente. Martim tentou bater a porta na cara dela, mas ela pôs o pé e conseguiu entrar.

-Você nos seguiu, sua cachorra?

-Nossa que grosseria! Sua falecida mãe nunca te ensinou não? Que é falta de educação bater a porta na cara dos outros? Ainda mais dessa reles faxineira aqui! Direitos trabalhistas, já ouviu falar? Vou reclamar para o meu chefe, aquele careca do seu amigo, vamos ver se ele não vai me dar razão!  (Ela fechou a porta educadamente)

-Você nos espionou? Olha… eu nem sei porque ainda estou falando com você! Vai te embora daqui, eu vou chamar a segurança!

Ela soltou segura de si.

-Aproveita e chama a polícia! Aposto que eles vão adorar saber do seu paradeiro!

Um instante de silêncio. Ele riu alto.

-Você realmente é uma piada! Acha mesmo que vão me prender por conta do James? Ele é maior de idade!

-Mas ele faz tratamento psiquiátrico!

-Foda-se! Ele não está tendo crises, está consciente. Podemos até ir para uma delegacia, mas ele vai passar por uma equipe de psicólogos e logo será liberado, ele vai dizer que quer ficar comigo e pronto.

-Será?

-Olha, saía daqui! Quiser contar onde estamos, pode contar! Eu não quero chamar a segurança, mas você está me obrigando!

Ela mostra um sorriso insano quando ele pega o interfone.

-Será mesmo que o James vai querer ficar com você…quando souber que é um assassino em série?!

A respiração de Martim para. Ele larga lentamente o interfone. Estacou-se. Um medo subiu pelas entranhas. Virou a face para ela. Ela sorria mais do que nunca.

-Você achou mesmo que eu viria até aqui no porta-mala apertado do seu carro apenas para te dedurar para priminha querida? Dizer onde os pombinhos estavam? (Ela lhe dá as costas, servindo-se de um uísque sobre uma bancada) Ah, faça mil favor, né Martim? Como você me subestima… (Ela serviu um copo para ele também, mas ele o derrubou no chão bruscamente. Ele estava mudo). Quanta violência! Ah mas eu esqueci… É da sua natureza! Matou quatro sem sentir nenhum remorso! Ontem mesmo, tratou de afogar a pobre da filha de um fazendeiro…Mas sabe que eu não entendo o motivo de tanta morte! Fico imaginando aqui…Seria por que elas sabiam algo a seu respeito? Ou melhor uma foi descobrindo a morte da outra? Queima de arquivo em série? Ou você mata por prazer mesmo?

Martim irrompeu do silêncio.

-CHEGA! Eu não sei do que você está falando!

-Sabe sim! Vai mentir agora? Não assistiu Pinóquio e viu que o nariz cresce? Meninão levado!

Ele se irritou. Ela lhe revelou a gravação que fez. Ele assiste perturbado.

-Fiz cópias! Então pode apagar esse se quiser.

-O que você quer, sua maluca? Para me deixar em paz?

-Agora sim…estamos falando a mesma língua! Ufa! Até que enfim! Achava que era deficiente auditivo! Já ia te recomendar um otorrino maravilhoso lá da capital! Seguinte…quero uma garantia!

Ele não entendeu.

-Uma garantia?

-Uma garantia que não precisarei trabalhar para o resto da minha vida! Umas 7 milhas por mês está de bom tamanho!

Ele ri.

-Você só pode estar de brincadeira com a minha cara?!

Ela balança a cabeça negativamente.

-Não! Nunca fui tão séria em toda minha vida. Qualquer um no meu lugar cobraria milhões por este segredo! Eu estou sendo generosa! Mas se você não entendeu, eu terei que ir agora numa delegacia contar tudo que sei.

Ela lhe dá às costas, fingindo sair. Ele grita

-ESPERA!

Ela sorri vitoriosa. Ele a encara em silêncio. Ela se vira. Ele permanece a encarando. Sua respiração diminuíra.  Rugas de horror surgiram em seu face.

-Por que está me olhando desse jeito? Que foi? O gato comeu sua língua?

Ele nada respondeu. Só a observava sombrio.

-Acha que eu tenho medo de cara feia? Ah cansei dessa brincadeira de criança! Vou me embora daqui!

Martim corre até a gaveta e toma posse de um objeto, quando ela se prepara para sair, ele a puxa pela mão. Ela se assusta ao vê-lo diante de si portando uma facão de carne. Com um golpe certeiro na barriga, esfaqueou-a,derrubando-a com brutalidade no chão, ela bateu com estrépito, ele enfiou um novelo de meia na sua boca para abafar o som. Retirou a faca e depois a cravou de novo, agora no peito. Ela urrava, implorando, esperneava, lutando contra ele, contudo, ele não parou. Com toda sua força continuou a perfurando sem piedade, sangue jorrava em sua face e ele se satisfazia com aquele gosto que lhe era familiar. Os balismos das pernas dela foram diminuindo. Ele continuava maquinalmente ganhando velocidade e se banhando de sangue feito infanto. Ao final a pobre coitada estava esfacelada no carpete do cômodo. Ele se levantou com a respiração ofegante e parou um instante a contemplar o feito que havia concluído. Olhou nostalgicamente para a faca ensanguentada que tinha nas mãos e caiu numa risada infernal.

CONTINUA…

James estava diante do espelho. A sua relação com ele parecia estar melhorando. Acariciou sua barriga. Passou a mão pelas saliências de suas estrias sem se queixar. Usou desodorante. Vestiu seu melhor casaco. Escovou os dentes. No ônibus contemplava os passageiros. Leu uma mensagem em seu smartphone. Sorriu. Desceu, caminhou até o local. Ele aguardava tanto por ele. Lembrou-se de quando haviam se conhecido. Já fazia alguns meses. E Finalmente ele sentia que estava sendo ouvido. Que às coisas iriam melhorar! O homem se aproximou. James se levantou. Entraram na sala. James se sentou.

-É querido James! Chegou o grande dia! Decreto o fim de seus medicamentos psiquiátricos! Hoje encerramos o Topiramato e a Rispiridona! Você nunca teve motivo para isso! Auto medicalização desnecessária! Síndrome de Borderline você nunca teve! Você teve um episódio depressivo, mas superou.

O Jovem sorriu. Estava dando um grande passo.

 

POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

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