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O Mensageiro

O Mensageiro

Albert Hamilton Fish foi um pedófilo e assassino em série  americano do início do século 20. Ficou conhecido pela polícia como bicho-papão e Assassino Grisalho. Durante sua vida foi suspeito de cinco mortes (apesar de afirmar ter matado crianças em todos os estados americanos). Fish confessou apenas três dos homicídios e o ataque a duas outras pessoas. Foi também julgado pelo rapto e assassinato de Grace Budd. O serial Killer seduzia suas vítimas com sua aparência frágil e carismática. Depois as comia em refinados banquetes. Ele foi condenado à morte na cadeira eléctrica  em 1935.  O conto “O Mensageiro” é uma alusão aos seus crimes.

 

I

            Fazia frio quando ele chegou. Bateu na porta, limpou os pés no tapete e entrou. Parecia cansado, com o cabelo desarrumado e as mãos grossas como lixa. Pediu para nós um copo de água. Esperei que mamãe me mandasse pegá-lo. Só o fiz quando acenou para mim. Fui até a cozinha, peguei o maior copo que tínhamos no armário e o enchi de água da torneira. O estranho me olhou esquisito. Ele bebeu todo o líquido que havia lhe entregado.

            _Não precisa se envergonhar moço, ele tem problema de cabeça _ disse minha mãe. O estranho sorriu e me devolveu o copo vazio.

            Ela adorava contar minha história para os outros, que nunca aprendi a ler, que não sabia escrever. Falava que minha cabeça era enorme quando nasci. Tão grande que tiveram que cortar sua barriga para eu sair. Quando dizia isso, mostrava sua cicatriz em meia lua.

            Parte de tudo isso é verdade. Apesar de frequentar a escola, eu nunca aprendi a ler, e muito menos, escrever. Não sei o nome da minha cidade ou do meu país, nem de onde moro. Eles me falam, mas eu esqueço. Só sei que aqui faz muito frio, tem muitas árvores e bosques. Chove muito durante o dia, um chuvisco fino. Conheço todo mundo da minha rua, seus nomes e onde trabalham. Às vezes conversam comigo e me dão doces, desde que eu não brinque com seus filhos e filhas.

            Na minha escola todo mundo é como eu. Brincamos com jogos de madeira e de pintar. Só que quando tenho que ir para os livros, fico com dor de cabeça. Tenho vontade de aprender às letras, mas elas me escapam assim que entram na minha cuca. Não consigo deixá-las presas lá dentro, apesar de me esforçar muito, muito, muito. Minha mãe diz que a culpa é do meu pai, por chutar sua barriga quando grávida de mim. Não gosto quando conta isso para os outros. Me sinto culpado por ele ter ido embora, por me deixar sozinho com ela. Sempre vou me lembrar do papai emburrado comigo, me chamando de retardado, dando cascudos na minha cabeça. Quando bebia era bem pior; batia em mim e na minha mãe com o que encontrasse pela frente. 

            Três meses antes do velho aparecer, ele me deu um dinheiro e pediu para que fosse à padaria comprar três sonhos. Saí correndo pelo portão, feliz por ser útil (porque gosto muito de ajudar). Adoro quando me pedem para fazer alguma coisa, me sinto importante.

            Entrei na padaria com John no balcão.

            _Eu quero três sonhos _ disse lhe entregando o dinheiro.

            O balconista deu um sorriso maroto. Retribui sem jeito. Não eram de fazer graça.

            _ Muito bem, vou lhe dar três sonhos, Pablo _ John pegou um saco de papel e gritou dentro dele: – Ficar rico! Ganhar a Copa do Mundo de Futebol! Me casar com Elizabeta! _ Depois fechou o saco e me entregou – Aqui estão os seus sonhos.

            Voltei para casa com o saco na mão. Papai me deu um “tapão” na orelha quando escutou a história.

            _ O saco está vazio, seu idiota!

            _ John disse que quer ficar rico, ganhar a Copa do Mundo de Futebol e se casar com Elizabeta.

            _ Como você é burro, Pablo!

            Naquele dia apanhei tanto que minhas pernas ficaram em carne viva. Ele me bateu com o cinto repetidas vezes, bem forte e com muita raiva. Fui dormir com fome e dor.

            No outro dia, o dono da padaria bateu na porta de casa. Ele entregou para o meu pai algo num saco e o dinheiro. Pediu desculpas e disse ter demitido John. Mamãe me chamou no quarto, parecia preocupada. Papai não disse nada quando sentei à mesa. Apenas me entregou o tal sonho e não se tocou mais no assunto. Como saber que eram de comer e não de sonhar?

            Assim era minha vida: um pouco de alegria aqui e uma tristeza acolá. Depois de alguns dias vi John na rua com Elizabeta. Ele abaixou a cabeça e caminhou  para longe de mim.

            O homem grisalho continuava amuado na sala. Apesar da idade, tinha um rosto bonito, quase sem rugas. Ele me olhava como que medindo o tamanho do meu quadril. Fazia isso apenas com um olho. Eu sentia minha pele arrepiar.

            Ele apareceu numa tarde qualquer. Disse que estava de passagem pela cidade, que ficaria apenas alguns dias e que precisava de alguém para cuidar de suas roupas sujas. Mamãe lavava roupas para fora. Papai havia sumido há algum tempo e precisávamos de dinheiro. Ela aceitou de bom grado o serviço. Por isso ele estava em casa novamente, para pegar suas vestimentas limpas e passadas.

            _A senhora cuidou muito bem dos meus pertences _ disse, cheirando o pacote que minha mãe lhe entregara – Vou pagá-la a contento.

            Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma “nota” de dinheiro. Mamãe arregalou os olhos quando a viu.

            _ Obrigada _   respondeu, toda encabulada.

            _ Não tem de quê _ seu sorriso era branco como a neve. _ A senhora só tem esse filho?

            _ Sim, o que já me basta. Esse já me dá muito trabalho.

            _ Tenho uma neta na cidade, Joana, mora do outro lado do morro; numa casa verde com um jardim na frente. Vocês a conhecem?

            Eu fiz que não com a cabeça. Mamãe ainda ficou um tempo pensando.

           _ Não conheço nenhuma menina com esse nome _ respondeu, tentando se lembrar.

            _ Eles mudaram recentemente _ o velho limpou o rosto com um lenço vermelho. _ Eu sou como a senhora, tenho apenas um filho. Neste sábado, vão fazer uma festinha de aniversário para ela. Gostaria muito de levar seu menino comigo.

            Mamãe não mostrou estranheza com o pedido. Até sorriu.

            _ Tem certeza que quer a companhia de Pablo?

            _ Então o nome dele é Pablo? _ Observou o velho. _ Um nome bonito para um menino gracioso.

            Dessa vez mamãe gargalhou.

            _ Gracioso? Pablo? Sei. _ Ela gargalhou de novo. _ Você quer ir, filho? – Mamãe me perguntou. Fiz que sim com a cabeça.

-Se ele quer ir, por mim tudo bem.

            O velho abriu um sorriso de orelha a orelha. Fiquei observando o jeito como andava. Era alto, bem mais simpático do que a maioria dos velhos.

            Parado na porta, colocou as mãos nos meus ombros.

            -Venho te buscar às cinco horas. Coloque sua melhor roupa e um agasalho.

            Ele se despediu de minha mamãe. Eu fiquei feliz com o passeio. Adorava bolos de aniversário.

            Vesti minha melhor beca: um terninho azul marinho de bermuda curta que combinava com minhas meias grossas de lã. Mamãe penteou meu cabelo com cuidado, reparando nos fios que insistiam em se arrepiar com o toque do pente. Fiquei garboso em frente ao espelho; me achando tão bonito quanto as outras crianças. Depois ela me perfumou com a colônia do papai, com medo que descobrissem o preço do nosso sabonete de banho barato.

            Esperei sentado na sala pelo velho. Sentia frio nas pernas. Na hora marcada ele bateu na porta, estava todo aprumado, de colarinho alto e sapatos pretos lustrosos. Cumprimentou minha mãe com um beijo nas mãos, sempre de olho no ambiente, como que procurando por outro alguém.

            _ E então, Pablo? Pronto para o bolo e os doces?

            _ Sim senhor! _ Respondi animado _ Que horas vamos?

            -Agora mesmo.

         O velho segurou minha mão. Ela estava gelada e molhada de suor. Mamãe sorriu, fazendo mesuras com a cabeça.

            _ O senhor poderia anotar o endereço e o telefone do seu filho nesse pedaço de papel? É para o caso de precisar encontrar Pablo por algum motivo qualquer.

            _ Claro! Pois não, senhora _ ele anotou algo no papel _ Você não vai ter dificuldade em encontrá-lo. Fica perto da ferrovia, do outro lado do morro.

            Mamãe guardou as informações na escrivaninha.

            -Cuidado com os modos, filho. Comporte-se.

            O Velho piscou apertando minha mão.

            _ Não se preocupe. Pablo é um bom menino. Vai dar tudo certo. Minha neta não é de muita frescura. Será uma festa simples, para crianças.

            Do fim da rua dei um tchau para ela. Mamãe foi ficando pequena, pequena, pequena, até desaparecer na escuridão. Continuei segurando a mão do velho. Ele sorria de orelha a orelha, feliz da vida. Pegamos o caminho da ferrovia. Eu também sorria de orelha a orelha, feliz da vida por ter um amigo.

           Fiquei sentado na estação enquanto o velho comprava alguma coisa no guichê de vidro. Ele tinha uma cara lanhada, quase assanhada (muito sorridente para um idoso cheiro de dores). Seus incríveis olhos azuis eram parecidos com bolas de gude. E daquelas bem caras, do tipo que ganhamos só no natal. 

            _ Pronto, Pablo, agora só precisamos esperar.

            Sentou-se ao meu lado, tocando de leve o meu joelho.

            _ Vamos chegar no final da festa?

           _ E se eu te disser que vamos para um lugar melhor, bem mais divertido que uma festa.

            Fiquei assustado. Na verdade, fiquei assustado e curioso.

            _ Que lugar é esse?

            _ Minha casa. Lá temos um incrível jardim, um pomar maravilhoso e animais de estimação. À noite posso cozinhar para você. Um verdadeiro banquete de Reis!

            – Mamãe não vai gostar disso.

            _ Ora, ora, Pablo. Ela não precisa ficar sabendo _ ele tocou minha cabeça. _ Juro que se você não gostar de lá te trago de volta.

            Pensei em correr. Mas essa não era minha melhor opção. O velho parecia legal, sempre sorrindo; diferente do povo lá de casa e da escola, sempre me cobrando alguma coisa.

            _ Vou ter que frequentar uma escola?

           _ Não. Vamos trabalhar na horta, no pomar e com os animais. Será meu braço direito. O que acha?

            Isso parecia bom.

            _ Qual é nome do senhor? – Perguntei de supetão.

            O Velho pareceu incomodado com a pergunta (sobrancelha levantando, suor na testa).

            -Richard. Só que pode me chamar de velho.

 

II

            Era a primeira vez que punha os pés num trem. Por dentro parecia pequeno, menos majestoso do que visto pelo lado de fora. Havia duas filas de cadeiras e pequenos camarotes, com bancos grandes. Foi num desses que entramos, felizes por sentar.

            _ Quis comprar um aposento, mas não havia vagas disponíveis.

            _ O senhor é rico? _ Perguntei de novo de supetão.

            _ Pareço com um homem rico?

           _ Parece _ respondi sorrindo. Sabia que não bateria em mim. Já conhecia um pouco do velho. O suficiente para confiar nele.

            _ Tenho uma vida boa, Pablo. Você também o terá.

            _ Quando volto para casa?

            _ Quando quiser. Quer voltar agora? Descemos na próxima parada.

            _ Não. Quero ir mais adiante.

           Um homem de uniforme pediu algo ao velho. Ele tirou dois bilhetes do bolso e os entregou

            _ Meu neto, Pablo. Ele vai passar uns dias comigo.

            Novamente o sorriso de orelha a orelha.

           Ninguém resistia aos encantos do velho: boa pinta, de papo reto e fácil. Daquelas pessoas que tinham o dom de agradar. Além dos dentes brancos e cheiro de flores. Poderia ser um político se quisesse. Até um presidente da republica. Gostaria que papai fosse como ele, mas era bruto como uma rocha e uma máquina feita para me dar cascudos.

           O velho pediu algo ao janota do trem, que anotou tudo num caderninho. Minutos depois uma moça nos trouxe uma mesa repleta de doces: com bolos, sucos e chocolate quente. Comi o que pude. Estava com muita fome. Não havia jantado. O bolo tinha gosto de festa, assim como os docinhos.

            _Achou que fosse ficar sem sua festa? Precisa confiar em mim, Pablo.

            _ Eu confio, senhor. Confio de verdade.

            _ Como se chama seu pai? Sua mãe sei que é Carmem.

            _Papai João.

            _São mexicanos?

            _Não sei. Não mesmo.

            _Latinos com certeza.

            _Também não sei, senhor.

            _Como é sua escola?

         – É boa. Mas odeio quando me dão livros para ler. Não consigo juntar as palavras.  Não consigo enfiá-las na cabeça.

            _ Entendo. Às vezes, as coisas não se encaixam.

            _ Isso mesmo, senhor. As palavras não se encaixam, não mesmo.

            _Como são seus pais?

            _Como assim?

            _Eles são bons com você ou não?

            _Me batem sempre que faço coisas erradas. E vivo fazendo coisas erradas.

            _Que tipo de coisas?

            _Coisas com dinheiro, esses negócios.

           _Entendo _ o velho estendeu as pernas, encostando as costas no banco. _Também faço coisas erradas _ disse, fechando os olhos.

            _ Que tipo de coisas?

            _ Coisas estranhas, amiguinho. Coisas muito estranhas.

            _ O que são coisas estranhas?

            Ele não respondeu. Caiu num sono profundo. Achei foi bom. Sobrava mais comida para mim.

          O trem fazia “zic-zac-zic-zac-zic-zac-zic-zac” passando por montanhas, casas e casebres. Senti às pálpebras pesadas, sonolentas. Dormi por um bom tempo, encostado na janela. Mas em qualquer curva eu despertava, olhava para o velho roncando e pegava no sono novamente. Quando finalmente acordei dei de cara com uma menininha conversando com ele. De cabelinho loiro, aparentava ter uns 7 anos.

            _ E então, Pablo? Como foi seu sono?

            _ Bom. E o do senhor?

            _ Velhos dormem pouco, muito pouco.

           Havia um quê de esperteza nela. Olhou para mim com estranhamento, arrebitando aquele narizinho estranho.

            _ Quem é esse menino? _ Perguntou para o velho.

            _ Esse é Pablo, meu neto _ mais uma vez o sorriso de orelha a orelha.

            _ Ele não parece ser seu neto. Ele é quase preto.

            _ Ele é moreno, minha pequena, moreno.

            _ O que tem ser preto? _ Perguntei para ela.

            _ Não gosto _ ela respondeu balançando as trancinhas.

            _ Mas porquê? _ Insisti.

            _ São feios. Não gosto de gente feia.

            _ Até parece que você é muito bonita.

            _ Sou sim. _ Seu narizinho ficou mais arrebitado.

        _ Parem com isso, crianças _ bradou o velho. _ Não vamos brigar por besteiras. Pablo não é preto, apenas moreno.

            Fiquei calado dessa vez. Papai é preto. Não gostei do que ela disse.

            _ Meu pai é preto. Não gostei do que disse.

            _Tudo bem, Pablo. Grace está errada, não quis ofender ninguém de sua família. Não foi, mocinha?

            _ Óbvio, senhor _ ela brincava com uma boneca de porcelana. _ Só acho que as pessoas deveriam parecer bonecas como essa.

            _ Chega dessa bobagem, quero que deem as mãos. Sejamos todos amigos.

            Apertamos nossas mãozinhas meio que sem querer. O velho ficou satisfeito e refestelou-se no assento. A menininha continuou brincando com sua boneca.

            _ Quem te deu esse brinquedo? _ Perguntei para ela.

            _ Seu avô. Ele não te deu nada?

            _ Não. Por que o velho me daria alguma coisa?

            _ Não sei. Você é o neto dele. Deve ganhar muitos presentes.

            Nunca ganhei nada de ninguém. Os únicos brinquedos que conhecia eram os da escola. Muitos deles eu nem sabia usar. E minhas inseparáveis bolinhas de gude, claro.

            _ Onde estão seus pais?

            _Na classe econômica. Me deixaram vir com o velho para brincar com você.

            _Não preciso de ninguém para brincar. Eu brinco sozinho.

            _Por quê? – Seu narizinho arrebitado ficou curioso.

            _Não sei. Somente brinco sozinho.

            _Isso é estranho.

            _Não é não. Apenas gosto de ficar sozinho. Nunca quis ficar sozinha?

            _Não. Gosto de ficar com meus irmãos e amigos.

       Dei de ombros para essa conversa mole. Meninas me irritavam consideravelmente.

            _Vamos brincar de alguma coisa, então.

            _Do quê?

            _ Sei lá. Pique e paga?

         – Nada disso – falou o velho por entre os olhos. _ Não quero vê-los correndo pelos corredores do trem

          _ Mas estou ficando entediada. Eu e o Pablo estamos cansados de ficar sentados.

            _Logo, logo, vamos descer. Tenham paciência.

            _Ela vai com a gente? – Perguntei olhando para o narizinho arrebitado.

            _Se ela quiser – o velho voltou a dormir.

        Ele mais uma vez refestelou-se no banco. Olhei para aquela menininha sardenta, arrebitada e conversadeira fiado. Por algum motivo não consegui gostar dela num primeiro momento, apesar de sua indiferença quanto a isso. Apenas pegava sua boneca de porcelana, sentava-se num canto e brincava. Eu me acabrunhei, triste com o velho. Achei que fosse importante para ele, como nunca fora para ninguém. Essa menina colocava um ponto final no meu sonho, na minha importância. Voltei a ser aquele retardado, que levava cascudo do pai e tapas da mãe. Triste, deitei no outro banco. Me encolhi entre as pernas e adormeci.

            O trem seguiu seu curso num ritmo só, fazendo “zic-zac-zic-zac-zic-zac-zic-zac” toda vez que se aproximava de uma curva. Meu corpo seguia esses movimentos. Me acostumei rápido com eles, segurando o vômito e a tontura do vai e vem. Sempre me adaptei as coisas. Precisava me esforçar para entendê-las, mas nunca fui de reclamar ou de fazer hora. Procurava sempre o melhor para mim, fosse em qualquer tipo de situação. Não fora diferente no trem. Me adaptei como um camaleão. O velho gostava disso. Eu via nos olhos dele. Podia sentir seu orgulho por mim quando me adaptava.

            O trem parou bruscamente, me empurrando para frente. Quase caí do banco. O velho estava de pé, com Grace ao seu lado.

            _Vamos, Pablo – disse para mim. _ Descemos aqui.

            _ Ela vai mesmo com a gente? _ Perguntei olhando para aquele narizinho arrebitado.

            _ Sim. Você precisa de alguém para brincar.

            Não discuti com ele. Não queria parecer um “mariquinhas” na frente do tal Richard. Me juntei aos dois. Descemos com mais 100 pessoas, enquanto outras entravam. O velho nos manteve juntos, com Grace tagarelando nos nossos ouvidos.

            _Eles são tantos. Por que correm desse jeito? Vou ser atropelada por essa gente.

            _ Não vai – disse o velho sorrindo. _ Não vou deixar que isso aconteça. Estou de olho em vocês dois e nos transeuntes.

            _ Transeuntes? O que é isso? _ Perguntei desconfiado.

            _ São essas pessoas que estão passando por você, trouxa! _ Intrometeu-se Grace.

            _ Você é uma chata de galocha, sabia? _ Afrontei-a na lata.

            Grace me mostrou a língua. Que vontade tive de socá-la nos olhos.

            _ Parem com isso vocês dois – o tal Richard pareceu bravo dessa vez. _ Não quero brigas perto de mim. Não gosto disso e sabem muito bem. Vamos andando. Quero evitar a neve.

            Dessa vez nos calamos. Não que ele estivesse muito bravo, mas eu era um menino educado. Quando me mandavam calar a boca, eu obedecia. Tinha medo de levar um “tapão” na orelha ou coisa parecida. Nunca gostei de apanhar; e admito que meus pais abusam dos chinelos e cintos para comigo. Vivo esfolado e roxo. Mas ninguém se importa com isso. Nem Deus se importa.

            Saímos da estação com passos firmes seguindo os trilhos e as matas. Cada vez nos embrenhávamos mais na noite, seguindo apenas os passos do tal Richard. Estava escuro. E eu tinha muito medo do escuro. Era durante às noites que papai chegava bêbado em casa e batia em todo mundo. Talvez surgisse do meio desse mato, com um cinto na mão para me pegar.

            _ O que foi? – Perguntou Grace me vendo tremer.

            _Tenho medo do escuro _ não sei porque disse isso para ela. Só sei que disse.

            _ Eu também tenho um pouco. Ele vai cuidar da gente _ ela apontou para o velho.

            _Por que você veio?

            _ Odeio meus pais. Quero ficar longe deles.

            _ Por quê? – como eu gostava de fazer perguntas.

            _ Porque são péssimos comigo e com meus irmãos.

            Eu não odiava meus pais, mas também não morria de amores por eles.

            _ Eu não odeio meus pais.

            _ Então por que veio?

            Tive que pensar para responder. Por que, por que, por que…minha vida era construída por muitos por quês. Só que para alguns eu não tinha resposta.

            _ Não gosto do lugar onde moro _ respondi sem convicção. _ Mas o tal Richard disse que posso voltar quando quiser.

            _ Eu sei. Ele disse isso para mim também.

            – E é verdade. Podem voltar para casa quando quiserem. Só me avise antes _ ele piscou para nós. Encarei Grace e sorrimos juntos. Estava começando a gostar dela, mesmo com aquele narizinho arrebitado.

 

III

         Chegamos numa pequena propriedade no interior de um lugar qualquer. Nunca fui bom em geografia, então não sei onde estávamos. O velho nos levou por um caminho estranho, marcados por pedras. Grace me contou que havia um monte de avisos pregados nas cercas, todos para afastar os visitantes. Era uma casa pequena, cercada por um pomar. Ele deixou suas malas no chão e pegou uma chave debaixo do tapete. Com um assovio chato abriu à porta. Estava escuro lá dentro. Nada que me assustasse. Percebi que Grace não queria entrar.

            _ Não tenha medo, menina _ sorriu o tal Richard ao vê-la tão assustada. _ Não tem nenhum bicho papão aí dentro. – Ele piscou aqueles incríveis olhos azuis. Não sei explicar, mas gostávamos dele.

          Entramos meio sem jeito, com medo de esbarrar em alguma coisa. Ele acendeu às luzes. Não havia nada de errado lá dentro, apenas móveis de pessoas velhas, como gostava de dizer mamãe. Levamos nossas coisas para o quarto dos fundos. Vimos um beliche enorme. Ficamos felizes. Estávamos cansados.

            _ Podem ficar aqui. Usem as roupas do armário. São da minha neta e de seus amiguinhos. Vou preparar algo para comermos.

            Eu e Grace arregalamos os olhos. Estávamos com fome também.

            Um cheirinho de ensopado invadiu a casa alguns minutos depois. Nunca senti um cheiro tão bom na comida. Nem minha avó cozinhava tão bem. Eu comecei a salivar assim que me sentei à mesa.

            _ E então, crianças? Tomaram seus banhos? _ O velho nos perguntou servindo aquele guisado de cair o queixo.

            _ Sim, senhor _ respondemos juntos. Depois gargalhamos pela coincidência dos sons. O dono da casa também sorriu enchendo os nossos pratos.

            _ Então vamos comer _ ele fez uma oração estranha, em outra língua. Parecia coisa do Diabo. Eu olhei para a menininha de nariz arrebitado. Seguramos o riso. Fora engraçado demais.

            Comemos feitos dois mortos de fome. Nunca comi nada tão gostoso! Era tão macio que dissolvia na boca.

            _ Que carne é esse? _ Perguntei terminando mais um prato.

            _ Adivinha? _ O velho gostava de adivinhações.

            _ Carneiro. _ Respondi.

            -Não, não, não.

            _ Frango?

            _ Errou de novo.

            _ Uma codorna bem jovem! _ Disse Grace com a boca cheia. O velho encarou-a de modo estranho, como que rindo da sua cara.

            _ Hummmm …. _ ele lhe entregou mais um prato _ você acertou!

            A menina sorriu. Feliz por ser tão, tão, tão esperta.

            Dormimos cansados, satisfeitos e com a barriga cheia. Peguei no sono bem rápido. Estava louco por uma boa cama e um travesseiro.

 

IV

          Despertei com um barulho estranho na cozinha. Olhei para Grace e ela continuava dormindo. Tampei a cabeça como o cobertor, procurando pelo sono. Ele não veio e o barulho continuou. Lembrei das batidas do açougue, quando se quebra ossos no galpão. Seria o velho cortando suas codornas? Tanto faz. Só sei que o barulho me estrangulava os ouvidos.

            Pensei em cutucar Grace. Mas quando a vi enterrado num sono profundo, dei de ombros. Talvez estivesse sonhando com um príncipe encantado. Meninas costumam ser bem estranhas. Abri a porta do quarto com as pontas dos dedos. Não havia nada no corredor, apenas uma luz branca na cozinha. O toc, toc, toc vinha de lá. Caminhei nas pontas dos pés, com o bichinho carpinteiro da curiosidade me corroendo. A Professora Mary diz que temos vários bichinhos carpinteiros na cabeças, e que eles são de morte. Eu nunca duvidei disso. O meu estava me matando.

            O corredor tinha um cheiro estranho, parecido com sangue. Quando mais me aproximava da cozinha, mais me lembrava do açougue e de seu cheiro característico:  carne, ossos e podridão. Quando próximo da porta, fiz o sinal da cruz. Nunca se sabe o que vamos encontrar numa noite escura.

            A porta estava escancarada, o toc toc toc vinha acompanhada de um assovio. Olhei com o canto dos olhos, com medo de que o monstro de lá corresse atrás de mim. O que vi me deixou de queixo caído, pronto para gritar. Coloquei as mãos na boca sufocando meu urro de medo. O Velho encontrava-se debruçado em imensos pedaços de gente. Havia ossos esparramados pela mesa e bancadas, assim como baldes cheios de sangue. Aquilo não eram codornas. O fogão estava ligado, com panelas borbulhando seu tempero característicos. Meu estomago regurgitou o guisado do jantar.

            Richard parecia feliz em meio aos pedaços das pessoas. Senti meu coração palpitando no pescoço, um suor frio escorrendo da minha testa. Deixei-o na cozinha para correr pelo corredor. Senti que suas paredes me espremiam, com sangue escorrendo dos tijolos e quadros. O liquido viscoso desceu para meus pés, me fazendo escorregar. Senti que estava afogando na gosma nojenta que vinha da cozinha. Tentei me segurar nos ossos que boiavam no sangue, mas eles escorregam das minhas mãos como boias no mar. O velho me encarava com um sorriso maldoso, os dentes sujos da carne humana e o corpo cheirando a podridão.

Entrei no quarto como um peão. Minha respiração como de um menino com asma. Olhei para Grace, que continuava sonhando com seu príncipe encantado. Me enfiei nas cobertas, tremendo dos pés aos últimos fios de cabelo. Só pode ser um pesadelo. Só pode ser um pesadelo. Só pode ser um pesadelo. Disse para mim mesmo. Quando se deseja muito alguma coisa, ela se torna realidade; me disse o Padre Lucas certa vez. Então continuei dizendo em alto e bom som: é um pesadelo, é um pesadelo, é um pesadelo. O sono veio. E era mesmo um pesadelo.

 

V

            Quando despertei não vi Grace no quarto. Procurei por ela pela casa. Sua cama estava feita. O velho encontrava-se sentado do lado de fora, numa bela cadeira virada para a planície. Tinha um semblante calmo, com um cigarro na boca. Assim que me viu acenou com a cabeça. Eu fui correndo até ele, louco para saber onde estava minha amiga.

            _ Grace sumiu _ gritei esbaforido.

            _ Calma, Pablo _ ele puxou um pouco de fumaça para os pulmões, depois soltou-a na natureza. _ Ele quis ir embora. Disse que teve um pesadelo horrível. Então deixei que fosse.

            _ Ela teve é? _ Cocei a cabeça. Também tive um pesadelo terrível. _ Me pareceu feliz depois do jantar de ontem.

            _ Então, rapaz _ eu gostava quando me chamava de rapaz. Me sentia importante. _ Ela acordou na madrugada. Veio até mim chorando. Disse que estava com saudades da mãe. Não tive outra alternativa que não fosse de levá-la para casa.

            _ A casa dela fica muito longe. Como o senhor levou-a até lá e voltou tão rápido? _ Às vezes sou um pouco inteligente.

            _ Eu não a levei _ o tal Richard sorriu com minha astúcia. _ Comprei as passagens e pedi a companhia que a deixassem em casa. Eles me prometeram deixá-la com a mãe assim que o trem chegasse na sua cidade natal. As companhias de trens oferecem esse serviço, sabia? _ O velho puxou mais fumaça para o seu corpo cansado. _ Você também deseja voltar para seus pais?

            Essa pergunta me deixou sem jeito. Não gosto de ser mal-agradecido com as pessoas. O velho fora o ser humano que melhor me tratou nessa vida. Não quero ir embora. Vou levar uma surra se voltar.

            _ Não, senhor _ respondi com minha verdade absoluta. _ Eu quero ficar aqui para sempre.

            Ele tocou minha cabeça. Acho que gostava de mim. Acho não, tenho certeza. Ele gostava de mim.

            _Você pode me ajudar com a casa? _ Perguntou olhando nos meus olhos. _ Fazer algumas coisas para mantê-la limpa?

            _ Claro! Eu gosto de ajudar _ e gosto mesmo.

            _ Está vendo aquele balde? _ Ele me mostrou um perto da cerca da porta.

            _ Sim, senhor.

            _ Quero que enterre o conteúdo dele naquele cercado _ ele me mostrou um curral afastado, bem longe da casa. _ Cave um buraco e jogue esses restos de animais nele. Depois tampe-os para que não junte mosquitos.

            _ Animais? _ Fiquei confuso. Não vi nenhum animal na propriedade. Apesar do velho ter comentado algo na estação.

O pesadelo da noite anterior voltou a me perseguir. Dei de ombros para ele. Já era bem crescidinho para me aborrecer com sonhos.

            _ Sim, rapaz. Animais! São os restos das codornas dos nossos almoços e jantares.

            Olhei o que tinha dentro do balde. Uns ossos bem grandes. Não pareciam com ossos de uma ave, e sim, com os ossos do pesadelo. Mas eu nunca tinha visto uma codorna, então não sabia o seu tamanho. Tratei de cavar o buraco. Quando me punha a pensar ficava com dor de cabaça. Eu não me lembraria mais do sonho. Esse era meu desejo. Fiz como Padre Lucas havia me ensinado.

            No almoço comi da sua comida. O velho ficava feliz ao me ver enchendo o bucho. Gostava de cozinhar para mim. O cheiro que vinha das panelas era muito bom, e a carne bem tenra. Mamãe gostaria de conhecer essa receita. Meu pai lhe daria muitos beijos por uma refeição tão saborosa. O pesadelo? Coisa de menino mimado.

            Toda a semana eu enterrava os conteúdos do balde. Depois outro banquete me esperava. Engordei muito depois que passei a viver com o velho. Nunca fui tão feliz em toda minha vida! Passava a maior parte do tempo ajudando-o com suas coisas, colocando-as em ordem, como costumava dizer. Ele saía quase todos às noites. Eu não me importava. Aquele lugar era tranquilo por demais. Só sei que o tempo foi passando e eu fui ficando. Meus pais não me procuraram. Nem liguei. Gostava da minha nova casa. O tal de Richard era minha família agora.

            Certo dia, me pediu para tomar banho e vestir o meu terno azul. Disse que tínhamos umas coisas para fazer; algo para entregar as pessoas. Não fiz pergunta, apenas obedeci. Pegamos o trem na estação de sempre. O velho ficou calado durante todo o percurso. Pensativo. Carregava um monte de cartas no bolso, toda elas com endereços diferentes. Não fiz pergunta, adormeci enquanto esperava por nossa estação.

            Numa cidade qualquer me puxou pelas mãos. Caminhamos por um bom tempo, até uma casa bem no centro. Eu e o velho ficamos na esquina. Ele colocou as mãos nos meus ombros, abaixando-se para me encarar.

            _ Está vendo essa carta, Pablo? _ Ele retirou uma delas do bolso.

            _ Sim senhor.

            _ Quero que a entregue naquela casa _ ele me apontou uma de cor amarela, bem bonitinha e aconchegante. _ Uma mulher vai atendê-lo, dê a carta para ela e não diga nada. Vou esperá-lo bem aqui. Consegue voltar?

            _Claro! Eu sou bem esperto _ peguei-a de suas mãos. Eu adoro ajudar.

            Uma mulher me atendeu na porta. Dei a carta para ela. Deixei-a abrindo o envelope. Quando começou a ler, desmaiou bem no meio da calçada. Pessoas vieram em seu auxílio. Provavelmente ela tinha alguma doença, ou sei lá o quê! Voltei para o velho. Tínhamos muitas outras para entregar.

            Entregamos todas as ouras cartas nas cidades vizinhas. As pessoas tinham a mesma reação quando as liam. Choravam, se rasgavam, gritavam, chamavam por Deus e pela polícia. O que tinha escrito nelas? Como não sabia ler, dei de ombros. Não me preocuparia em juntar as letras. Não mais.

Voltamos com o cair da noite. Depois da rotina deliciosa do banquete no jantar fui dormir. Minhas pernas estavam cansadas e pés cheios de bolhas. Um boa noite de sono me retornaria os ânimos. Assim me ensinara papai.

 

VI

            Os policiais chegaram algumas semanas depois. Richard os recebeu com aquele sorriso gente boa. Os homens não foram tão receptivos assim com ele. Quando me encontraram no quarto, ficaram espantados por eu ainda estar vivo. Como assim? Não entendi. Continuei com meus afazeres, fingindo aprender ler nos livros que encontrei. Um dos policiais me pediu para que arrumasse minhas coisas. Segundo ele, eu voltaria para casa. Fiquei triste por deixar o velho. Mas não senti vontade de questionar os homens da lei. Talvez fosse hora de ir embora. Já fiquei tempo demais longe de casa. Minha mãe e meu pai me esperavam do lado de fora. Eles me abraçaram como dois malucos. Nunca me fizeram carinho. Achei tudo muito estranho.

            _O que ele fez como você? _ Minha mãe me apertava com as mãos.

            _ Nada, mãe. Ele não me fez nada.

            Os policiais remexiam o curral desenterraram todos os ossos de codorna. O que fariam com aquilo? Não serviam para nada. Eram restos de uma ave. Cada ossada que encontravam, mamãe e papai choravam. O tal Richard ficou de longe, argumentando com o delegado. Ele olhou para mim e piscou. Eu sorri. Nos entendíamos muito bem. Um dos homens da lei o algemaram. Era proibido comer codornas? Que eu saiba, não.

            Os policiais acompanhavam o velho. Meu pai foi para cima dele, querendo acertá-lo com um murro. Um dos policiais o segurou, evitando um desastre ainda maior.

            _ Assassino! Assassino! _ Gritou descabelado.

            O velho passou por mim assoviando. Mamãe me abraçou, evitando que ele me tocasse. O tal Richard apenas arregalou aqueles incríveis olhos azuis. Não era o meu velho. Parecia outra pessoa.

 – Teve sorte em recebê-lo de volta, Carmem. Muita sorte.

            Fomos colocados num dos carros da polícia. Eu do lado de minha mãe e do meu pai. Fiquei a observá-los. Ambos seguravam minhas mãos. Gostei desse mundo novo, pareciam preocupados comigo. Me aconcheguei aos dois, feliz por finalmente ter uma família.  Um dos policiais ligou o rádio numa estação qualquer. Um homem lia a carta do “Bicho-Papão. “

           

Sra. Budd

Sua filha tem uma carne macia, pele lisa e sem manchas. Ela não sentiu dor quando a matei. Soltou apenas alguns esguichos de sangue, nada mais que isso. Era uma criança arrogante, dona de si. Seu narizinho arrebitado dei para os urubus. Não gosto de aproveitar os miúdos. As partes nobres do seu corpo cortei em fatias finas, prontas para serem fritas e cozidas. O lombo, a parte mais tenra de sua pequena criança, temperei-o com limão e ervas finas. Fora um banquete e tanto! Eu não a molestei, se é isso que quer saber. Apenas saboreie um prato fino, apreciado e preparado por poucas pessoas.

           

Meu pai chorou quando do término da leitura. O policial praguejou aos sete ventos! Fiquei olhando tudo sem entender. Por que estavam chorando? Do que estavam falando? Enxuguei às lágrimas no rosto da minha mãe. Ela me abraçou. O carro que trazia Richard passou pelo nosso. Ele se despediu com um aceno. Devolvi o cumprimento com um sorriso. Somente quando o vi indo embora, lembrei que esqueci de pedir a receita do  guisado para ele. Mamãe adoraria cozinhá-lo para meu pai neste natal.

Goiânia, 22 de setembro de 2018

Sylvana Camello

 

Carta de Albert Fish para a mãe de Grace Budd

Querida Sra. Budd,

     Em 1884 um amigo meu embarcou como trabalhador braçal de convés no navio Steamer Tacoma, o capitão John Davis. Eles velejaram de San Francisco para Hong Kong, na China. Quando chegaram lá, ele e dois outros homens foram para terra e ficaram bêbados. Quando voltaram, o navio tinha ido embora. Aqueles eram tempos de fome na China. Carne de qualquer tipo custava de 1 a 3 dólares a libra. Tão grande era o sofrimento entre os pobres que todas as crianças com menos de 12 anos foram vendidas como comida, para manter vivos os outros famintos. Um menino ou menina com menos de 14 anos definitivamente não estava seguro nas ruas. Você poderia ir a qualquer loja e pedir um bife, cortes de carne ou picadinho do corpo nu de um menino ou menina, que seria trazido exatamente a parte desejada por você, que seria cortada dele.
     A parte de trás de meninos ou meninas é a mais doce parte do corpo e era vendida como costela de vitela, no preço mais alto.
John ficou lá tanto tempo que adquiriu gosto por carne humana. Quando voltou para Nova York, ele sequestrou dois meninos de 7 e 11 anos. Levou-os para sua casa, tirou a roupa dos dois e os amarrou nus no armário. Então queimou tudo deles. Inúmeras vezes, todo dia e noite, ele os espancou e os torturou para fazer com que sua carne ficasse boa e suculenta.
     Primeiro ele matou o menino de 11 anos, porque ele tinha a bunda mais gorda e, é claro, mais carne nela. Cada parte do corpo foi cozida e comida, exceto a cabeça, os ossos e as tripas. Ele foi assado no forno (todo o seu lombo), fervido, grelhado, frito e refogado. O menino pequeno era o próximo, e tudo aconteceu da mesma maneira. Nessa época, eu estava morando no 409 na 100 Street, bem próximo a esse amigo. Ele me falou com tanta frequência como a carne humana era gostosa, que eu decidi prová-la.
     No domingo 3 de junho de 1928 telefonei para vocês no 406 w 15 st. Trouxe-lhes um pote de queijo e morangos. Nós almoçamos. Grace sentou no meu colo e me beijou. Eu me convenci a comê-la (naquele momento), com a desculpa de levá-la a uma festa. Você disse sim, ela poderia ir a festa comigo. Eu a levei a uma casa vazia em Westchester que já tinha escolhido. Quando chegamos lá, disse a ela para ficar no quintal. Grace colheu flores selvagens. Eu subi as escadas e tirei toda a minha roupa. Sabia que, se não o fizesse, ficaria com o sangue dela nas roupas. Quando eu estava pronto, fui até a janela e a chamei. Então me escondi no armário até a menina entrar no quarto. Quando ela me viu completamente nu, começou a chorar e tentou correr escadas abaixo. Eu a agarrei e ela disse que ia contar para a mãe dela.
     Tirei a roupa de Grace, deixando-a nua. Como ela chutou, mordeu e arranhou! Eu a asfixiei até a morte, então a cortei em pequenos pedaços para poder levar a carne para meus aposentos. Cozinhei e comi aquilo. Como era doce e saboroso seu pequeno lombo assado no forno. Levei nove dias para comer seu corpo inteiro. Eu não fodi a menina, embora pudesse tê-lo feito, se tivesse desejado. Grace morreu uma virgem.

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Sylvana Camello

Sylvana Camello

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