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O Poço

O Poço

1a. Ed. – Goiânia / Goiás

Copyright 2018 por Sylvana Camello

Todos os direitos reservados.

Nenhuma parte deste conteúdo pode ser reproduzida ou utilizada sem a autorização prévia da autora

 

Sinopse

John Cusack é um fazendeiro típico dos Estados Unidos. Vive da plantação de milho e da ordenha do gado. Ainda muito jovem conheceu sua esposa, Mary, uma mulher brejeira do interior do Maine. Os dois levavam uma vida tranquila  (pelo menos é o que ela pensava) até John decidir matá-la e enterrá-la num dos poços de sua fazenda.  Mesmo morta, Mary consegue ver os passos do marido e suas peripécias para esconder o  assassinato. Levada pelo ódio por ter sido preterida pelo marido, fará um pacto sobrenatural com criaturas bem peculiares.

 

… consegue me escutar daqui de dentro? Consegue?

 

***

Quando vi a faca suja de sangue pensei que fosse um pesadelo. As mãos de John me atacavam no peito, bem no rumo do coração. Tentei afastá-lo com os braços, forçando-o de encontro a cabeceira da cama. Nada que fizesse mudaria o meu destino – e nem o dele. A morte refletida na lâmina me beijava.

Fizermos amor para depois me embebedar com aquele vinho barato. Ele nunca soube o quanto consigo beber, e jamais imaginou que precisaria de três estocadas para me matar. Sou diferente de suas vacas. Não me entrego para a morte tão fácil assim.

A primeira facada regurgitou meu sangue pelo lençol, esparramando uma cor rubra pela cama. Mesmo privada de alguns sentidos pelo álcool, consegui segurar sua mão esquerda. Da sua boca gotejava baba no travesseiro, manchando o algodão cru da fronha. Seus olhos dobraram de tamanho pela força que fizera para me esfaquear.

 A segunda investida da lâmina me pegou desprevenida, cortando minhas bochechas em um talho horizontal. O sangue espirrou na sua barba, descendo até o pescoço. Ele sempre foi bom com facas. E não fora diferente comigo. Meu sorriso foi alargado de orelha a orelha por um corte profundo.

O terceiro golpe acertou o meu pescoço. Parei de lutar. A dor me fez vomitar o vinho. Foi a última facada. Percebi que o fluxo da vida deixava o meu corpo, mas não esse mundo. Continuei vendo-o através do espelho do quarto, buscando em nossas coisas o cobertor da minha mãe.

***

Agora ele caminha de um lado para o outro com pressa. Meu sangue escorre pelo chão, sujando o assoalho de madeira que encerei dois dias antes de morrer. John me puxa pelos pés. Escuto o barulho do meu quadril tocando a quina da cama. Minha cabeça fica pendurada para fora do embrulho que fizera com meu cobertor.  Talvez eu o tenha irritado com meu jeito bruto. Mas isso não é motivo para matar. Se todo casal estúpido se esfaquear, vai sobrar pouca gente no mundo para fazer pãezinhos.

Ele limpa o chão do quarto. Sinto algo parecido com pena. John tenta sugar com um pano úmido as manchas maiores de sangue, como se água e sabão fossem capazes de higienizar sua consciência. O líquido vermelho que fica no balde escorre pelas gretas do assoalho, irritando-o. Então ele esfrega, esfrega e esfrega num ritmo alucinante. “É meu querido, a morte matada dá trabalho. Tem que limpar o ambiente, esconder o corpo, ludibriar a polícia e se manter calmo.”

Ele fecha os olhos. Parece cansado. Não é mais aquele jovem de 18 anos que conheci. O assassinato exige preparo físico. Fico olhando para o colchão de mola que compramos há pouco tempo. Penso no que vai fazer com ele. Talvez coloque fogo. Não acredito que vai tentar limpá-lo. Nunca gostou do som que fazia quando trepados um no outro. Dizia se sentir incomodado, como se estivesse num motel. Eu dava de ombros para seus comentários. O que sabe ele sobre motéis? No mínimo os frequentava e eu nem percebia. Tanto faz. Jogada no chão e com a boca escancarada por um corte, o que menos me preocupa são suas trepadas furtivas.

Não o vejo. Um barulho vem do corredor. São passos sem sapatos e repletos de fúria. Ele carrega um saco de estopa, vem da cozinha. Dentro dele enfia os travesseiros e o lençol. Depois some de novo. Se tivéssemos filhos, como seria? Ele os criaria? Meu Deus! Só de pensar na situação dessas crianças me gela a espinha. Graças a Nossa Senhora não demos frutos. Sou estéril e ele também. Mato seco, como diz meu pai.

Ele continua limpando o quarto. Está fazendo um bom trabalho. Pelo menos é o que Sr. Cusack pensa. O cheiro de sangue misturado com sêmen e álcool impregna o ar. As moscas pousam na sua nuca suada, fazendo-o molhar a cabeça com a água do balde. Quanto tempo elas levarão para botar seus ovos em mim? Talvez algumas horas. Não sei precisar, nunca morri. Ele pegou o colchão. O sangue escorreu novamente para o chão.

 

***

Depois que deixou o quarto com o cheiro do meu pinho preferido, voltou-se para o corpo. Ele me jogou nas costas como um saco de batatas. Muitas vezes o vi carregando milho desse jeito, mas nunca pensei que fosse tão fácil fazer isso comigo. Talvez porque tenhamos perdido o romantismo, as pequenas sutilezas de casal. Nos tornamos dois animais no cio, vivendo juntos pelas trepadas ocasionais.

Ele não consegue ver o sangue. Mas eu o vejo por toda a casa: nas suas roupas, na parede, no armário do quarto, nos vincos da cama e do chão. O lugar – que um dia chamei de lar – encontra-se impregnada de morte. Um cheiro agridoce. Estranho dizer isso para uma pessoa que nunca morreu, mas acredite em mim, a morte matada tem um cheiro bom.

John me leva para o quintal. Pensei que fosse me enterrar com os porcos. Me enganei. O poço que antes ofertava água para nossa casa encontra-se vazio desde o último reparo no encanamento. Pensamos em tapá-lo, mas deixamos para lá. Tínhamos coisas mais importante para fazer. Hoje estamos parados diante dele. Meu marido respira ofegante e eu continuo morta nos seus braços.

O maldito me jogou no poço. Escuto o estilhaçar do meu quadril. Seu suor escorre em gotas, molhando as beiradas do cobertor. É grosso e úmido. O assassino olha para os meus lábios, que com o corte que fizera adquirira um sorriso que não tinha. Não precisei me esforçar para assustá-lo. Ele mesmo o fez com sua faca traiçoeira. Feixes de luz chegam até mim pelo buraco de um cano. Isso explica os ratos da cozinha.

***

O colchão foi jogado em cima de mim por John. Quis me tampar, eu entendo. Só que ele deu azar e o danado rolou para o lado me deixando de cara para o sol. “Que pena, marido. Sinto muito.” O sorriso que fizera em mim te encara agora, né? Um último lampejo antes de me trancar aqui dentro. 

Escuridão.

O poço é maior do que eu imaginava. Ouço o barulho de um relógio e seu tic tac irritante. Ele toca de forma incessante, num tempo muito curto e ritmado. Não consigo precisar que horas são ou se estou no mesmo mundo de John. O chão é úmido e lamacento, mas não sinto frio e nem calor.

Por um tempo vaguei pelos labirintos da memória, como se minha vida fosse feita de pequenos flashes de fotografias. Vejo meus pais através da penumbra do tempo e a festa do meu casamento. John era jovem e bonito. Eu também. Casei com ele por amor, e creio que ele me amava também. Nos desgastamos na vida bruta dos campos de milho e nas dívidas. Aos poucos fomos construindo um muro entre nós, que foi quebrada pela faca de caça dele. Hoje John me odeia, sei disso. Apesar de morta sinto as dores do seu ódio pelo corpo e pescoço. Acho que isso não se apaga com a morte. É como uma tatuagem que fica gravada na pele para sempre. 

Meus músculos há muito deixaram de se mexer. Tanto faz. A morte não é tão ruim assim. Consigo ver no escuro, se é que me entende. Vejo as baratas caminhando sobre mim, as moscas varejeiras me rondando, as lacraias se enfiando nos meus orifícios. Isso poderia me assustar em tempos de outrora. A decomposição assusta os vivos. Já na morte nos fortalece. Um jeito engraçado de nos convencer que estamos realmente mortos.

Escuto o barulho dos nervos sendo cortados, a pele sendo dilacerada. Sempre reclamei do mastigar estranho de John, que me irritava com aquela boca aberta. Na morte escuto os vermes sem poder mandá-los embora (como fazia com ele). Estou rodeada de licenças poéticas. 

Os insetos são tímidos. Chegam aos pouquinhos na decomposição; se esgueirando pelas beiradas, analisando o corpo com suas diminutas antenas. São criaturas extraordinárias, e ao mesmo tempo, ordinárias. São capazes de esconder e revelar os nossos crimes. Já os ratos? Ah, os ratos! Esses são traiçoeiros. Coisa ruim mesmo.

Sei que lua se foi e o sol apareceu; de novo, de novo e de novo. Há quanto tempo estou aqui? O tempo é inimigo dos mortos, porque ele nunca passa. Além das lufadas do inferno, escuto o som do trator arando a terra, as aves que anunciam o anoitecer, o ronco do motor do nosso carro. Sei que ele acorda todos os dias, faz sua comida, lava sua roupa e descansa na varanda. Sinto o cheiro do cachimbo, da sua colônia barata quanto vai a cidade.  Nunca fui de muita prosa com os vizinhos. Mas ouço as vozes deles no mato, conversando com meu marido. Creio que o xerife também veio nos visitar. Estão procurando por mim? Duvido. Meu homem é de boa falácia. Tenho certeza que os enrolou com sua conversa mole.

Escuto outro tipo de barulho. Um cheiro estranho chega até mim: uma mistura de enxofre e sangue. Tem alguém comigo? Um sugador de almas, uma força sombria. Não sei o que é. Só sei que é diferente dos cheiros da vida. Algo parecido com uma garra arranca o cobertor. Estou desnuda, os pés tocando as paredes do poço. A entidade sussurra no meu ouvido, deseja fazer um acordo. Meu coração acelera como se eu ainda estivesse viva. Eu o chamei? Creio que sim. Me recusei a deixar esse mundo. Renegue minha fé por vingança e ódio. Meu desejo não tem nada a ver com Deus. Quero John Cusack apodrecendo comigo, dentro deste poço e servindo de alimento aos vermes da sua plantação.

Por um tempo tentei renegar aquilo que me seduz. Queria salvar minha alma, colocá-la no altar católico da minha criação. A despeito disso, sou fraca e me entreguei aos desejos do Demônio. Então fecho o acordo. Estou morta novamente. Minha ressurreição durou poucos segundos. O suficiente para descobrir que odeio o meu marido.

Uma ratazana me afronta com seus dentes afiados. Ela esfrega as patinhas na boca, querendo participar do banquete. Não é tímida. Ela avança sobre o meu corpo, para dentro da minha boca. Nem pensei em mordê-la (seria inútil). Deixei que sua natureza me mastigasse, que se alimentasse do meu corpo podre. Se meu marido um dia desejou arrancar minha língua; Bingo! Ele conseguiu quando me matou.

Sinto ela se mexendo dentro de mim, vasculhando minhas entranhas, procurando meu coração. Ela o devora com a rapidez de uma caçadora; pedacinho por pedacinho, sugando as veias, mastigando o miocárdio, devorando aquilo que um dia fora do assassino.

A peste procura o caminho de volta, subindo por minha traqueia, voltando para o cano. O estranho é que agora vejo através dela. Enxergo o caminho que me leva até a cozinha, a bagunça na pia e a sujeira no fogão. Há comida esparramada pela mesa e o cheiro forte de álcool. O assassino bebe do mesmo vinho que me dera na noite em que me matou. Encontra-se largado na poltrona da sala com olhos fechados e a boca em suspensão. Ele me vê nas vigas do teto e me joga o seu sapato. Corro para a cozinha, me escondo na sujeira e no que sobrara de seu jantar. O maldito me procura com a vassoura.

Enlouquecido pela solidão que causara a si mesmo, me empurra para a parede tentando me acertar com suas estocadas certeiras. Corro trôpega para o cano, sem olhar para trás. Em minutos estou de volta ao poço. Ela se esconde no meu cadáver e sussurra coisas no meu ouvido. Depois do que me disse espero paciente pela madrugada.

Outros ratos chegam do milharal. Eles saciam sua fome com minha carne – ainda tem muito de mim para ser devorado. Eles se enfiam no que sobrara das falanges, dos músculos e naquilo que fui um dia. Foi estranho perceber que através deles a vida voltava para mim. Que meu corpo respondia aos comandos da minha mente. Vejo John agachado no topo do poço, os olhos esbugalhados e armado com a pá que fora do meu pai.

O assassino trabalha na terra com sua mistura de cimento e areia. Ele pretende me enterrar neste lugar maldito? Há medo nele. Eu sinto seu cheiro através dos seus poros empapados de sangue. Vejo também a frieza em seus olhos vazios de humanidade.

A ratazana subiu pela parede feita por tijolos. A pá trabalha na terra, misturando cimento com pedras. O assassino que outrora se mostrara determinado em me matar tremia ao som do ferro nas britas. O cheiro de álcool misturado com suor atiça os ratos que estão dentro de mim. Mesmo assim consegui manter os olhos fixos nele, vigiando seus passos. Ele percebe o arfar dos meus seios. Não, Deus! Não! “Tarde demais para se arrepender, querido.”

A ratazana atacou-o nos braços, macerando um de seus dedos. O grito que ouvi me fez lembrar o grunhido de um porco com a faca enfiada no peito. “O sangue que jorra de ti é café pequeno perto da bagunça que fizera no nosso quarto, amor.”

Ficar de pé foi fácil, mesmo estando morta. Com movimentos lentos consegui me escorar nas paredes daquele poço. Minhas mãos adquiriram unhas grandes, garras que se grudam aos tijolinhos de barro.

A ratazana continua afrontando-o com seus incisos poderosos. A bocarra escancarada grunhava a cada investida da pá. Ele tentou acertá-la no tronco, mas foi enganado pelo reflexo da lâmpada da varanda. Ela se enfiou na brita. Ele cutucou-a com a ferramenta, forçando-a a deixar seu esconderijo. A praga subiu pelo cabo, acertando-o no rosto. “Filha da puta!” gritou numa lufada de ódio. O assassino continuou a prossegui-la. Quando perto de acertá-la na cabeça, outros ratos subiram por suas pernas, derrubando-o no poço. O barulho que fez ao tocar o chão foi de galhos sendo quebrados. Ahhhhhhhh! “Eu sei que dói, amor. Dói muito. Corrói a alma e o corpo – literalmente.” Suas pernas destruídas deixavam escapar sua fragilidade.

Me arrastei para perto dele. Seu olhar assustado me fez rir. Um rato pulou da minha boca para seu rosto. Ele soltava muxoxos estridentes de dor. Me coloquei ao seu lado, com as pernas flexionadas e os olhos em decomposição. Segurei seu pescoço com minha mão de cadáver. “Você esqueceu de me dar um beijo de boa noite, querido!” Sussurrei no seu ouvido.

Os ratos nos cobriram como um manto sagrado. Seu coração pulsava descompassado sob minhas garras escuras. As criaturas do milho o devoravam com a velocidade das bestas do Inferno. Os gemidos do assassino como os de nossa lua de mel – nunca o vi com tantos tremores, nem nos nossos melhores momentos. Seus olhos na saída do poço imploravam por um Deus. Redenção? “Nem pense nisso, John. Vamos ficar presos no nosso Inferno particular para sempre. Vendi minha alma para o Demônio pelo prazer de vê-lo sucumbir nas mesmas chagas que me condenou. Posso garantir que a vingança é um prato pleno, tanto nesta vida como na outra.”

As imagens do nosso casamento são nítidas para nós dois. Espera-se que a morte seja redentora, mas ela não é. Têm garras que nos prendem nesse mundo, tão fortes como aquelas que nos sopra a vida. Eu ainda me lembro das palavras do Padre Paul naquele dia. Hoje me soam irônicas em se tratando do Poço. Mesmo presa dentro dele, misturada ao sangue do meu assassino, consigo ouvir em alto e bom som as gargalhadas do Demônio. Ele sussurra nos nossos ouvidos nossa licença poética: o que Deus uniu o homem não separa.

Goiânia, 20 de junho de 2018.

Sylvana Camello

 

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