Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on whatsapp
Share on tumblr
Share on telegram

Observatório da Escrita – 68 – Manual da Escrita #01

Olá, leitor(a)! Tudo bom? Espero que esteja muito bem neste fim de domingo. No programa de hoje, vamos entrar numa nova fase do Manual do Roteiro, assim como apresento a resenha de uma novela internacional adaptada para o português. Vamos lá!

 


Até a semana passada, foquei quase inteiramente na construção de um roteiro e visualizei com você, leitor(a), um pouco sobre o roteiro-literário. Agora é hora de aprofundarmos um pouco mais o olhar para a construção de histórias em si. Os conteúdos daqui pra frente podem ser aproveitados não só por roteiristas, como também por escritores de narrativas.

Para começar, existem três grandes gêneros literários. Você sabe quais são eles? Sem entrar em detalhes muito minuciosos, aí estão:

  • Lírico: tem esse nome porque, na Idade Média, as letras eram cantadas e acompanhadas por instrumentos chamados liras, menores e mais leves que as harpas. A organização se dá geralmente em versos e estrofes, mas também pode ocorrer por arrumações específicas e expressivas de letras e palavras a fim de se formarem imagens. A intenção é geralmente a de demonstrar sentimentos de um eu-lírico para algo ou alguém. Alguns exemplos de textos líricos: sonetos, poesias, odes, haicais, hinos, cantigas e músicas;

  • Dramático: literatura em prosa ou verso feita para ser encenada em palcos. A mensagem (ações e diálogos) é transmitida dos atores para o público. Exemplos: tragédia, comédia, tragicomédia, farsa, auto;

  • Épico: narra aventuras grandiosas, inserindo contextos históricos, mitológicos, religiosos, lendários e até filosóficos. O principal tipo é a epopeia, texto em versos que apresenta fatos praticados por um grande herói ou por um povo promissor. Alguns estudiosos consideram o épico como parte de um gênero maior, o narrativo, no qual se encaixam também romances, novelas, contos e fábulas, entre outros.

 

É verdade que, com o passar dos anos, os três grandes gêneros têm se mesclado uns com os outros, o que permitiu o surgimento de novas categorias ou subgêneros. As webnovelas, por exemplo, são escritas para uma suposta encenação (dramático) e apresenta ações encadeadas praticadas por um protagonista (épico/narrativo). As séries de TV têm essas mesmas características. As poesias-práxis, por sua vez, dialogam com o gênero lírico e com as artes gráficas. Muitos romances também têm dialogado com a linguagem dramática para obterem mais intensidade nos pontos de clímax.

Como o foco aqui está na produção de histórias fictícias, vamos debruçar sobre os elementos dramáticos e narrativos, com mais ênfase no segundo. Antes de mais nada, vamos ver os elementos de uma narrativa? Sem eles, não há sequer como pensar numa história pra contar, não é mesmo? Vamos a eles.

  1. Narrador: é a “voz” que conta a história a partir de seu olhar acerca das ações que ocorrem. Ele pode ser:

    1. Protagonista ou em 1ª pessoa: ele participa ativamente da história, e os verbos são escritos em primeira pessoa (usa pronomes como eu, mim e nós);

    2. Observador: conta os acontecimentos em 3ª pessoa (usa pronomes como ele, ela, elas e lhe). Pode ser que participe da história como um coadjuvante ou, o que é mais comum, não integrar a obra;

    3. Onisciente: também conta os fatos em 3ª pessoa, mas tem total conhecimento sobre os personagens — pensamentos, gostos, hábitos, vulnerabilidades e sentimentos;

  2. Tempo: indica se os acontecimentos se sucedem de forma cronológica (passagem de horas, dias, meses, anos etc.) ou psicológica (varia de acordo com as emoções e os sentimentos dos personagens);

  3. Espaço: é o lugar onde se passa a ação. Pode ser de ordem física (casa, carro, rua, país etc.) ou psicológica (como em lembranças, sentimentos, sonhos);

  4. Enredo: basicamente, é o conjunto das ações que se sucedem na trama. Vamos destrinchá-lo no próximo programa;

  5. Personagens: são os seres que participam da história, sejam humanos ou não. Também serão destrinchados em outra edição do Observatório.

 

Observe a tabela abaixo com um comparativo:

A DIFÍCIL ARTE DE SER EU, LUCAS
Francisco Siqueira

ÁGUAS DE MARÇO
Charlotte Marx

ESCÂNDALO
Marcelo Delpkin

Formato

Narrativa em capítulos

Narrativa em conto

Roteiro de webnovela

Narrador

1ª pessoa

3ª pessoa

***

Tempo

Predominantemente psicológico

Cronológico — alguns meses

Cronológico — pouco mais de um ano

Espaço

Físico: Rio de Janeiro e Laranjeiras
Psicológico: “Nárnia” — associação de Laranjeiras na mente de Lucas

Físico — Rio de Janeiro e Londres

Físico — São Paulo

Personagens

Poucos

Poucos

Muitos

Observação: em roteiros, como já vimos em programas anteriores, as cenas são detalhadas por descrição e não por narração.

No próximo programa, como dito, o tema será as partes integrantes do enredo. Quais são e como criar as partes básicas de modo a atrair leitores empolgados e apaixonados? Vale a pena esperar pra semana que vem!

 


Há algumas semanas, João Paulo Ritter colocou na OnTV uma adaptação da webnovela internacional Surpresas do Destino, sucesso no Portal Glook em 2019 sob a autoria de Daniel Gaviría.

Vamos às emoções do primeiro capítulo. Valeria e Julián — os nomes dos personagens e o elenco se mantêm sem tradução — se encontram com Daniela Escalante no aeroporto. Todos à espera de quem volta para Miami. Na cena seguinte, outro tripulante, Andrés, se enrola com as malas, enquanto o autor da adaptação dá um nó na cabeça dos leitores com um parágrafo pouco compreensível:

O que ou quem acompanha para a corrida? Que corrida? De táxi? Quem é ele que acompanha o quê? Do jeito que ficou escrito, não contém muito nexo. Provavelmente um problema na escrita do original ou na interpretação/tradução do brasileiro. No trecho de baixo, um erro simples de concordância. Cuidado!

Continuando… Daniela não gosta nem um pouco de quando vê Andrés com a meia-irmã dela, Verônica, mas estes, na verdade, nem se conhecem. Esta se junta aos amigos do início da cena, enquanto Andrés fica próximo de Daniela e vai com ela de carro.

Em seguida, Gabriel perde um importante investidor nos negócios da família. Enquanto faz uma reunião com o Dr. Contreras, recebe uma ligação da filha Verônica, cheia de saudades, mas finge que nada está acontecendo e marca um almoço especial para comemorar a volta dela. A engenheira de alimentos e empresária de sucesso Victória, por sua vez, preocupa-se com o bem-estar dos empregados e trata muito bem a todos. Ela é a avó de Andrés e alvo do interesse de Daniela e de sua mãe Paula. Esta tenta convencer a vilãzinha a manter o relacionamento com o moço, apesar dos sinais de desgaste. Paula, por sua vez, exige que Gabriel conte a verdade sobre as perdas financeiras a Verônica, mas ele reluta pelo fato de a filha ter voltado da Austrália há pouco para as férias da faculdade.

Só à noite, Verônica percebe estar com a mala trocada, quando vê nela o nome de Andrés. Em seguida, ela vê Gabriel pronto pra dar uma saída e corre até ele (no texto está “corre de Gabriel” — tradução inadequada), sem imaginar o plano que o homem está montando para salvar a família da miséria. Na próxima cena, o jovem autista Mateo conta para a irmã, Verônica, que Paula não o apoia na carreira de pianista e o culpa por ser a principal causa da derrocada familiar. Depois a mocinha entra em contato com Andrés e combina de destrocar as malas, mas ele exige que Verô pague a conta dele no bar — ele tentou usar um cartão dela, bloqueado —, e ambos entram em atrito. O capítulo termina com Gabriel sendo atingido por um ladrão. Capítulos depois, a mocinha se vê numa realidade dura e cuidando de uma desmemoriada Victória, enquanto Daniela lamenta não ter o amor de Andrés, com quem já está casada.

Surpresas do Destino tem todos os ingredientes de uma legítima novela latina: a mocinha sofredora, o galã comprometido, a vilã obcecada e dominada pela ambição de uma mulher egoísta e cruel, e altas doses de dramalhão. Os acontecimentos se sucedem lentamente, assim como se degusta uma boa pizza no fim de semana. Tudo muito bem orquestrado por Gaviría e Ritter. Há alguns detalhes que se deixam escapar na hora da tradução e da revisão, como na palavra avôzinha dito pela jovem Nicole para se referir a Victoria, mas a emoção está lá a cada cena. Também notei, em especial na primeira metade do capítulo inicial, o uso de descrições de ordem literária (como em “Uma empresa que Gabriel fundou com tanto esforço com a companhia de outros membros associados.”). Em textos latinos é muito comum que elas apareçam em meio ao texto, e nisso Ritter seguiu bem a recomendação do texto original; se a obra fosse de origem brasileira, provavelmente esta frase apareceria em meio à fala de algum personagem, o que é mais recomendado por aqui.

Quer saber mais sobre a novela e embarcar nessa linda história de amor e disputa? Nas terças e quintas, às 21h, não deixe de ler os novos capítulos de Surpresas do Destino.

 


O Observatório da Escrita fica por aqui, mas daqui a pouco tem E Vamos À Luta! e O Leão no Cyber Backstage. Até já!

POSTADO POR

Marcelo Delpkin

Marcelo Delpkin

COMPARTILHAR

Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on tumblr
>
Rolar para o topo