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parte 3 – O dia do sacrifício

Residência de Omar

O despertador marcando 06:00 horas da manhã começa à tocar. Omar Martines abre os olhos, espreguiça-se e olha para o lado, onde sua esposa Tahmina já o observa por algum tempo. Um sorriso sincero, troca de carinhos e um pedido de desculpas.

– Me desculpe, meu amor…cheguei muito tarde ontem. – diz Omar encarando a esposa nos olhos.

Omar Martines levanta-se, veste uma calça de abrigo, abre as cortinas da sacada do quarto, espreguiça-se novamente diante do sol que começa à aparecer e sobe na sua esteira para sua corrida matinal.

– Me perdi nas horas…e depois fazia tempo que não via dona Fátima e seu Fernando.

Tahmina também se levanta. Está usando uma camisola transparente. Começa arrumar a cama.

– E como estão os seus pais? – questiona Tahmina.

– Você sabe. Teimosos. Eu por mim os traria pra perto de nós. Mas tente convencê-los… – responde Omar concentrado na sua corrida.

– Acho que por agora temos que nos concentrar no problema da nossa filha…

Tahmina termina de arrumar a cama e depois interrompe seus afazeres. Se aproxima e se escora na porta da sacada observando o marido se exercitando.

– …ontem ela chegou tarde. Disse que tava na casa da Melissa…

Omar aperta o botão vermelho da esteira e a mesma vai diminuindo a velocidade.

– Eu vou conversar novamente com ela. Vou descobrir onde está esse desgraçado. De hoje não passa.

Tahmina pega uma toalha sobre o cabideiro e a alcança para o marido, que, enxugando o suor, dirige-se ao banheiro.

Mais tarde

Amin, um jovem alto, de cabeça raspada e bigode, juntamente de outros rapazes, se aproximam da entrada de uma boate. Se encontram com alguns outros homens e ficam bebendo e conversando.

Um carro preto de vidros fumê se aproxima e estaciona do outro lado da rua. Dentro do veiculo estão: Omar dirigindo, ao seu lado um homem negro e gordo mal encarado e no banco de trás está Alexia, filha de Omar.

– Ele está ali Alexia? Me mostra quem é este desgraçado que eu não lembro direito. – pergunta Omar sem olhar para trás.

Alexia fica quieta. Os olhos estão lacrimejando. Omar se vira para trás.

– Droga, Alexia! Quer a ajuda do teu pai? Então deixa eu fazer as coisas do meu jeito!

O homem negro e gordo não se manifesta. É como se nem estivesse ali.

– Escuta aqui, filha. Eu juro que nada de ruim vai te acontecer. Nem a você e nem ao bebê.

Alexia encara os olhos do pai. Sabe que aquele olhar sempre o protegeu e sempre o protegerá. Sempre pôde confiar e não seria agora que isso iria mudar. Ela olha para fora. Amin bebe e dá risadas. Alexia aponta na sua direção.

– É o de camisa branca e corrente de ouro pendurada.

Omar encara os rapazes em frente à boate. Amin usa uma camisa muçulmana branca e ostenta uma corrente de ouro. Nota-se o volume de uma arma na sua cintura. Omar encara o homem ao seu lado.

– Eles estão armados. Garanto que é ordem do governador. São todos seus capangas. Estão todos envolvidos com o E. I…pode mesmo fazer isso?

O homem negro assenta que sim com a cabeça.

– Papai… – diz Alexia quase chorando.

– Deixa Alexia. Sei o que tô fazendo.

Omar encara novamente o homem negro e gordo.

– Só espera o momento certo.

Dez minutos depois

Omar e o homem negro continuam ali observando a frente da boate. No banco de trás, Alexia está de cabeça baixa chorando baixinho.

O movimento começa a ficar mais fraco do lado de fora da boate, pois todos começam a entrar. O grupo de Amin conversa com o segurança do local, parecem estarem de complô. O segurança nem os revista e deixa-os entrarem com suas armas.

– Agora… – diz Omar.

Omar liga o motor do veículo e, lentamente faz o contorno voltando pela mesma rua passando pelo lado da boate. O homem negro abre parte do seu vidro e, quando estão em frente ao local, ele atira com sua arma silenciosa acertando vários disparos em Amin. Sua camisa branca fica toda manchada de sangue. Seus companheiros sacam suas armas. O segurança se apavora, saca a arma, mas se abaixa para ajudar o jovem ferido enquanto chama por reforço pelo rádio. Omar acelera e os poucos disparos feitos pelos rapazes amigos de Amin param nos vidros blindados do carro de Omar.

Centro do Governo Estadual

Atrás de uma mesa grande está o governador do estado Fahel Aziz Hadshi, um homem de 45 anos, alto e expressão séria. Ele levanta-se. Na sua frente um grupo de pessoas com vestes muçulmanas.

– Desgraçados! Não conseguem fazer nada direito mesmo. – esbraveja o governador.

Fahel aponta com o dedo para um, dois, três, quatro homens de sua grande confiança.

– Vocês quatro partem para Gali ainda hoje. Descubram o que aconteceu na boate. Dispensem todos os que estavam lá. E este maldito Amin, ainda bem que se foi. Mas descubram quem fez isso.

Um dos homens, mais velho e de barba longa, dá um passo a frente. Ele é Samir.

– O responsável já sabemos. Alguém viu o carro parado muito antes de tudo acontecer. Trata-se de Omar Martines, professor universitário e detetive do grupo secreto de anti – terrorismo. – informa Samir.

– Interessante. Levante tudo sobre ele. Onde leciona, onde mora, esposa, filhos, amigos próximos…tudo, entendeu? – responde o governador Fahel.

Os quatro homens apontados pelo governador baixam a cabeça e se retiram. Os demais presentes permanecem na sala. Fahel volta a sentar.

Faculdade de Gali – Biblioteca

Omar Martines passa pela catraca, cumprimenta o estagiário recepcionista e desce um lance de dez degraus em direção à parte inferior da biblioteca. Passa pela porta giratória e chega só grande salão recheado de prateleiras que vão do chão ao teto. A biblioteca da Faculdade de Gali é referência no estado, sendo uma das mais equipadas e organizadas. O silêncio perpetua. Omar olha por todos os lados procurando por alguém. Avista, em uma mesa do canto perto de uma janela, a jovem Clara Luz. Caminha até ela. Ao vê-lo se aproximando, Clara levanta-se.

– Professor Omar. Achei que não viesse.

Omar puxa a cadeira sentando em frente à jovem.

– Prometi que vinha, não foi? E afinal, preciso saber mais sobre tua obra.

Clara Luz, um pouco sem jeito, se ajeita na cadeira. Empurra livros e caderno para o lado e vira a tela do seu notebook para Omar.

– Leia este trecho que acabei de escrever.

Omar encara a jovem e sorri. Depois fixa o olhar na tela à sua frente.

” Seus olhos fitavam incrédulos o tamanho colossal daquele monumento, estudado apenas em livros de páginas rasgadas e já desgastadas. Era a estátua de um homem segurando uma garota, que usava a tradicional veste muçulmana. Textos antigos e histórias contadas pelos mais velhos diziam que este homem significava o próprio ser humano enquanto que a garota era a própria esperança. Os olhos da estátua miravam o oeste, ponto cardial sagrado dos islâmicos.
Aisha ficou ali por um tempo até ser interrompida por um leve toque em seus ombros…”

Omar tira os olhos da tela do notebook e vê Clara Luz lhe encarando, lhe admirando.

– Aisha é especial…você já tinha me falado sobre ela. Disse que queria uma personagem forte…acho que conseguiu. Ahhh, e estas suas descrições são magníficas.

Clara Luz sorri, fica sem graça. Baixa o olhar. Se encoraja.

– Escrevi mais de dez páginas hoje. Agora me deu uma fome… você podia me…

Omar olha para as mesas ao redor onde alguns alunos desviam o olhar e cochicham entre eles.

– … acompanhar em um café, professor?

– O quê?

Ele sorri.

– Acho que não é uma boa ideia…

Clara Luz olha para os lados.

– Porque? Só porque este pessoal não tem mais o que fazer e ficam imaginando coisas?

Omar admira a audácia da jovem nerd na sua frente. Sorri e se inclina sobre a mesa.

– Uma xícara. Quem sabe. Outra hora mocinha. Quando tiver mais para me mostrar.

Clara Luz sorri, puxa seu notebook para seu lado. Omar se levanta e sai.

Barraco Escuro

Dois jihadistas abrem as cortinas de pau do barraco levando alguma claridade ao lugar. Quatro pessoas encapuzados estão amarradas com as mãos para cima. Um dos jihadistas fica de sentinela e o outro vai passando um por um e arrancando o saco preto de suas cabeças. Revela-se ali: a jornalista Esther, o repórter Santiago e os fotógrafos Sandro Maia e Fernando Reis. O jihadista retira um papel amassado do seu bolso e o abre.

– Fernando Reis? – pergunta o jihadista.

Fernando, 39 anos e 20 anos de profissão, dá um passo para a frente. Seus cabelos compridos estão bagunçados e colados na testa. Seus olhos verdes esbugalhados. O jihadista o puxa pela gola da camisa embarrada e o empurra para fora.

– Sandro Maia?

Sandro, 25 anos, careca e de olhos azuis. É o fotógrafo estagiário de Fernando. Ele dá um passo à frente. O jihadista repete o mesmo gesto.

– Santiago?

Santiago é um repórter de cabelos curtos e loiros, de 35 anos. Ele é perseguido há tempos pelo Estado Islâmico. Ao dar um passo à frente e ficar cara a cara com o jihadista, ele recebe um olhar de desaprovação.

– Você é o tal repórter então, que fica falando um monte de asneiras?

O jihadista sorri debochadamente e dá um murro na face de Santiago.

– É você mesmo…fica aí quietinho.

Ele empurra Santiago novamente para o seu lugar.

– Esther então é você…uma jornalistazinha metida à besta.

Ele aproxima-se de Esther e a puxa com força pelo colarinho da sua blusa. Esther arregala os olhos assustada.

– Parece que hoje é teu dia de sorte, vadia.

Ele a empurra em direção à saída.

– Agora é somente eu e você, Santiago…

Do lado de fora do barraco o outro jihadista conduz os três reféns até uma van preta e os joga para dentro. Escuta-se o estouro de um tiro vindo de dentro do barraco. Provavelmente, Santiago encontrou o seu fim. A van segue por uma estrada de terra batida deixando poeira para trás.

Residência de Omar

Na sala estão Omar e sua esposa Tahmina sentados lado a lado no sofá. Ele com cara de poucos amigos e ela com expressão triste e assustada. Omar acabara de contar para a esposa o que aconteceu. Acredita ter colocado um fim na história, mas não sabe que este pode ser o começo de algo muito maior.

– Eu e Alexia não vamos deixar Gali e ir embora sem você! Não adianta insistir. – diz Tahmina.

Alexia, assustada, chega na sala.

– Pai… mãe. Não param de me ligar perguntando por Amin. O que eu faço?

– Vocês não saiam desta casa. Se forem ficar na cidade, terão que ficar trancadas aqui até às coisas se acalmarem. – ordena Omar.

Mesquita de Gali – centro da cidade

O caos está formado. A revolta do Estado Islâmico é grande. Vários jihadistas armados fazem um alvoroço em frente à Mesquita. Eles estão assustando as pessoas com ameaças. Batem nos homens, insultam as mulheres e meninos e meninas são arrastados para uma sala no fundo da Mesquita.

Sala de Reuniões – Serviço Secreto de Anti – Terrorismo

O chefe da equipe está de pé na ponta da mesa falando aos seus detetives dispersos em volta.

– A cidade está tomada…precisamos tomar uma atitude antes que seja tarde. Já falei com o general Loocks. Não iremos deixar que eles tomem conta de tudo.

Um dos policiais, o detetive Noronha, levanta a mão pedindo permissão para falar.

– E o corpo da filha do comerciante? Ainda vão entregar? – pergunta Noronha.

– Ainda está de pé. Não falaram nada sobre cancelar.

– Eu e Noronha vamos com a família até o ferro velho. – diz Pavon.

– Ok. Tomem cuidado… Noronha, liga pro Massour, combina tudo com ele. Estão dispensados. – responde o chefe da equipe.

Pavon e Noronha retiram-se da sala.

– Nós iremos aproveitar o dia de amanhã. O dia do sacrifício. Um dia sagrado para todos. – continua o chefe da equipe.

– E qual é o plano? – pergunta Omar.

– A partir de amanhã, por até quatro dias, eles terão um tempo de ‘paz’, de celebração. – responde o chefe da equipe.

Ele começa andar pela sala sob observação dos seus detetives.

– A Festa do Sacrifício, Eid al-Adha, é celebrada com grande entusiasmo em todo mundo islâmico. No primeiro dia da festa, que dura até quatro dias, os cidadãos vão ir para as mesquitas no início da manhã. Depois da oração vão felicitar-se uns aos outros. Após isso, as famílias vão se separar e cada uma vai pro seu canto para continuar a cerimônia, o sacrifício de animais e a festa.

– E isso quer dizer que vamos agir quando eles se separarem? – Omar volta a questionar.

O chefe da equipe fica de frente para Omar.

– Exato. Provavelmente, o grupo principal vai para algum lugar em comum. Eles não irão se separar. E é então que vamos atrás e vamos pegar todos. O exército ficará em alerta e precisando estarão prontos para agirem.

Ramiro, um outro detetive, baixinho de pele morena, se manifesta.

– Pode ser uma boa sacada.

– E é, pode ter certeza… – indaga o chefe.

O chefe da equipe retorna para a ponta da mesa.

– Com exceção de Pavon e Noronha que já vão trabalhar hoje, e espero que tenham sorte. Vocês estão liberados. Preparem-se para amanhã. Todos disfarçados e espalhados por volta da Mesquita. Manteremos contato através do rádio.

A noite em Gali foi de total desespero pelas ruas. Manifestantes jihadistas e entusiastas estavam causando um motim jamais visto. Fogos pelas esquinas. Tiros e bombas por toda a parte. Pessoas assustadas. Crianças chorando. E assim seguiu pela noite adentro. O exército, sob comando do general Loocks, até tentou intervir mas foi surpreendido. Muitos soldados mortos e feridos.

O dia amanhece cinza e sem vida. Aos poucos a Mesquita começa a ser tomada pelo povo islã para se dar início ao dia do sacrifício. Os seis detetives especiais e mais o chefe da equipe de polícia, se infiltram entre aquele povo e observam atentos a qualquer movimento suspeito.

Ramiro (pelo rádio)
– Notícias de Pavon e Noronha? Câmbio.

Chefe (pelo rádio)
– Ficaram apenas observando de longe. O corpo da filha do judeu foi entregue. Não houve maiores problemas, câmbio.

Omar (pelo rádio)
– E não seria correto eles pegarem os ‘caras’? Câmbio.

Chefe (pelo rádio)
– Não tiveram oportunidade para executar. Estavam em maior número, câmbio.

Noronha (pelo rádio)
– Bom dia pessoal. Câmbio.

– Noronha? Onde está? Câmbio. – diz o chefe surpreso por Noronha estar ali.

– Estamos no lado oeste da Mesquita. Próximo ao bar. E estamos com três dos homens que estavam no ferro velho na nossa mira. Câmbio. – responde Pavon.

– Puta que pariu! E agora? Câmbio. – esbraveja Omar.

– Vamos manter o plano. Obrigado por estarem aqui, detetives. Câmbio. – diz o chefe.

– Já que ontem não tivemos ação, não podíamos perder esta. Câmbio. – diz Noronha confiante.

Os detetives riem em seus rádios. Omar está no meio de um grupo bem de frente para a entrada da Mesquita. Ele muda sua expressão ao ver uma jovem se dirigir para o fundo da Mesquita com um dos jihadistas. Ela é Clara Luz.

– Droga! – xinga Omar.

Imediatamente…

– Algum problema, Omar? Câmbio. – o chefe pergunta.

Omar disfarça. Não havia desligado o rádio antes de esbravejar.

– Não, não. Está tudo em ordem. Câmbio.

Residência de Omar

A mesma van preta que levou Esther e os dois fotógrafos pela estrada de terra batida, estaciona em frente à residência de Omar. De dentro saem três jihadistas armados e mascarados. Eles se posicionam um de cada lado da porta de entrada e um outro fica em frente à mesma. Tudo está em silêncio naquele lugar.

Mesquita de Gali – centro da cidade

Finalizada a oração matinal e os cumprimentos de felicitações entre os devotos, as famílias começam se retirar para continuarem as comemorações. Os detetives disfarçam e se afastam do local. Os jihadistas do grupo do E.I, ao contrário do que esperavam os detetives, não saem juntos. Cada um acompanha sua respectiva família, deixando o grupo secreto sem reação alguma.

– Que merda é essa? Câmbio. – diz Pavon.

– Melou nosso plano, pessoal. Câmbio. – responde o chefe desiludido com o que vê.

– Filhos da puta… será que desconfiaram de algo? Câmbio. – esbraveja Noronha.

– Não há como saber. E agora? Câmbio. – Omar responde.

– Nos retiramos separadamente e com cuidado. Nos encontramos no Gran Valle. Câmbio. – ordena o chefe.

Estrada deserta

A van preta segue por uma estrada estreita no meio do mato em direção à um lago mais adiante. Ao se aproximar do seu destino avista-se uma limusine branca de vidros fumê. A van estaciona há alguns metros da limusine.

Um senhor de uniforme de chofer, sai e abre a porta da limusine para o governador Fahel Aziz Hadshi, de terno cinza e óculos escuros. Ele sai e retira seus óculos.

A porta da van também é aberta e um jihadista puxa para fora duas mulheres encapuzadas e de mãos amarradas. Ele as posiciona uma do lado da outra em frente ao governador e puxa com força tirando o saco preto das cabeças delas.

– Ora, ora. – fala Fahel se aproximando.

Na sua frente estão Tahmina e Alexia. Esposa e filha de Omar.

O governador fica em frente de Alexia e segura com força seu rosto angelical.

– Papai foi longe demais desta vez. – diz ele.

Ele a larga e vai para a frente de Tahmina. A encara e lhe dá uma bofetada em seu rosto.

– Maridinho fez besteira e agora mamãe e filhinha vão pagar.

Uma semana depois

Veneza – Itália

O outono traz uma brisa agradável e as folhas sobrevoam a rua larga onde muitos turistas fotografam em frente as catedrais e casas antigas. A jornalista Esther, de casaco preto de gola alta e calça jeans desbotada, com seus cabelos alvoroçados com o vento, senta-se em uma mesa do lado de fora da cafeteria. Nota-se uma certa tristeza em seu olhar. Ela larga sua bolsa em uma cadeira, passa os olhos sobre o cardápio, mas o que lhe chama mesmo a atenção é a presença de uma mulher em vestes muçulmanas, acompanhada de duas crianças pequenas. A mulher fotografa as crianças em frente à uma fonte de águas cristalinas.

O atendente da cafeteria surge muito simpático.

– Buongiorno!

– Buongiorno! – responde Esther.

– Cosa vorresti?

Esther pega o cardápio e o abre dando uma lida nas opções.

– Voglio un caffè alla Venexiana.

O simpático atendente anota o pedido.

– Qualcosa da mangiare? – ainda pergunta o atendente.

– Una torta al cioccolato, per favore.

O atendente retira-se. Esther volta olhar a atitude daquela mãe muçulmana para com suas crianças. Seu pensamento viaja para longe. Para seu país, de onde teve que fugir se quisesse permanecer viva. Em Gali, no sul do Brasil, suas palavras não tinham mais valor. Suas palavras seriam capaz de se mancharem de sangue. Isso no sul, no norte, nordeste…em qualquer região. Pois o Estado Islâmico provou sua força e dominou sem piedade.

Esther suspira fundo. Abre sua bolsa e retira seu netbook, largando-o na mesa à sua frente e ligando-o. Ela abre um documento onde já há algumas frases escritas e fica encarando a tela alguns instantes. Depois começa a digitar.

” Quando os radicais islâmicos chegaram a Gali, os cristãos foram os primeiros a serem expulsos. O EI tomou suas casas, móveis e jóias, além de raptar e violar as mulheres. Usaram megafones para pregar a conversão de todos ao islã. Foi iniciada a cobrança da jizya – imposto para cidadãos não muçulmanos num Estado islâmico. Nessas condições, a maioria dos cristãos preferiu deixar a cidade…
Quem não conseguiu fugir teve de se submeter aos extremistas. No território controlado, não é permitido álcool nem música, exceto cantos islâmicos. Além disso, há a segregação por gênero, ocultando todas as meninas e mulheres…
No Ocidente, o “Estado Islâmico” é considerado uma milícia terrorista brutal. Na prática, o fenômeno é muito mais complexo e, por isso, provavelmente não será passageiro…”

O atendente chega com o pedido de Esther. Ela sorri.

– Grazie! – responde Esther.

POSTADO POR

Marcos Vinicius Silva

Marcos Vinicius Silva

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  • Uai, o quê? Mas já acabou? Como assim, gente? Pensei que ia ter muito mais coisa kkkkkk, enfim… Gostei demais, a cena final da Esther na Itália é praticamente um convite para os leitores se prepararem para “Incontro a Venezia” hahahaha. Parabéns, meu amigo!

    • Hehehe sim. O restante da história só em 2021 na minissérie Estandarte Negro. Simmmm, o próximo é o romântico Incontro a Venezia. Obg meu amigo!

  • Confesso que esperei um pouco mais desse final mas nada tira a excelência dessas três partes. Uma idéia muito inteligente, bem delineada…já rasguei elogios desde os primórdios s2 Amo muito…acho que vai ganhar todos os prêmios do ano que vem…prepare a estante para receber os troféus s2 Parabéns, amigo s2

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