Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on whatsapp
Share on tumblr
Share on telegram

PSI – EPISÓDIO 1 (Prognóstico)

  EPISÓDIO 1: Prognóstico

LEGENDA: Rio de Janeiro – RJ (2020)

CENA 1. INT. ADN. SALÃO NOBRE. NOITE.  

Luminárias no teto. Pessoas com roupa de gala. Conversas aleatórias. Dr. Ruiz (Cabelo branco, de terno azulado, aparenta 70 anos) sobe numa plataforma com envelope. Todos o olham e se calam.

DR. RUIZ: Nessa noite agradável suponho que ambos estejam ansiosos pela premiação da academia. Em homenagem ao saudoso Antônio Austregésilo Rodrigues Lima entregarei o prêmio homônimo.

As pessoas aplaudem. Dr. Ruiz abre o envelope. Todos se calam instantaneamente.

DR. RUIZ: E o melhor trabalho elaborado no Brasil sobre o sistema nervoso foi o do doutor (TEMPO/Ele mantém o suspense) Anthony Newman.

Frissom da plateia. Anthony (Cabelo preto e grande, de coque samurai, aparenta 30 anos) levanta e segue em direção à plataforma. Estela (Cabelo loiro solto, aparenta 28 anos), entusiasmada, grita. Todos olham para ela, incomodados. Anthony assume o microfone com um troféu em mãos. Silêncio mantém-se.

ANTHONY (Emocionado/Tímido): Bom. (Tempo/Ele olha para a multidão) Confesso que estou um pouco nervoso mas me sinto honrado com tal reconhecimento. Não esperava! Foi uma surpresa! Agradeço á todos meus colegas, à academia pela competência, à minha esposa, enfim, estou extremamente grato. Obrigado a todos!

Anthony desce. Frissom da plateia, aplaudindo-o. Anthony os observa e segue. Estela o olha, confusa.

                    CORTE DESCONTÍNUO:

INT. ADN. BANHEIRO. NOITE.

Anthony sentado no chão, chora. Estela entra abruptamente. Anthony enxuga as lágrimas.

ESTELA (Decepcionada): Eu não acredito, Tony.

                                   CORTE DESCONTÍNUO:

INT. CARRO. NOITE.

Rádio ligado. SONOPLASTIA: I´ll never Fall In Love Again – TOM JONES. Estela olha pela janela, revoltada. Anthony dirige, inquieto. CLOSE em Sinal vermelho. Anthony olha para Estela.

ANTHONY: Foi um equívoco.

ESTELA (Revoltada): Equívoco, uma ova. Você precisa se tratar, Tony. É disso que você precisa.

ANTHONY: Não é pra tanto, Estela. 

ESTELA: Olha, eu marquei uma consulta no psicanalista pra você.

ANTHONY (Revoltado): Você fez o que?

ESTELA: É isso. Amanhã às oito, avenida central. (TEMPO/Ela olha para o sinal verde) Anda. Acelera.

Anthony revoltado pisa no acelerador.

CENA 2. INT. APÊ DE CONRADO. SALA DE ESTAR. NOITE.

TV ligada. Conrado (Cabelo preto, de barba, aparenta 56 anos) cochila no sofá. Rachel (Cabelo castanho-escuro, amarrado, aparenta 52 anos) desce às escadas rapidamente e desliga a TV. Conrado acorda e olha para Rachel, estranhando.

CONRADO (Confuso): O que houve?

RACHEL (Sussurrando): Estava muito alto. A Luísa precisa dormir, amanhã tem aula.

Conrado sorri e se levanta, abraçando-a.

CONRADO: Oh meu amor, a Lu não está mais conosco, lembra? Ela não voltou mas vai ficar tudo bem. Eu vou cuidar de você.

RACHEL (Gritando): Para! Para! A Luísa está aqui sim.

Rachel tapa as orelhas e sai correndo. Conrado a observa, lacrimejando.

POV de Conrado – Ele olha para o porta-retrato.

CONRADO (Chorando): Um dia, seremos uma família feliz novamente. Eu sei que sim.

A lágrima cai no carpete.

CENA 3. INT. APARTAMENTO DE ANTHONY. SUÍTE. MANHÃ

Anthony caminha seminu com uma toalha no ombro. Estela deitada, o observa. Ele se senta na cama.

ANTHONY: Desculpa pelo incidente de ontem. 

Estela acaricia o rosto dele.

ESTELA: Você precisa se cuidar, amor. Essas crises têm de ter uma explicação.

ANTHONY: Não é nada, Estela. É sério. Vou ficar bem!

ESTELA: Eu só vou acreditar quando você voltar do psicanalista.

Anthony se levanta, furioso.

ANTHONY (Furioso): Cê é fogo viu. Se eu quisesse perder tempo conversando, eu preferiria ir no asilo, talvez, faria até uma boa ação.

ESTELA: Não seja ridículo! Você sabe que eles são tão capacitados quanto você. (TEMPO/ Ela respira fundo) Anda, amor, vai ser bom em todos os aspectos.

ANTHONY: Eu não vou, Estela. Não vou e pronto. Quero aproveitar essas férias com viagens, excursões, não com diálogos banais.

ESTELA (Revoltada): Teimoso! É isso que você é. Quer saber, eu não vou mais me preocupar contigo, Anthony, é perda de tempo. 

ANTHONY: Não é pra tanto. 

Estela levanta e segue para o banheiro. Anthony revira os olhos. Ruído de ducha aberta.

ANTHONY (Gritando): Tá, eu vou.

Estela molhada, corre e abraça Anthony.

ESTELA: Vou ficar torcendo por você viu. (TEMPO/Ela beija-o) Te amo viu, meu bebêzão. 

Ambos riem. Anthony a agarra, beijando-a.

CENA 4. INT. APÊ DE CONRADO. ESCRITÓRIO. MANHÃ.

Notebook ligado. Conrado tecla freneticamente. Graciosa (Cabelo preto amarrado, aparenta 54 anos) abre a porta segurando uma bandeja.

GRACIOSA: Posso entrar, seu Conrado?

Conrado a olha e acena. Graciosa entra e põe a bandeja na escrivaninha. Conrado pega uma xícara e toma.

GRACIOSA: Oh Seu Conrado, fiz um bolo de fubá com goiabada, do jeito que o senhor gosta.

CONRADO: Oh Graci, desculpa. Estou tão distraído que nem vi mas obrigado viu. (TEMPO/Ele observa o bolo) Pela cara está uma delícia.

Conrado pega o garfo e come o bolo.

GRACIOSA: Eu não quero atrapalhar o senhor mas tá acontecendo um negócio.

CONRADO (Mastigando): O que é? Diga!

GRACIOSA: Tá rolando um abaixo-assinado contra sua esposa. Os condôminos estão reclamando dos gritos dela. A Dita que me disse.

Conrado engole seco e lacrimeja.

CONRADO (Desesperado): Não sei mais o que fazer. Não sei mesmo! Eu vou ficar louco, Graci. Louco!

Conrado põe a mão na cabeça.

CONRADO: Me dê um conselho, Graci. Você que conhece mais da vida do que eu.

GRACIOSA: Mas o senhor trabalha com isso. É um homem estudado.

CONRADO: Tem coisas que nem muito estudo resolve. Às vezes, a vivência vale muito mais.

GRACIOSA: Pois, nesse caso nem minha vivência vai te ajudar. Nunca vi nada parecido. Com licença, seu Conrado, tenho muita coisa pra fazer.

Graciosa sai. Conrado olha o relógio e levanta apressado.

CENA 5. INT. CONSULTÓRIO. RECEPÇÃO. MANHÃ.

Anthony rói as unhas, apreensivo. Conrado entra. Anthony se levanta. Conrado se aproxima da recepcionista (Cabelos escuros, penteado rabo-de-cavalo, aparenta 25 anos).

CONRADO: Bom dia, Bia. O trânsito hoje está um caos. Terrível!

BEATRIZ: Imagino, seu Conrado. Imagino!

Beatriz pisca para Conrado, sorrindo. 

CONRADO (Sussurrando): Eu vou ajeitar umas coisas na salinha e já, já, pode mandar o moço, tá bom?

BEATRIZ: Okay.

Beatriz se direciona ao ecrã. Conrado sai. Anthony os observa, calado.

                               CORTE DESCONTÍNUO:

INT. CONSULTÓRIO. SALA DE DIÁLOGO. MANHÃ.

Pouca iluminação. Anthony sentado de frente pra Conrado.

CONRADO: Tem quantos anos, rapaz?

ANTHONY: 30.

CONRADO: Solteiro?

ANTHONY: Casado.

CONRADO: Se sente feliz nesse momento?

ANTHONY: Olha, doutor, não sei se me conhece mas não tenho tempo pra ficar respondendo essas perguntas sem fundamento do senhor. Vamos logo ao ponto, sou tão entendido quanto você.

Conrado surpreso, abre um sorriso sarcástico. Anthony olha para o relógio de pulso, incomodado.

CONRADO (Sóbrio): Olha, rapaz. Eu não sei quem o senhor é, não sei o que te motivou à vim aqui mas nesse consultório a única pessoa que pode tomar frente sou eu, o paciente apenas se submete à perguntas e as responde. O diagnóstico vem de mim, portanto, respeite minha posição e continue respondendo. Okay?

FLASHBACK DE ANTHONY – Ele lembra da conversa com Estela.

ANTHONY: Eu vou ficar! Pela minha esposa, apenas.

CONRADO: Como eu dizia, se sente feliz nesse momento?

ANTHONY (Furioso): Não!

CONRADO: Okay. Se sente triste?

ANTHONY: Não sinto nada, doutor.

CONRADO (Irônico): Sente raiva de mim?

ANTHONY: Ai, não dá. Não tenho paciência.

Anthony se levanta.

CONRADO: Ei, espere. Acho que vou chegar no ponto que o senhor deseja agora.

Anthony, sério, senta.

CONRADO: Há quanto tempo sentes essa aflição?

ANTHONY: Como o senhor sabe que sinto uma aflição?

CONRADO: Só eu posso fazer perguntas aqui. Quanto tempo?

Anthony encara Conrado.

ANTHONY: Desde a minha última viagem.

CONRADO: E para onde foste?

O celular de Conrado vibra. 

CONRADO: Espere um pouco, por favor.

Conrado pega o celular. Anthony revira os olhos, insatisfeito.

ANTHONY (Sussurrando): Ninguém merece!

CLOSE no celular.

ECRÃ DO CELULAR:

FILHO enviou uma mensagem – Ei, pai, bom dia. O senhor nunca mais mandou um oi, deve está muito ocupado, né? Hoje é o meu aniversário, quero passar com vocês, eu e a Lyris. Tem algum problema?

                                        VOLTA À CENA:

Conrado constrangido, põe a mão na cabeça. Anthony o observa. Conrado guarda o celular e olha para Anthony.

CONRADO: Rapaz, me perdoe, onde estávamos mesmo?

ANTHONY: Eu ia dizer sobre minha viagem.

CONRADO: Ah sim! Para onde foste?

ANTHONY: Nova Jersey.

Conrado boquiaberto, olha fixamente para Anthony.

CONRADO: Repete, por favor.

ANTHONY: Nova Jersey, Estados Unidos.

FLASHBACK DE CONRADO:

LEGENDA: Sete anos atrás…

INT. APÊ DE CONRADO. SALA DE ESTAR. NOITE.

TV ligada. Conrado cochilando no sofá. Rachel desce as escadas correndo e sacode Conrado. Ele acorda, atordoado.

CONRADO: O que foi, mulher?

Rachel chorando, abraça Conrado.

CONRADO: Você está me deixando assustado.

RACHEL (Desesperada): Uma jovem desapareceu em Nova Jersey.

CONRADO: E o que tem?

RACHEL (Chorando/Gaguejando): A jovem que desapareceu é a nossa filha, Conrado. A Luísa desapareceu.

                       VOLTA À CENA

Conrado olha desconfiado para Anthony.

CONRADO: E desde então o senhor tem sentido angústia, aflição?

ANTHONY: Sim!

CONRADO: Diga-me em que ano voltaste dessa viagem.

ANTHONY: Morei uns anos lá. Voltei em agosto de 2013.

CONRADO: Bem preciso, não?

ANTHONY: O que o doutor está deduzindo?

CONRADO: Pode parecer precoce mas acredito que já posso lhe entregar o prognóstico.

ANTHONY (Curioso): Então pode falar.

CONRADO: Um crime justificaria.

Conrado o observa, sério. CLOSE em Anthony pálido, abismado. Conrado o encara. Anthony gargalha.

ANTHONY (Sorrindo): Ah! A psicanálise.

Anthony se levanta. Conrado o observa, sóbrio.

CONRADO: Para onde o senhor vai?

ANTHONY: Crime, doutor? É alguma piada?

CONRADO:  Sou profissional. 

ANTHONY: E só por que é profissional, você acha que pode vim me acusando? Posso processá-lo por calúnia.

CONRADO: É o motivo mais óbvio. Nova Jersey, viagem, traumas anormais, um crime justificaria. Já tratei de casos como esse.

ANTHONY: Deduzes mais do que comprova cientificamente. Você apenas confirma minhas suspeitas, doutor. A psicanálise é uma perda de tempo.

Anthony sai. Conrado coça a cabeça. 

CONRADO (Pensando/Preocupado): Eu preciso me tratar.

                         CORTE DESCONTÍNUO:

CENA 6. INT. CONSULTÓRIO DO DR. PEGLIARD. ESCRITÓRIO. MANHÃ.

Conrado abre a porta. Dr. Pegliard (Cabelo branco, aparenta 64 anos) sorri.

DR. PEGLIARD: Que bons ventos te trazem, meu amigo?

CONRADO: Preciso conversar com alguém maduro.

DR. PEGLIARD: A Rachel piorou?

CONRADO: Piora á cada dia. Se continuar, serei obrigado á interná-la. Eu realmente não sei mais o que fazer, Pegliard. Hoje incriminei meu cliente, acredita?

DR. PEGLIARD: Você tão equilibrado. É uma surpresa!

CONRADO: Pois é. Eu sei que a Rachel só vai melhorar quando encontrar o assassino de Luísa.

DR. PEGLIARD: Mas espera você nem sabe se ela morreu, Conrado. Ela pode está por aí, sei lá. Não perca as esperanças.

CONRADO: Sete anos já, Pegliard. Sete! A polícia dos Estados Unidos não a encontrou. Acha mesmo que ela está viva?

DR. PEGLIARD: Mas não há resquício de nada ainda. Não se precipite.

CONRADO: Não sei. Perdi o otimismo. A questão é que eu preciso tratar a Rachel. É questão de honra. Um psicanalista não ter a capacidade de tratar da própria esposa é surreal. 

DR. PEGLIARD: Essa pretensão vai te levar pro esgoto. Procure se equilibrar, raciocinar com a cabeça. Parece até um dissimilado.

CONRADO: Estou convicto do que quero, Pegliard. E vou consegui e você vai ser meu expectador.

Conrado pisca para ele. Dr. Pegliard balança a cabeça, irritado.

CENA 7. INT. APÊ DE ANTHONY. SALA/SUÍTE. MANHÃ.

Anthony entra, calado.

ESTELA (O.S): Ai, miga, estou afundada. Essa situação tá destruindo minha relação com Anthony, nem sexo, nem sexo ele sabe fazer mais. Tá um tédio!

Anthony furioso entra na suíte.

ANTHONY (Revoltado): Se não está satisfeita, pede o divórcio.

Estela arregala os olhos e desliga o celular. Anthony observa, frio. Estela se levanta e o abraça, ele a afasta.

ANTHONY: Então é isso que você pensa de mim, Estela? Esperava mais de você!

ESTELA: Draminha não, Anthony. (TEMPO/Ela respira fundo) Você sabe mais do que eu que estou incomodada com essa situação.

ANTHONY: Mas precisava me expor dessa maneira? Isso é ridículo, Estela, ridículo.

ESTELA: Eu errei, eu sei, desculpa vai. 

ANTHONY: Nossa! Eu fui naquela porcaria de psicanálise por você, chego e ouço uma porra dessas. É de se revoltar mesmo.

ESTELA: Errei. Errei rude. Já pedi perdão. O que você quer que eu faça agora?

ANTHONY: Não sei, realmente, não sei mais de nada.

ESTELA: Vou reservar uma mesa na ravessa. Por minha conta dessa vez. Pode ser?

Anthony respira fundo. Estela se aproxima e sussurra no ouvido dele.

ESTELA (Sussurrando/Maliciosamente): Pode ser?

Anthony olha para ela, insonso.

CENA 8. INT. APÊ DE CONRADO. SALA DE JANTAR. MEIO-DIA.

Mesa posta. Conrado tira o blazer e põe na cabeceira. Graciosa se aproxima com uma jarra.

GRACIOSA: Se o senhor quiser eu ponho o terno na sala.

Conrado se senta. Graciosa põe a jarra na mesa e o olha.

CONRADO: Não precisa, Graci. Cadê a Rachel? Por que não desceu ainda?

GRACIOSA: Ah senhor, o senhor já sabe dos processos da madama. Deve está no quartinho de Luísa com aquela boneca. Tenho é medo de ver ela daquele jeito, coitadinha.

CONRADO (Furioso): Ah isso não pode continuar assim. Não pode mesmo!

Conrado se levanta, agressivo. Graciosa arregala os olhos, assustada.

GRACIOSA (Preocupada): O que o senhor vai fazer, seu Conrado? Pega leve com a madama.

Conrado sai, abruptamente.

                                   CORTE DESCONTÍNUO:

INT. APÊ DE CONRADO. QUARTO. MEIO-DIA.

Rachel brinca com a boneca. Som do celular ligado. SONOPLASTIA: Portão azul – LORENA CHAVES. Conrado entra, nervoso.

CONRADO: Levanta desse chão, Rachel.

RACHEL: Não fale assim comigo, a Lu vai pensar que você me agride.

Conrado se aproxima e a levanta. Rachel o olha fixamente. Conrado chora.

CONRADO: Olha o que você tá fazendo da sua vida, Rachel. Parece uma doida com essa boneca.

RACHEL: Não fale assim com a Luísa.

CONRADO: Nem do aniversário do Rafael lembrou, não é? Olha que exemplo de pais estamos sendo. Só nos preocupamos com a Luísa, você principalmente.

RACHEL: Claro, ela é a nossa filha.

CONRADO: Mas ela não é única, temos outro filho também. Hoje à noite o Rafa vem jantar aqui com a namorada dele e eu espero te encontrar arrumada, Rachel.

RACHEL: Isso é uma ameaça, Conrado?

CONRADO: É um simples termômetro desse casamento. Não sei se consigo segurar as pontas por mais tempo.

Rachel desesperada agarra as pernas dele.

RACHEL (Chorando): E o nosso para sempre?

CONRADO: Tudo depende das suas decisões, Rachel. Decida e salve nosso casamento. (TEMPO/Ele olha para ela, esnobando-a) Solta minhas pernas.

Rachel solta-o.

RACHEL: Pra onde você vai agora?

CONRADO: Consultório, tenho minhas responsabilidades. 

Conrado sai. Rachel enxuga as lágrimas e pega a boneca novamente, observando-a.

RACHEL: Seu pai está muito nervoso ultimamente, né, Lu? Deve ser o trabalho!

Rachel abraça a boneca.

                                 CORTE DESCONTÍNUO:

INT. APÊ DE CONRADO. SALA DE JANTAR. MEIO-DIA.

Conrado pega o blazer e o veste. Graciosa o observa.

GRACIOSA: Já vai, seu Conrado?

CONRADO: Perdi o apetite, Graci. Guarda pro jantar, o Rafa vem comer aqui à noite.

GRACIOSA: Coma pelo menos uma maçã.

CONRADO: No caminho eu vejo alguma coisa. Até mais.

Conrado sai, cabisbaixo. Graciosa olha, balançando a cabeça.

CENA 9. INT. CARRO. TARDE.

Conrado dirige, calado. Rádio ligado. SONOPLASTIA: Vem me socorrer – PALAVRA ANTIGA. Conrado pára o automóvel e chora. Ouve-se o ruído das buzinas. Conrado enxuga as lágrimas e pisa o pé no acelerador.

CENA 10. INT. APÊ DE ANTHONY. SUÍTE. NOITE.

Estela faz a maquiagem na frente do espelho. Anthony a observa, escorado na parede. Ela ao vê-lo, se abisma.

ESTELA: Eu não acredito que você vai pro restaurante de terno, Anthony.

ANTHONY: Eu nem queria ir, Estela. Vai ficar enchendo o saco agora?

ESTELA: Tá muito formal, amor. Estamos indo num encontro não num jantar de negócios.

ANTHONY (Revoltado): ó quer saber? Fico em casa lendo webs, sem problema algum.

ESTELA: Só estou cuidando da sua imagem, Anthony. Mas, pronto. 

Estela dá um selinho em Anthony e guarda a maquiagem.

ESTELA: Vamos?

ANTHONY: Estou à sua espera, uai.

ESTELA: Você está muito tenso hoje. Relaxe!

Anthony revira os olhos.

ANTHONY (Insatisfeito): Ninguém merece!

Anthony e Estela saem de mãos dadas.

                                   CORTE DESCONTÍNUO:

CENA 11. INT. RESTAURANTE A RAVESSA. MESA. NOITE.

Anthony e Estela sentados, calados. Estela mexe no celular. Anthony observa o local. Uma música toca ao fundo. SONOPLASTIA: Perto – MARCELA TAIS/ MARCELO CERQUEIRA. Anthony fecha os olhos, concentrado. Estela o observa, gargalhando. Ele percebe e a olha, confuso.

ANTHONY: O que foi?

ESTELA: Você aí todo bobo ouvindo música, um pouco pensativo. 

ANTHONY: Preciso pular de um paraquedas.

ESTELA (Confusa): Por que isso agora?

ANTHONY: Sei lá. Sinto que preciso viver uma aventura.

ESTELA: Achei que você tinha medo de altura.

ANTHONY: Chega uma fase da vida em que precisamos nos arriscar, sair da monotonia. Cê me entende?

ESTELA: Você não tem porte de atleta. É até estranho te ouvir falando isso, sempre o vi como um cara sério.

Anthony decepcionado olha para a luminária. Estela põe a mão no rosto dele.

ESTELA: Mas isso não significa que você é desinteressante. Na verdade, te acho autêntico.

Anthony gargalha. Estela apreensiva o observa.

ANTHONY (Sorrindo): O jeito como você me ilude é diferente. 

ESTELA (Sorrindo/Alegre): Estou sendo sincera, besta. Aproveita que eu dei essa brechinha e me elogie também.

ANTHONY (Irônico/Malicioso):  O que eu mais gosto em você, não sei. Acho que é isso aqui.

Anthony beija Estela. Anthony abre o olho e sopra dentro da boca dela. Estela se afasta, enojada.

ESTELA (Enojada): Porco!

ANTHONY (Sarcástico): Sou autêntico, amor. Foi você quem disse.

Estela encara Anthony. Anthony sorri.

CENA 12. INT. APÊ DE CONRADO. SALA DE JANTAR. NOITE.

Mesa posta. Todos degustam. Rachel olha para Lyris (Negra, cabelos escuros, aparenta 21 anos).

RACHEL: Eu confesso que estou surpresa. Não achei que o Rafael fosse casar um dia, afinal, intelectuais não se casam, sequer namoram.

Rafael (Cabelo preto, aparenta 27 anos) desconcertado abaixa a cabeça. Conrado encara Rachel.

RACHEL: O Conrado é sério assim mas não se preocupe, querida, cão que ladra não morde. Como é seu nome mesmo? Lyris, não é?

Lyris acena positivamente.

RACHEL: Educada! Gostei, Rafael. Gostei mesmo!

CONRADO (Incomodado): A comida vai esfriar, Rachel.

RACHEL: Não vai não. Vou comer agora.

Conrado respira aliviado. Rachel degusta. Rafael olha para Lyris, envergonhado. Conrado percebe.

CONRADO: A Graci fez um bolo de fubá com goiabada delicioso. Do jeitinho que você gosta.

RAFAEL: Estou satisfeito, meu pai. Acho que eu e a Lyris já vamos indo. Os pais dela não gostam quando ela chega tarde em casa.

RACHEL: Que exemplo! Soube, assim, por cima que seus pais são evangélicos.

LYRIS: São sim. Somos da Cristã.

RACHEL: Já ouvi falar. Um dia faço uma visitinha.

LYRIS: Será um prazer.

RACHEL: Vou mas não conte com Conrado, ele não suporta crente, não é, amor?

Conrado desconsertado olha torto para Rachel. Rafael se levanta.

RAFAEL: Eu já vou indo.

Lyris se levanta e se aproxima de Rafael.

LYRIS: Foi um prazer revê-los. 

RACHEL: Ah querida, está cedo ainda.

LYRIS: Infelizmente, preciso mesmo ir. Amanhã ou depois, o Rafa traz o convite.

Conrado se levanta e abraça Rafael.

CONRADO (Sussurrando no ouvido de Rafael): Desculpa pelos transtornos, sua mãe está avariada.

RAFAEL: Eu sei, meu pai. Eu sei.

Conrado beija a testa do filho. Rafael se aproxima de Rachel e beija a bochecha dela, ela se esquiva.

RACHEL: Ai, Rafael, quase eu ia engasgando. Tchau! 

RAFAEL: Te amo também.

Rafael pisca para Conrado e sai, ao lado de Lyris. Conrado olha para Rachel, revoltado.

CONRADO: Pronto! Agora estamos só eu e você, a mulher das mil facetas.

RACHEL: Fiz tudo nos conformes.

CONRADO (Irônico): Só faltou dar papinha pra boneca.

RACHEL: Você sabe que ela está dormindo.

CONRADO: Á cada dia você se mostra mais teatral.

RACHEL: Cada um ver a realidade como quiser.

CONRADO: Olha, Rachel, não vou discuti contigo. Você não está em condições. Tenha uma boa noite!

RACHEL: Espera eu comer primeiro, já vou também.

CONRADO (Sarcástico): Adianta, querida.

Rachel sorri e degusta. CLOSE no olho de Conrado, lacrimejando.

CENA 13. INT. APÊ DE ANTHONY. SUÍTE. BANHEIRO. MANHÃ.

Anthony se observa pelo espelho. SONOPLASTIA: I´ll never Fall In Love Again – TOM JONES.

FLASHBACK DE ANTHONY:

Algazarra. Pessoas bebendo. Luzes coloridas.

ERIC: Where is the girl?

                                       VOLTA À CENA

Anthony põe a mão na cabeça, desorientado. 

(V.O de ERIC): Where is the girl? Where is the girl? Where is the girl?

Anthony geme. 

ANTHONY (Chorando/Olhando para o espelho): Você está bem! (TEMPO/Ele enxuga as lágrimas) Sim, Anthony, você está muito bem.

Anthony sorri. A CAM foca no espelho mostrando Estela e Aline o observando. Anthony constrangido, sorri insonso. Aline se afasta.

ALINE: Acho que não vim numa boa hora.

ESTELA: Desculpa, amiga. Eu sinto muito.

ALINE: O que é isso, minha irmã? Vá cuidar do teu marido, vá. Tá tranquilo, relex.

Aline sai. Anthony caminha em direção à Estela e a abraça. 

ESTELA: O que foi isso?

ANTHONY: Não é nada! 

ESTELA: Me diz, Anthony. (TEMPO/Ela acaricia o rosto dele) O que houve na sessão de psicanálise? 

Anthony se afasta e abre a janela.

ANTHONY: Esse apartamento é alto, né? Chega me dar vertigem.

Estela o encara, furiosa.

ESTELA: Não fuja do assunto. 

ANTHONY: O que você quer que eu diga, Estela? Uma droga! Uma merda, eu avisei. O doutor é um oportunista, achava que eu era um leigo, um manipulável.

ESTELA: Mas o que houve? Ah! é por isso que você tá assim?

ANTHONY: Eu não piso o pé lá. Psicanálise é perda de tempo. Eles dão qualquer prognóstico sem sequer ter uma base científica. É ridículo! Eu avisei!

ESTELA: Se você quiser vamos lá reivindicar nossos direitos, sei lá.

ANTHONY: Não! Deixa. Esqueça! Apesar de ter sido você quem tenha me colocado nessa cilada.

ESTELA: Epa! Eu me preocupei com a sua sanidade. Fiz por seu bem e ainda acho que você precisa procurar um profissional.

ANTHONY: Eu sou profissional, Estela. Eu estudei! Sou médico formado. Você quer debater sanidade comigo?

ESTELA: Vejamos, uma pessoa em sã consciência fala sozinho em frente ao espelho?

ANTHONY: Você me entendeu. 

ESTELA: Acabo de descobri que você pode se ajudar sozinho. É um egoísta! Um médico altruísta.

Estela caminha de um lado para o outro, decepcionada.

ANTHONY: Oh moh, não faz assim, poxa.

Anthony chora. Estela se aproxima dele.

ESTELA: Se você quer minha parceria, minha cumplicidade, você vai ter, agora, eu não vou suportar essas atitudes patifes não. Se quer fechar comigo, fecha, porra. 

Estela enxuga as lágrimas dele e o abraça. 

ANTHONY (Sussurra no ouvido dela): Me desculpa, por favor. Foi um ato impensado. Você sabe que eu não sou assim.

Estela o encara.

ESTELA: Vou sair, espairecer. Você devia vim comigo.

Anthony acena negando.

ESTELA: A gente vai procurar outro profissional pra você, tá bom? (TEMPO/Ela beija ele) Descansa! É disso que você precisa.

Estela sai. Anthony deita e olha para a janela.

CENA 14. INT. CASA DE ALINE. SALA DE ESTAR. MEIO-DIA.

Estela sentada, chora. Aline e Lyris ao redor dela, a observam.

ALINE: Mas, miga. Que situação, hein?

ESTELA: Pois, eu não sei o que faço mais. 

LYRIS: Você já conversou com ele? Talvez, um bom diálogo possa resolver tudo.

O celular de Estela vibra.

ALINE: Responde a colega, miga. Não seja indelicada!

Estela põe o dedo na boca, acenando. Aline e Lyris se entreolham, confusas. Estela pressiona o dedo no celular e o aproxima do ouvido.

ESTELA (Ao telefone): Olá. Bom dia! 

(O.S): É a senhora Estela Cavalcanti?

ESTELA: Anram.

(O.S): Sou da polícia, consegui seu número com os vizinhos. Sinto muito em informá-la mas o seu esposo acaba de cair da sacada de seu apartamento. A perícia está cuidando dos detalhes.

Estela larga o celular. Aline e Lyris a observam, confusas.

ESTELA (Gritando): Anthony.

CLOSE em Estela desesperada.

CONTINUA…

POSTADO POR

Samuel Brito

Samuel Brito

COMPARTILHAR

Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on tumblr
  • Depois de décadas, finalmente pude ler essa série. Adorei a trama do Anthony, e essas crises que ele tá passando, o Conrado também tem uma subtrama muito boa e toda essa questão com a Rachel.

    Véi, fiquei chocado que o Anthony se jogou da sacada, como assim, gente? Amei, amigo! Aos poucos vou voltando a ler as obras dos meus colegas haha.

  • Amando a série! Possui um clima de mistério e suspense do jeito que gosto. Choque com o Anthony se jogando da sacada no gancho do episódio!!

  • Parabéns pela estreia! Trama complexa, com personagens fortes, que a gente não sabe muito por quem torcer, mas mesmo assim, me prendeu. Gostei como foi apresentado os problemas do Anthony aos poucos, até a última cena. Ansioso pelos próximos episódios! 😀

  • Excelente estreia. Gostei da história. E gostei do modo como introduziste as tramas. Personagens fortes, que podem ser bem explorados. Sucesso na sequência, meu amigo!

  • >
    Rolar para o topo