Riacho Paraíso – Capítulo 37 – Penúltimo

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Os garimpeiros invadem a aldeia Toriba, mulheres e crianças indígenas saem correndo assustadas com os invasores. Sami, Jaci e Anahí saem da oca e seguem em direção ao grupo de homens armados.

—O que querem aqui? —gritou Jaci.

Maurício liderava os invasores.

—Queremos a nascente! Digam onde está a nascente e ninguém vai sair ferido ou morto como esse índio infeliz!

Dois garimpeiros jogam o corpo do índio Abana no chão.

—Abana! —gritou Anahí e se agachou em frente ao corpo. —Vocês o mataram seus miseráveis assassinos!

—Isso é o pagamento de quem dá a língua nos dentes. E que fique como exemplo para todos! —olhou para os índios ao redor.

—Onde está o Darlan? É ele que me quer, então, que me enfrente e deixe os Toriba fora disso.

—Seu Darlan está ocupado.

—É um covarde! Ele é quem devia estar aqui para nos enfrentar!

—Eu Jaci a cacica dos Toriba ordeno que saíam das minhas terras! Vocês não são bem-vindos!

Um índio estava escondido em cima de uma árvore com o arco e flecha apontado na direção dos garimpeiros.

—Cala a boca sua velha infeliz! —levanta a braço para bater em Jaci.

Uma flecha sai certeira no peito de Maurício.

—Índios malditos! —gritou e caiu no chão morto.

—Índios guerreiros lutem! —gritou Anahí.

Flechas voavam pelo céu e acertavam os invasores que para se defenderem começaram a atirar.

—Fuja para oca, Jaci! —gritou Sami.

—Não! Eu vou lutar bravamente como uma Toriba!

Começou uma guerra entre os Toriba contra os invasores garimpeiros entre flechas, tiros e luta corporal causaram um derramamento de sangue na aldeia.

Marcos foi até a casa de Fernanda, e acabava de examinar Anderson no quarto.

—Você está bem, Anderson. Daqui há alguns dias vai tirar esses gessos.

—Espero voltar a andar normalmente e que não tenha ficado com alguma sequela.

—Caso fique alguma sequela nada que uma boa fisioterapia possa ajudar. Lembra-se pensamento positivo. —olhou para Fernanda ao lado.

Anderson percebe o olhar do médico para a ribeirinha que demonstra timidez.

—Onde está o Inácio? —perguntou Marcos.

—Ele está na fazenda. Não aguentou esperar por notícias de Anahí que foi as terras de Darlan para ter provas de que lá é onde está o garimpo. —respondeu Fernanda.

—Então, descobriram de onde vem a contaminação do mercúrio nos rios. Isso é ótimo saber, eu já encaminhei a secretária de saúde os resultados dos exames dos pacientes. O hospital está lotado de pacientes que além de problemas respiratórios por causa das queimadas também estão intoxicados com mercúrio.

—Eu espero que tudo se resolva. —disse Fernanda.

—Bom, eu vou indo, mas antes eu quero falar com você a sós, Fernanda. Te aguardo no hospital daqui há alguns dias, Anderson, para tirar esses gessos. Tchau.

—Tchau. —Anderson o respondeu secamente.

Fernanda e Marcos saem do quarto e Anderson os observava pela brecha da porta do quarto. Na sala o casal conversava.

—O Anderson está diferente, não me disse nenhuma ironia ou deboche.

—É, talvez percebeu que não é tão imbatível como pensava que era. O Anderson está envergonhado pelos atos do Darlan são tantas coisas que você nem tem ideia.

—Tem algo a mais do que o garimpo ilegal?

—Sim, o Darlan agrediu fisicamente a Anahí porque ela terminou com ele e decidiu namorar com o Inácio.

—Não estava sabendo disso.

—E também que ele pagou uma mulher para passar a noite e que foi sequestrada por um cafetão.

—Poxa, esse filho do Anderson é um problema daqueles.

—Um só não, vários problemas. Acho que o Anderson está pagando pela escolha dele. Quem diria que o filho que ele mais protegeu e escolheu dá o sobrenome é o que mais o envergonha? Eu tenho orgulho do meu filho, do meu Inácio.

—E nós, Fernanda? —tocou nas mãos dela.

Anderson continua os observar discretamente pela brecha da porta.

—Marcos, esse tempo que Anderson esteve aqui em minha casa após o acidente e tudo que vem acontecendo cheguei a uma conclusão que preciso tomar uma importante decisão na minha vida.

—Posso saber qual?

—Vou sair dessa casa. Não vou aceitar mais que o Anderson continuei me dando a pensão, apesar de outras vezes ter o dito que não precisava, mas dessa vez é definitivo. Eu preciso me liberta dessas coisas que ainda me deixam ligadas a ele.

—Nanda, essa decisão tem a ver com nós dois?

—Tem. Eu confesso que estava confusa e que ainda duvidava dos meus sentimentos com Anderson, ele foi um grande amor da minha vida, é o pai do meu filho e o que vivemos teve momentos bons e ruins, porém, eu preciso seguir a minha vida e necessito me dá uma chance de viver um novo amor…

—Eu sou essa chance, Fernanda?

—Sim.

Marcos beija Fernanda, depois se abraçam.

—Estou feliz por ser o homem que você escolheu para amar outra vez.

O casal desfaz o abraço e ficam de mãos dadas.

—Quando será que vai sair dessa casa?

—Na próxima consulta, ele não vai mais depender do Inácio, então, vou arrumar as minhas coisas e vou embora.

—Mora comigo, Fernanda.

—Não, vamos devagar, Marcos. Eu já encontrei uma casinha para alugar e tem mais uma surpresa.

—Qual?

—Vou comprar o Almirante.

—Que boa notícia.

—Seu Clemente vai vender o restaurante e se mudar para Três Lagoas para morar com a família.

—Feliz por você, é o seu sonho e é a melhor cozinheira de Corumbá.

—Acho que sim.

Os dois riram.

—Te amo, Nanda. —a beija. —Eu tenho que ir. Tchau.

—Tchau.

Marcos sai e Fernanda fecha a porta.

Na comunidade ribeirinha, Amélia havia acabado de chegar na casa de Roberta e encontra Suelen na sala.

—Me ajuda, Suelen. Estou com medo do Diogo, se ele me encontrar é capaz de me matar.

—Você procurou isso, Amélia, quem mandou você fugir?

—Ele me sequestrou, dopou com algo, trancou dentro de uma cabana e obrigou a está com o Darlan.

—O seu problema é que você foi criada como uma princesa e a tia Roberta tem culpa nisso. Eu estou cansada de levar vocês duas nas costas e de sustentar as duas enquanto me vendo. Pensa que gosto dessa vida, Amélia? Não, não gosto, eu não escolhi isso. Você foi vendida já adulta e eu perdi a minha inocência com quinze anos e nem sabia o que era está com um homem. Você até nisso teve o melhor, saiu com o Darlan e o seu preço foi alto e bem pago.

—Não quis o dinheiro que o Darlan deixou depois daquela noite e nunca vou querer.

—Engole seu orgulho, Amélia.

Logo, Roberta entra.

—Amélia, você voltou sua ingrata! —jogou as sacolas no chão.

—Tia, me ajuda, não me entregue ao Diogo.

—Vou te dá uma surra! —pegou nos cabelos de Amélia, a derrubou no chão e começou a bater nela com a sandália.

—Me ajuda, Suelen! Socorro!

Suelen se encosta na porta e pega o celular.

—Eu vou ligar para o Diogo e dizer que você está aqui. —riu.

Diogo estava no garimpo fazendo a segurança até que o celular dele toca.

—Fala, Suelen. O quê? É mesmo? Amélia não sabe o que a aguarda. Eu vou aí agora. —desligou o celular e seguiu em direção a caminhonete.

O conflito na aldeia Toriba apenas cessou com a chegada da polícia federal e encontraram garimpeiros e índios mortos, alguns feridos e outros índios assustados dentro das ocas. Anahí estava agachada ao lado de Jaci que se encontrava ferida com um tiro no abdômen e deitada no chão.

—Jaci, você vai ficar bem.

—Anahí…guerreira…Toriba…

Sami se aproxima das duas e se ajoelha ao lado.

—Jaci, aguente firme! —gritou o pajé.

—Jaci sente que o Grande Espírito…a chama… —olhou para o alto.

—Não! —chora Anahí.

—Anahí… —as duas dão as mãos. —Quando o Grande…Espírito ter chamado Jaci…você será a nova cacica…dos Toriba.

—Jaci! —a abraçou.

Sami começou a fazer uma oração em idioma indígena.

—Oh! Tupã! Oh! Grande Espírito, sua filha Jaci completou seu caminho, estou pronta para voltar a sua morada. —disse a cacica.

Jaci morre nos braços de Anahí.

—Jaci! Não! —gritou a índia.

Diogo chega na casa de Roberta e encontra Amélia jogada no chão após apanhar da tia.

—Sua rata imunda! Levanta! —a levanta pelos cabelos. —Onde você se escondeu esses dias, hein? Fala!

—No mato.

—Você vai ter sua lição, vai aprender que comigo não se mete a besta, entendeu? Ninguém brinca com a minha cara! E vocês duas tiveram sorte dela ter aparecido porque eram vocês que iriam sofrer no lugar dela. —olha para Roberta e Suelen.

—Eu te imploro, Diogo, não me faça mal. Eu juro que nunca mais eu fujo, eu juro!

—Você vai comigo para a Bolívia, vai passar uma temporada lá e quem sabe assim veja a boa vida que tinha aqui e aprenda ser grata! E você Suelen vai junto.

—O quê? Eu não quero ir, Diogo.

—Você não tem o que querer, Suelen!

—Vá guria, vá. —disse Roberta.

—Não, Diogo! Não me leva! —gritava Amélia sendo arrastada por Diogo para fora da casa.

—Vamos, Suelen! —gritou Diogo.

Suelen seguia Diogo e Amélia em direção a caminhonete.

Na aldeia e dentro de uma oca, um policial federal conversava com Anahí e Sami.

—Eles invadiram nossas terras e nos ameaçaram. Os Toriba se defenderam, perdemos guerreiros e nossa cacica Jaci, estamos de luto e choramos lágrimas de sangue. —disse Sami.

—Vocês falaram que esses homens são de um garimpo, sabem onde fica? —perguntou o policial.

—Sim, eu sei onde fica e quem é o dono do garimpo. —respondeu Anahí.

Fernanda entra no quarto e ver Anderson pensativo e olhando para a janela.

—Marcos já foi embora.

—Eu sei, eu ouvir toda a conversa de vocês.

—Anderson… —se aproxima dele.

—Fernanda, eu nunca imaginei que um dia eu pudesse dizer isso…que te fiz sofrer tanto, minha ribeirinha…eu fui um egoísta, pensei somente em mim e te deixei…foi eu que escolhi te deixar e seguir a minha vida com Verônica…eu não posso continuar agindo do mesmo jeito com você sendo egoísta, se o Marcos te faz feliz, se você o ama…então eu te deixo livre, eu não vou mais insistir que você fique comigo.

Fernanda se senta na cama e ele se vira de frente para ela.

—O que aconteceu, Anderson?

—Eu vivi casado com Verônica e amando você e sei o quanto essa situação só traz infelicidade. Eu quero paz, Fernanda. Eu estou cansado de tantas mentiras e de fazer aqueles que amo sofrerem. Vou me divorciar de Verônica e depois disso não me verás mais.

—Não se afasta do seu filho.

—O guri do mato já é adulto, logo vai casar com a índia e vai ter um monte de guris correndo por aquela fazenda a fora.

—Eu desejo que você seja feliz, Anderson.

—Vou recomeçar, tantos recomeçam e retomam suas vidas de um jeito melhor. Nanda, se não for pedir muito, me deixa sozinho.

—Tudo bem. —saiu e fechou a porta do quarto.

Anderson virou-se para a janela e começou a chorar em silêncio, pois o doía ter tomado aquela decisão de desistir de Fernanda mesmo a amando. Foram seus anos de vida em que agiu apenas decidindo o que queria sem se importar com os sentimentos dos outros, ele estava acostumado a ganhar, mas hoje aceitou perder o que negou que já havia perdido há anos o amor da ribeirinha, será?

Darlan estava dentro da cabana quando de repente a polícia federal invade suas terras e os garimpeiros começaram a fugir do local. Um garimpeiro entra na cabana.

—Seu Darlan, fuja, seu Darlan! É a polícia!

Darlan corre para fora da cabana, sobe numa moto e sai em alta velocidade pela mata.

Anoiteceu e na sala do casarão da Dois Rios, Anahí chega e ver Rafael, Luana, Inácio e Jacinta.

—Inácio! —o abraçou chorando. —A cacica Jaci morreu em combate, outros Toriba também morreram e alguns feridos. Foi terrível a cena que eu vivi. Eu lutei bravamente, defendi os Toriba.

—Sinto pela cacica Jaci, era uma pessoa tão boa e gentil. Você está bem?

—Sim, estou.

—Vimos pela televisão o que aconteceu na aldeia, que cena lamentável. Ficamos com os corações aflitos, minha filha, de você lá no meio daquela guerra. —disse Luana a abraçando.

—Pela televisão também vimos que a polícia chegou lá no garimpo do Darlan, prendeu alguns garimpeiros, mas ele fugiu. —falou Rafael.

—Aquele covarde fugiu e não ficará impune por muito tempo. —disse Inácio.

—Então, isso significa que todos nós estamos em perigo principalmente vocês Anahí e Inácio. —falou Jacinta.

—Não podemos ter medo do Darlan, vamos enfrenta-lo. —disse Anahí.

O celular de Inácio toca e ele atende.

—Alô, pode falar, mãe. Sim, assistimos pela televisão. O Darlan fugiu. A Anahí acabou de chegar na fazenda, sim, está tudo bem com ela. O pai já sabe? E como ele reagiu? —continuou falando pelo celular com a mãe enquanto Rafael e Jacinta prestam atenção nele.

Anahí se aproxima de Luana.

—Vem comigo, mãe.

Conduz a mãe no canto mais afastado da sala.

—A cacica Jaci antes de voltar a casa do Grande Espírito, me nomeou a nova cacica dos Toriba.

—Fico orgulhosa que ela tenha te escolhido como a nova cacica, porém isso também significa que você não vai mais morar com a gente, vai morar na aldeia, filha?

—Sim.

—E como fica você e o Inácio?

—Mãe, vou esperar que tudo se acalme e quando toda essa situação se resolver vou dizer ao Inácio. Peço que isso fique entre a gente.

Na estrada, Diogo dirigia a caminhonete enquanto Suelen estava sentada ao lado dele e Amélia sentada no banco de atrás.

—A gasolina vai acabar. Eu tenho que parar no posto.

—Para nesse aí. —apontou Suelen.

Diogo entra no posto e estaciona o carro para abastecer.

—Eu quero ir no banheiro, por favor. —disse Amélia.

Ele a olha pelo espelho da caminhonete.

—Não!

—Eu também quero ir, Diogo. Eu vou com ela, não se preocupe, comigo ela não escapa. —falou Suelen.

—Vão as duas, mas se tentar fugir eu te mato, Amélia!

Amélia e Suelen saem da caminhonete e vão direto para o banheiro e entram.

—Eu tenho um plano, nós duas vamos nós livrar do Diogo.

—Por que está me ajudando, Suelen?

—Porque estou cansada de viver assim presa a ele. Eu quero a minha liberdade, Amélia, e também porque eu descobrir que a tia Roberta não é nossa tia de verdade, não somos primas.

—Como descobriu?

—Eu ouvi ela conversando com a vizinha e disse que nós sequestrou. A gente foi roubada, Amélia, tiradas das nossas famílias.

—Por que ela fez essa maldade? Por que nos sequestrou?

—Pra viver como ela sempre viveu: nós vendendo em troca de dinheiro. Amélia, essa é a nossa única chance de se livrar do Diogo.

Alguns minutos depois Suelen e Amélia andam em direção a caminhonete onde está Diogo. Suelen entra na caminhonete e Amélia corre.

—Ela tá fugindo, Diogo!

—Maldita! Vem cá, sua vagabunda! —saiu para fora da caminhonete e correu em direção a Amélia.

Suelen rapidamente pega a arma de baixo da cadeira do motorista, sai da caminhonete e aponta a arma em direção ao Diogo.

—Diogo! —gritou Suelen.

Ele leva um tiro nas costas e cai no chão. Amélia para e ver o corpo de Diogo, e Suelen se aproxima.

—Você o matou. Você não me disse que ia fazer isso, Suelen!

—Fuja, Amélia! Fuja!

—E você?

—Não se importe comigo! Fuja enquanto é tempo! Vai!

Amélia corria desesperada pela estrada enquanto Suelen escuta Diogo agonizando.

—Suelen…por que fez…isso…comigo?

Suelen se agachou e ficou de frente a ele.

—Você não me deu outra opção, Diogo, era você ou a minha liberdade… —chorava.

—Eu pensei…que me…amava…

—Eu te amo…te amo, Diogo, mas você preferiu a Amélia do que a mim. Me perdoa…Diogo—o beija.

Diogo pega a arma que estava na cintura e atira nas costas de Suelen.

—A dívida está paga. —sussurra Diogo.

Os dois morrem um do lado do outro.

Dias se passaram não se teve mais notícias de Darlan. Em uma tarde, Sami estava na mata fechada e sentado na terra quando que soprou um vento forte sobre a vegetação e uma onça pintada se aproxima e fica de frente para ele.

—Grande Espírito e o que sua sabedoria quer me revelar?

Sami olhou nos olhos da onça e entrou em transe e neste exato momento a leitora ou o leitor voltará no tempo do Brasil colônia, na época que os bandeirantes abriram os caminhos nas terras tupiniquins. A região é a mesma de onde se é a cidade de Corumbá, e havia uma vila no qual morava fidalgos e comerciantes enquanto no lugar mais afastado onde se é o povoado de riacho paraíso estava localizado o acampamento de um grupo de bandeirantes. Em uma manhã, índios e escravos africanos trabalhavam no garimpo numa cachoeira em frente ao acampamento.

Darlan e Anderson nesta vida passada não eram pai e filho e sim dois bandeirantes que estavam parados ao lado das margens da cachoeira.

—É o suficiente? —Darlan entrega uma sacola de couro para Anderson.

Anderson abre a sacola e despeja vários diamantes na mão.

—Tudo isso por causa daquela índia? —apontou para Anahí que estava dentro de uma jaula um pouco distante dos dois.

—Ela é minha índia, minha e de ninguém mais.

—Então, ela é sua. —riu.

—Espere! Não venda, Anahí! Dom Anderson! —gritou Inácio.

Inácio não era filho de Anderson, e sim um padre Jesuíta que catequisava os índios e uma figura bastante popular e querida na região.

—Não se meta em meus negócios, padreco! —gritou Darlan.

—Por favor, por tudo que mais sagrado não venda a índia Anahí. —falou em frente a Anderson.

—Ele já me vendeu! Você perdeu, padreco! Qual interesse é esse com esta índia? Não me diga que quer se divertir também com ela. —gargalhou.

—Me respeite, Dom Darlan! Sou um sacerdote!

—Isso não significa nada, santidade. Conheço muitos como você que se escondem por trás de uma batina, mas por são um bando de beberrões, ladrões e que não negam se divertir entre as saias de uma mulher. —riu.

—Eu não sou esse tipo de sacerdote. O senhor deveria ir conhecer o meu trabalho com a catequese com os índios, eu te convido…

—Padreco, eu tenho mais o que fazer do que ficar assistindo missa que vamos concordar que é muito desgastante.

—Jesuíta, infelizmente você chegou tarde. Dom Darlan me pagou e muito bem pela índia e não sou homem de desfazer os meus tratos. —disse Anderson.

Anderson tinha respeito e admiração pela figura de Inácio como sacerdote e por sua amizade com sua esposa Fernanda que nesta existência eram devidamente casados.

—Ele vai usa-la! Tem piedade desta índia, Dom Anderson!

Anderson sai.

—Padreco! Vai cuidar de ensinar os índios a rezar e não se meta nos meus assuntos! —apontou a arma no rosto de Inácio.

—Dom Darlan, tenha misericórdia. Pode me prender ou me matar, mas deixe a índia em paz. A devolva a Dom Anderson ou a liberte.

—Se eu te matar vou ter problemas com os seus superiores, aliás será que eles sabem que o jesuíta Inácio realiza as missas junto de práticas pagãs?

—Eu tenho o meu jeito de catequisar os índios, não estou fazendo nada demais…

—Está, e eu tenho muito conhecimento e influência. É só uma palavra minha que o jesuíta perde a batina. Não se meta no meu caminho, padreco intrometido! —o empurra.

Darlan segue em direção a jaula onde está Anahí.

—Abram a jaula! Essa índia é minha propriedade! —gritou aos lacaios.

Os lacaios abrem a jaula e tira a índia de dentro que estava com as mãos e os pés presos em uma corrente. Ela olhava em desespero para Inácio que se sentia impotente com aquela situação.

O jesuíta Inácio retornou a capela e começou a ouvir as confissões dos fieis até que Fernanda se senta no confessionário, nesta vida não eram mãe e filhos e sim grande amigos e confidentes.

—jesuíta Inácio, sou eu a Fernanda, esposa de Dom Anderson.

—O que traz aqui, dona Fernanda? Quais foram os seus pecados?

—Novamente flagrei o meu marido com a amante, a prostituta Verônica. Estou arrasada, me sinto humilhada. Eu quero voltar para o São Paulo, não sou feliz aqui, não sou.

—Dona Fernanda, o casamento é uma sagrada comunhão com Deus, o que Deus uniu o homem não separa.

—Eu sei, mas não aguento tanta humilhação. Dom Anderson admite que casou comigo por interesse no dote por eu ser filha de um Barão, e eu me enganei ao ser seduzida por ele.

—Já pensou em como será a vida da dona após pedir o desquite de Dom Anderson? A sociedade não perdoa e renega uma mulher desquitada.

—Acha certo que eu fique casada e sofrendo? Eu não suporto mais sofrer! Eu amo o Dom Anderson e sinto ódio por ele ficar se deitando com uma rameira!

 —Perdoe o senhor seu marido, dona Fernanda, perdoe não permita que essa aventura destrua o seu casamento.

—Essa aventura já me destruiu, mas como sou uma mulher temente a Deus, eu vou perdoar o meu marido mesmo sabendo que ele vai continuar a me enganar com a rameira porque não quero ir para o inferno. Mudando de assunto: o senhor meu marido me disse que vendeu a índia Anahí para Dom Darlan, eu lamento por isso, jesuíta Inácio. —olha para os lados e fala em tom mais baixo. —eu sei o quanto aquela índia é importante para o senhor.

—Me sinto um inútil, um impotente. Não consegui livrar a nativa Anahí das mãos de Dom Darlan.

—O jesuíta a ama.

—Como irmã.

—Não, a ama como mulher e não tente negar. Sabe que pode contar comigo com o que precisar, jesuíta Inácio, eu prezo por vossa amizade.

De noite, a índia Anahí estava presa as correntes ao lado da escrava africana Amélia que também se encontrava amarrada as correntes dentro de um quarto. Amélia gritava de dor, suas costas estavam abertas de feridas após ter levado um castigo.

—O que houve com vosmecê? —perguntou a índia.

—Tentei fugir…o capitão do mato Diogo me encontrou…apanhei no tronco até desmaiar…porque não quis…passar…mais uma…noite…com Dom Darlan.

Logo, entra Maurício que trabalhava como feitor e levanta Anahí.

—O patrão quer vosmecê. —deu uma risada irônica.

—Não! Socorro! —tentava se desvencilhar dele.

Maurício dá uma tapa em Anahí que cai no chão.

—Não tente escapar, índia, será pior…nega Amélia ter sobrevivido foi uma benção…

O feitor a levanta bruscamente.

—Escute o conselho da negra escrava porque talvez vosmecê não tenha a mesma sorte que ela. —gargalhou.

Ele arrastou Anahí para fora do quarto a levanta para dentro do quarto de Dom Darlan. O feitor abre a porta e joga a índia para dentro que cai no chão aos pés do seu senhor.

—Aqui está patrão.

—Vá e não quero que me incomodem.

Maurício sai e fecha a porta. Dom Darlan puxa Anahí pelos braços e a joga na cama.

—Agora vosmecê será minha, minha índia. —se joga em cima dela e a beija a força.

Após alguns dias em uma noite o Jesuíta Inácio ajudou na fuga dos índios e escravos africanos do acampamentos dos bandeirantes. Nas margens dos rios, Dom Anderson e Dom Darlan e outros bandeirantes ficaram sabendo da fuga.

—Eles fugiram! Os malditos escravos fugiram!

Diogo, o capitão do mato, se aproxima de Dom Anderson e Dom Darlan.

—Peguei uma escrava a nega Suelen, ela disse que quem ajudou os negros e os índios foi o jesuíta Inácio.

—Padreco infeliz! Traidor! Não merece nosso dízimo na capela dele! Ele tem pagar por ter ajudado na fuga! Tem que pagar caro! —disse Darlan.

—Não temos certeza se foi mesmo o jesuíta Inácio.

—Dom Anderson, sempre esteve cego com o Jesuíta Inácio, todos do acampamento e a vila comenta.

—Sobre o quê?

—Que a senhora sua esposa se encontra as escondidas com o Jesuíta Inácio.

—O que disse? —segurou pelo colarinho da blusa.

—É a verdade. —o empurrou. —Todos daqui sabem. —apontou para os outros bandeirantes. —Vai continuar a defender aquele padreco mentiroso? Ele gosta de se aproveitar de nossas mulheres, todas elas são afeiçoadas a ele, da mulher mais rica a uma escrava negra ou índia, ah! sim, eu sei que ele gosta da minha índia, mas ela é minha! Minha índia!

—Não posso deixar que…

—Vamos juntos se unir e destruir esse jesuíta!

Os bandeirantes e seus capangas entre estes eram os feitores e os capitães do mato seguiram em direção a capela.

—O jesuíta Inácio não está aqui!

—Vamos procura-lo canto por canto dessa mata, ele tem que aparece e nós devolver nossos escravos!

Maurício se aproxima.

—Capturamos um índio e ele disse que o Jesuíta Inácio está indo em direção a casa de Dom Anderson.

—Eu vou acabar com esse jesuíta! Vamos homens! —gritou Anderson.

Em frente a cachoeira, jesuíta Inácio e Anahí caminhavam entre as pedras.

—Não adianta, jesuíta, eles vão nós pegar. —disse a índia.

—Eu não vou permitir. Eu sempre vou proteger você, índia Anahí. —a abraça.

—Te amo como mulher. Me amas como homem?

—Sim. Estou cometendo um pecado por te amar. Não justo que eu tenha que ficar entre o seu amor e o amor à Deus.

—Você pode amar a mim e ao seu Deus.

Ele beija a índia.

—Me perdoa, Deus, me perdoa. Eu já não sou mais um servo teu, não sou mais seu sacerdote. Voltei a ser um leigo e amo essa mulher. Me espere aqui, Anahí, me espere nesta cachoeira porque eu vou na casa de Dona Fernanda e volto para te buscar.

—Promete que você volta, jesuíta Inácio?

—Me chame de Inácio. Sim, eu prometo. —a beija. —A gente vai se reencontrar e vamos viver o nosso amor, Anahí. —a beija e sai.

Inácio seguem em direção a casa de Dom Anderson, e encontra dona Fernanda na sala.

—Estão a sua procura, jesuíta Inácio. O que faz aqui?

—Vim avisar que Dom Darlan vai fazer uma emboscada contra Dom Anderson.

—Por causa de quê?

—Por causa do mapa da nascente. Dom Darlan sabe que Dom Anderson tem o mapa da nascente que leva ao El Dourado.

—Isso é mentira. Essa nascente não existe e como esse El Dourado também. O senhor meu marido não tem nada a ver com esse mapa.

—Se tem ou não, estou apenas aqui para avisar que tomem bastante cuidado. Estou fugindo, deixei meu sacerdócio e vou viver o meu amor com a índia Anahí.

—Obrigada, jesuíta Inácio. Desejo que seja feliz. —o abraça.

De repente escuta-se os gritos de Dom Anderson.

—Fernanda! Onde vosmicê está?

 Ele invade a casa e encontra a esposa enquanto Inácio está escondido atrás de uma móvel.

—Traidores! Onde está o jesuíta Inácio? O seu amante! Diga onde ele está?

—Não está aqui! Não somos amantes!

—Amigos? Todos sabiam e menos eu. A senhora minha esposa fez por vingança!

 —Não! Não fiz nada de errado, é tudo um grande engano. —disse dona Fernanda.

—Eu vou vingar a minha honra! —procurava Inácio pelos cantos da sala.

Logo, Dom Darlan entra na sala.

—Nenhum passo a mais, Dom Anderson.  —apontou a arma na cabeça de Dom Anderson.

—O que está fazendo, Dom Darlan, somos amigos, somos bandeirantes.

—Me dê o mapa da nascente ou eu atiro.

—Não! Não atire no meu marido! —gritou Fernanda.

—A senhora não se meta, dona Fernanda!

—Dom Anderson, abaixe a arma e jogue-a no chão.

—Dom Darlan não existe nenhum mapa, essa nascente é uma lenda assim como é o El Dourado. —abaixou a arma e jogo no chão.

—Mentiroso! —arrastou a arma para perto dele, a pegou e colocou na cintura. — Diga onde está o mapa da nascente ou mato vosmicê e a senhora sua esposa.

—Que mapa é esse, meu marido?

—Não sei, não há mapa algum.

—Eu perdi a paciência. —o empurra. —Vou matar você, Dom Anderson, vou casar com a tua mulher, tomar os seus bens e o mapa da nascente!  Serei mais rico que o Rei! —ele atira em direção ao casal.

Dom Anderson fica à frente da esposa e Inácio sai do esconderijo e fica na frente do casal.

—Não!

Inácio toma um tiro no peito e cai morto no chão. Dona Fernanda se ajoelha ao lado do corpo do jesuíta e chorava descontroladamente.

—Não! Jesuíta Inácio!

Outros bandeirantes chegam e contém Darlan que gargalhava ao ver Inácio morto sendo este um aspecto real da manifestação da sua loucura.

—Morto está o seu amante. —disse Dom Anderson ao lado.

—Ele não era meu amante, ele veio aqui para me avisar que Dom Darlan estava planejando uma emboscada contra você…por causa do mapa da nascente… —chorava abraçada ao corpo do sacerdote.

—Está mentido para defender seu amante e esconder sua traição.

—Acredite no que quiser, marido. Os meus olhos viam nesse jesuíta o amor de uma mãe para com um filho…a mulher que estava no coração dele era a índia Anahí. Eu disse que não a vendesse, eu disse…vosmicê vendeu ela….

No outro dia pela manhã o corpo de Inácio era velado na capela que estava lotada de fieis, índios, negros, pessoas de todas as classe que simpatizavam com o jesuíta. De repente entram Rafael e Luana correndo pelo corredor da capela, os dois nesta vida eram os pais de Inácio, o casal era fidalgos que moravam na vila.

—Meu filho! —abraçou o caixão. —Meu filho! Mataram meu filho! —gritava a mãe.

A dor de Luana lhe rasgava a alma, é a dor de uma mãe que perde o seu filho. Rafael chorava ao lado da esposa e a consolava. Dona Fernanda e Dom Anderson estavam sentados na primeira fileira. Agora peço que o leitor e a leitora retorne ao presente junto com o pajé Sami e que tudo que se foi mostrado sobre a vivência de outra vida destes personagens fique entre nós e o pajé. A onça pintada desapareceu na mata e o pajé abre os braços e olha para o alto.

—Está explicado. Eles precisam se amar, aprender a se perdoar…para enfim…evoluírem…Oh! Grande Espírito, agradeço.

 

Anahí estava sentada nas pedras da cachoeira quando de repente Darlan a surpreende por trás e tampa a boca dela.

—Como vai, minha índia? Sentiu saudades de mim?

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Raphaelle Leandro

Raphaelle Leandro

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