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Um filho para Sarah – Capítulo VI

Capítulo VI

            Sarah caiu da cama. Não havia ninguém com ela, apenas a chuva do lado de fora. Nenhuma mosca na janela, marimbondos ou bruxas. Aos poucos sua respiração voltou ao normal, e o clima fresco amenizou o suor. Estaria ficando louca? Fora um sonho ruim? Tudo parecia tão real. Ela buscou o roupão no armário. Mesmo sem ver as roupas de Pedro esparramadas pelo chão, sabia que ele tinha voltado. Sentiu seu cheiro durante à noite, e isso não fora um sonho.

            Ela desceu as escadas devagar, prestando atenção nos outros quartos. Ainda sentia o cheiro podre do escravo.  Fora impregnada por um sonho ruim? Havia luminosidade na sala, a mesa do café da manhã fora posta e ouvia-se o murmurejar de Conceição.

_ Fora um sonho, apenas um sonho _ ela precisava repetir em voz alta, para aliviar as tensões entre as pernas.

Da varanda, viu o marido na chuva. Onofre e mais dois homens estavam com ele. Tinha alguém desmaiado sobre o cavalo. Ela não quis se aproximar, apenas cruzou os braços sobre o peito.

            _ Vá chamar Conceição. Peça que traga água quente e o unguento dos escravos.

            _ O que aconteceu? Quem carregas no cavalo?

            _ É um caçador de negros, Senhorinha _ Onofre cumprimentou-a com um balanço de cabeça _ Tá muito machucado.

            O homem que chamavam de Ruivo abriu os olhos. Ela não se lembrava de tê-lo visto por aquelas bandas. Sendo homem bonito, lembraria do seu rosto. Pedro levou-o para o casebre que fora de Berenice, ao pé da Casagrande. Havia panos limpos nos armários. Sarah esperou que sumissem lá dentro para dar suas ordens à escrava. Quais seriam as dores daquele rapaz? Que sua visita não atrapalhasse o cotidiano da Fazendo do D’Ouro.

***

            O capitão do mato gemia ao toque do unguento na pele. Pedro coçava o queixo, desgostoso com a situação. Não poderia deixá-lo naquele estado, seria ruim para os negócios. Ruivo era um caçador de negros, e apesar de nunca ter prestado serviços para o D’Ouro, havia certas camaradagens entre os Senhores de engenho que deveriam ser respeitadas; entre elas, cuidar aqueles que prezam por seus escravos.

            _ Vá ao Porto, Onofre, e avise ao médico. Peça que venha até o D’Ouro. Depois siga para o Recife e chame pelo delegado.

            _ Sim, sinhô _ o capataz sentiu-se aliviado em deixar a fazenda. Os últimos acontecimentos arrepiaram as pregas do seu cu. Sentia-se temeroso. Precisava esfriar a cabeça. Uma viagem até o Recife colocaria suas ideias no lugar.

            _ Vá sozinho, mas espere a chuva amenizar. Pegue um dos cavalos. Deixe a carroça para o caso de Sarah precisar.

            Onofre assentiu com a cabeça.

            O ruivo olhava para a Senhorinha do D’Ouro, que desconcertada, falou com o marido:

            _ Achas que há algum tipo de bicho bravo na fazenda?

            A pergunta serviu para disfarçar seu acabrunhamento com o homem.

            _ Talvez um cachorro do mato.

            Conceição fez o sinal da cruz quando terminou com o unguento.

            _ Isso é serviço do Coisa Ruim _ a escrava torceu o nariz para o ruivo. _ A besta ronda a Fazenda do D’Ouro.

            Os ferimentos nas costas de Josué pareciam feitos de forma simétrica, como se o animal que o atacou o tivesse abraçado.

            _ Deixa de bestagem mulher, ou te coloco no tronco.  _ Onofre arrumou o chapéu na cabeça _ Vá cuidar do seu serviço na cozinha, vá.

            A escrava saiu  chateada com os maus modos do capataz.

            _ Cuida da comida dele, Sarah. Obrigue Conceição a cozinhar para ele. Assim que Onofre chegar com o médico, mandamos o homem para Recife.

            O Ruivo dormia de bruços agora. Sarah olhou uma última vez para ele.  Tinha o semblante descansado. Pelo visto, a dor passara. Pedro puxou-a pelas mãos, para que Onofre pudesse resolver as coisas. Não queria ver a mulher envolvida com os problemas do D’Ouro. Que se preocupasse com as coisas de casa.

            _ Como foi sua noite?

            _ Descansei o suficiente para recebê-lo no meu leito, senhorzinho _ o riso forçado de Sarah não causou espanto no marido. Ele só enxergava aquilo que queria ver.

            Onofre passou por eles apressado. Apearia seu cavalo baio no estábulo. Quando o tempo melhorasse, pegaria o rumo do Porto. Tinha pressa em deixar a Fazenda do D’Ouro.

***

            Onofre arreou o cavalo no final da tarde. Pegou o que precisava no quarto e arrumou sua matula. Juntou mais duas mudas de roupas limpas e as enrolou num lençol. A chuva abrandou com o cair da tarde, deixando a Fazenda sobre um chuvisco fraco. Na cozinha da Casa Grande, fez sua refeição. Não pegaria a estrada com o bucho vazio. Talvez precisasse parar para descansar por uma noite ou duas, e não queria caçar bichos do mato para comer. Mandou, então, que Conceição lhe fizesse alguma provisão, para que não fosse pego de surpresa pela fome.

            _ Aquele homê é coisa ruim _ a escrava entregou uma marmita para ele _ O sinhô devia deixa ele morre, isso sim. Tem diabo no corpo. Eu senti o cheiro de enxofre nele.

            _ Diacho, mulher! Já disse pra mantê essa língua dentro da boca, _ o capataz não dava conversa para os negros. Não era de mostrar os dentes. _ Quando volta não quero ouvi suas histórias sobre o Ruivo. O delegado vai leva ele embora. Então se aquiete se não quiser ir pro tronco.

            Não havia troncos na Fazenda do D’Ouro. Mas a simples menção dele assustava os negros e os mantinha no lugar.

            Onofre subiu no cavalo. Conceição não fez questão de se despedir.

_ Que Deus acompanhe ocê, fio.

O capataz franziu a testa. Sempre achou aquela velha estranha, mas, dessa vez, achou que estava caducando. A despeito do que pensara Onofre, Conceição sabia que não o veria mais. A sombra da besta caminhava ao lado dele.

***

            Sarah não se fazia de rogada em ficar sobre Pedro. As últimas horas tinham sido intensas, com estocadas vigorosas de extremo prazer. Sentia-se plena ao recebê-lo no leito. Apesar do prazer que sentia, o que construira com o marido deixara de ser amor há muito tempo. O sexo se transformara numa selvageria. As doces carícias cederam espaço para o enrosco bruto, sem delongas e direto ao assunto. E não fora diferente naquela noite, dia em que o Ruivo chegara na Fazenda do D’Ouro.

            Assim que terminaram de jantar, se sentaram na sala. Trocaram algumas palavras rápidas, tomaram um café e subiram para o quarto. Pedro arrancou sua roupa com a brutalidade costumeira. Ele gostava de vê-la assim: submissa. Desejava que a mulher não engravidasse. Com uma criança pequena em casa, o sexo seria casual. Não se sentia confortável em dividi-la com uma criança. Se Sarah engravidasse, teria que dar um jeito. Ela não permitiria ser tocada por ele daquele jeito novamente. Seu corpo seria todo do menino. Uma disputa desleal. Sarah não compartilhava dos pensamentos do marido. Simplesmente acompanhava o fluxo do desejo, deixando que a essência dele invadisse seu corpo.

***

            Onofre deu um tiro na cabeça do cavalo. Os guizos da cascavel assustaram o baio, que no caminho esburacado da caatinga, quebrou sua perna direita em dois lugares. Desgostoso por perder sua montaria de lida, o capataz do D’Ouro apontou o revólver para o réptil e sapecou três tiros à queima roupa. O animal saltou na lama. Onofre pegou sua matula. Não chegaria em Porto de Galinhas sem um cavalo.

            A chuva havia passado, mas o frio dos últimos dias não. O caminho de volta nunca fora tão árduo. Pedro não gostaria de vê-lo chegando sem o cavalo; e muito menos acreditaria que uma cascavel o atacou num tempo frio como este. Onofre deu meia volta nos calcanhares (era melhor tentar chegar ao Porto do que enfrentar os destemperos do Sinhozinho). Compraria outro cavalo no Porto. Com sorte, o patrão nem perceberia a troca dos animais.

            Para encurtar o caminho até Porto de Galinhas, pegou um trieiro dentro da caatinga. Nunca vira o chão tão úmido. O mundo em que vivia não era de chuva, mas de pedra e cascalho, de galhos secos e carcarás.  Talvez a cobra que atacara o seu cavalo tenha se assustado com o clima soturno, assim como ele. Não era de se aperrear com pouca coisa, mas por precaução pegou o terço no bolso. Quando se está acabrunhado, uma oração é sempre bem-vinda. 

            Mesmo no lamaceiro do chão, a coisa se arrastava. Os barulhos dos guizos batendo numa pequena poça d’água. A cobra se mantinha unida pelos fiapos do seu couro. Avistava-se suas vísceras arrebentadas pela pólvora e o buraco de uma das balas na cabeça.

_ Meu Deus do Céu! _ Onofre ainda se lembrava do sinal da cruz. _ Que Deus me perdoe!

Onofre disparou mais duas vezes na cascavel. Os pedaços dela ficaram pelo caminho. Ele continuou andando, tinha pressa em chegar.

***

Os gemidos vinham em ondas cadenciadas pelas quatro paredes do quarto. Era como cavalgar um cavalo bravo: tão arredio quanto o curso de um rio.  Tinha de ter coragem, segurar pelos cabelos e fazer a espora funcionar. Caso contrário, Sarah grudava nele como um animal selvagem, mordendo seu ombro, lhe arrancando sangue. Se enfiar nela dava vigor, um prazer que não queria abrir mão. Como seria se pegasse uma negra quando a mulher engravidasse? Quanto mais pensava nisso, mais excitado ficava.

O ritmo das ancas do marido trazia esperança para Sarah. Era uma questão de tempo até que engravidasse. A natureza viril de Pedro lhe daria um menino; um herdeiro para a Fazenda do D’Ouro. Na última estocada, lembrou do cego e da revelação sobre o marido.

_ Ele não pode te dá um fio.

Preto abusado.

Ela o enlaçou com as pernas, sabendo que receberia sua semente. Os espaços entre os corpos ficaram diminutos entre um gemido e outro. Pedro puxou-a pelos cabelos, forçando sua cabeça no travesseiro. Era hora de friccionar as esporas.

***

            Onofre puxava uma das pernas. Há tempos queria uma bota nova, mas nunca se deu ao trabalho de comprar. Tinha outras prioridades, as do armário dariam para o gasto. Nunca pensou que pisaria num espinho, e que o danado se enfiaria pelo buraco no solado. Uma baita falta de sorte!

            A cascavel espichou sua língua bifurcada na frente dele. Os olhos vermelhos de um predador esperando pela chegada da presa. O capataz se aproximou coaxando o quadril e recebendo uma mordida na perna. Ele sentiu a picada de uma agulha.

_ Louvado seja o senhor! _ A cascavel de outrora olhava para ele. A rabo sibilava do outro lado da caatinga, enquanto a outra metade de corpo avançava na Caatinga.

Onofre segurava a arma sem precisão; click, click, não havia balas no tambor. A besta subiu nele, seus pedaços expulsando as tripas. Ela o mordeu no rosto e pescoço. O capataz se enfiou na lama, tentando se afastar pela mata rala do trieiro. As mordidas vinham carregadas de veneno. A dor se esparramou pelo quadril de Onofre feito fogo no capim seco.

Onofre foi até onde deu. Seu corpo entrou em erupção. A cobra sibilou ao longe, esguichando veneno por sua bocarra escura. Quando percebeu que a presa estava entregue ao Inferno, o que dominava a serpente abandonou-a. Seus pedaços chamaram a atenção dos carcarás. A matula de Onofre ficou presa num arbusto. Não demoraria para que os carniceiros avançassem sobre ela inebriado pelo cheiro da comida de Conceição.

            ***

Sarah gritou sentido a tepidez no ventre. O líquido da vida corria para dentro dela. Pedro ficou calado; o coração acelerado, as pernas trêmulas e cansadas. Sentira prazer? Claro que sim. Pensara na negra o tempo todo, sem se importar com a esposa. Era bom fantasiar, tirava seu casamento da monotonia. Ele rolou para o lado, trazendo Sarah para perto do peito. Os dois adormeceram como um casal apaixonado.

POSTADO POR

Sylvana Camello

Sylvana Camello

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