Um filho para Sarah – Capítulo VII

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Capítulo VII

_ Eu não vô leva comida pra ele não, Sinhá _ Conceição mexia as panelas na cozinha _ O Sinhozinho Pedro me põe no tronco se quiser, mas não vou levar comida ‘praquele’ demônio.

_ Deixe de besteira, Ceiça. O homem logo será levado embora daqui. Enquanto isso, precisamos alimentá-lo.

_ Ele tem fogo no olho, Sinhá. Não gosto da cor do cabelo dele.

A herdeira do D’Ouro não mostrava os dentes para os escravos. Mas dessa vez, Conceição conseguiu fazê-la sorrir.

_ Que cor tem o Inferno, Ceiça? _ Perguntou, divertida.

 _ Vermelho, Senhorinha, vermelho!

Sarah pegou a bandeja com a comida. Onofre não voltava nunca do Porto, precisava com urgência de escravos na casa. O serviço estava ficando pesado para a velha Ceiça.

O barraco em que morava Berenice tinha teto baixo e a cor do adobe. Fora construído pelos primeiros escravos do D’Ouro (uma época em que o avô ostentava um imenso tronco de jatobá na frente da casa). Quando herdou a fazenda, decidiu em comum acordo com Pedro que seus escravos teriam boa vida. Assim produziam melhor na lida.

A porta estava encostada, Sarah empurrou-a com o pé. O homem olhava para ela sem camisa.

_ A negra não quis me alimentar dessa vez? _ Perguntou divertido.

_ Não quis obrigá-la _ Sarah colocou a bandeja no pé na cama _ já está velha e merece algumas regalias.

O homem pegou a bandeja. As marcas nas costas começavam a cicatrizar. Ele parecia bem.

_ O senhor sabe o que o atacou?

 O Ruivo comeu um pedaço de pão.

_ Não senhora. Quando despertei estava no meio da sua plantação.

Sarah ficou perto da porta.

_ A senhora tem medo de mim? Compartilha dos mesmos temores da escrava?

 _ Claro que não. Conceição é uma preta velha, nada além disso.

_ Já cacei muitas como ela. Um trabalho fácil e de boa remuneração. São como cadelas de estimação.

O que mais intrigava Sarah era o jeito janota do homem falar. Capitães do Mato são homens broncos, de fala brejeira. Aquele tinha boa falácia. Somente as mãos calosas mostravam sua origem humilde.

_ Vou pedir para que um dos homens faça o curativo no Senhor. Ainda precisa de cuidados.

 _ Obrigado, Senhora.

O Ruivo puxou a bandeja para o colo.

 _ Como se chama? Aqui tem a alcunha de Ruivo.

 _ Josué. _ Dessa vez não mostrou os dentes _ Meu nome de batismo é Josué.

 _ Tem família, Josué?

_ Uma bem grande, com três filhos fortes.

Novamente os dentes brancos no meio da barba ruiva. Sarah deixou-o com a bandeja, não queria mais prosa. Que Onofre o levasse do D’Ouro. Não gostava do seu português perfeito e do jeito que olhava para ela. Era melhor arranjar alguém para trazer a comida. Que fosse um homem. Que Josué da boa falácia ficasse longe de suas negras.

***

Pedro mastigava uma lasca de fumo. Fazia longe da esposa e da Casa Grande. Sabia que ela não gostava de vê-lo remoendo aquilo. Já brigara com ele diversas vezes por causa disso. Se o fizesse de novo, ficaria sem seu leito por no mínimo uma semana. Isso não seria bom. Não mesmo.

A demora de Onofre no Porto o deixava preocupado. O homem não era de se atrasar, e a presença de um Capitão do Mato na fazenda deixava seus negros aperreados. Se não voltasse no outro dia cedo, iria atrás dele. Precisava do seu capataz. O corte da cana se aproximava, época em que os escravos tentavam fugir.

Por outro lado, não gostava do Ruivo. O trouxe para a fazenda por uma questão humanitária. Mas o queria bem longe. Não gostava do jeito como olhava para Sarah e sua negrinhas, parecia vê-las sem roupa. Que ficasse longe delas, que não ousasse se engraçar com sua esposa. Não seria difícil de se livrar dele. A Fazenda do D’Ouro era grande. Qualquer pedacinho de gleba serviria para enterrá-lo ainda vivo.

Pedro não quis chamar pela esposa na varanda, deixou que fosse para a cozinha. Precisava tomar algumas providências. De um jeito estranho, passou a olhar diferente para as negras. Sentia-se incomodado quando as via. Talvez pegasse uma no mato (seria sua primeira vez). Já era hora de se libertar de Sarah. Apesar de amá-la, não lhe daria poder sobre ele. Precisava de um refúgio, de uma escrava. Seu pai fizera uso delas quando vivo. Era uma prática comum entre os senhores de engenho. Não deixaria que sua mulher lhe colocasse freios.

***

Passaram-se uma semana e Onofre não havia voltado. Até Sarah comentou com Pedro a demora dele no Porto.

_ Creio que tenha acontecido alguma coisa _ os olhos dela presos no rosto preocupado do marido.

_ Diacho! – Pedro bateu seu chapéu de palha na mesa do jantar _ Não gosto da presença desse Caçador de Negros na fazenda. Mas não posso mandá-lo embora.

_ Por que não? Creio que suas feridas estejam curadas.

_ Está com o pé inchado. Talvez esteja quebrado _ Sarah não se lembrava de vê-lo mancando. _ Se colocá-lo para fora agora, os Senhores de Engenho não vão me dar apoio. A presença dele no D’Ouro já se espalhou. Não posso simplesmente enfiá-lo na carroça e mandá-lo embora.

_ Sinto que a presença dele te incomoda.

_ Incomoda mais aos negros. Não quero que fiquem acabrunhados comigo antes da colheita. Alguns acreditam que o Ruivo traz má sorte.

O suspiro de Sarah soou cansado.

_ O que pretendes fazer?

_ Conversei com Januário, da Fazenda Dois Lamentos, vamos atrás de Onofre _ ele olhou para Sarah – Sandro e Pardinho vão ficar de olho na Casa Grande enquanto estou de viagem. Vai ficar protegida se ficar dentro de casa. Não tem com que se preocupar.

Sarah não queria que Pedro fosse para o Porto. Sentia-se insegura sem ele por perto.

_ Não os quero dentro de casa.

_ Já dei ordens, não se preocupe.

_ Quem vai alimentar o homem? Conceição prefere o tronco.

_ Pardinho. Já conversei com ele.

Sarah assentiu com a cabeça.

_ Hoje não vou lhe dar amor. Preciso de um boa noite de sono. O dia de amanhã será puxado.

Sarah sorriu com os olhos.

 _ Não se preocupe, vou lhe dar descanso.

Depois do jantar, adormeceram abraçados na cama. Pela manhã, Pedro saiu com Januário para a caatinga. Precisava colocar um fim na história do Ruivo. A colheita se aproximava, e com ela, a audácia dos negros.

***

Os escravos pegaram na lida logo cedo. Os homens de confiança da Fazenda do D’Ouro redobraram a guarda sobre a cana de açúcar. Sarah não se atentou para o beijo do marido na face enquanto dormia. Quando despertou, ele já havia saído com Januário. Ela se levantou para o café da manhã com o dia claro. Sentia-se letárgica, com vontade de voltar para a cama.

_ Pardinho levou a comida para o Ruivo? _ Perguntou, tomando sua xícara de Café.

_ Tamo fazendo como seu Pedro pediu. A sinhá não precisa se preocupar.

Melhor assim. Não queria se meter naquele casebre de novo.

O dia seguiu tranquilo, com Pardinho e Sandro cuidando das coisas. O tempo chuvoso dera lugar ao sol escaldante do Nordeste, com muito calor e umidade. A cana de açúcar crescia verde, com talos robustos de folhagem escura. Teriam uma boa colheita naquele ano, diferente da anterior, que agregara prejuízo às contas do D’Ouro.

No final do dia, os negros foram levados para a senzala. Pardinho olhava para Sarah com o chapéu nas mãos, tinha algo para falar, mas lhe faltava coragem.

_ Diga logo, homem? O que queres dessa vez?

_ São os negros, Sinhá _ Pardinho não gostava de olhar para a Senhora do D’Ouro. Ela era muito bonita para os olhos dele. _ Eles querem fazer a ceia.

Pedro pedira para não estressá-los, porque eram como burros chucros, quando empacados, padeciam na colheita E não adiantava chicoteá-los, tinham o couro grosso.

_ Leve dois leitões temperado. Deixe que façam suas festas. Só não quero bebidas perto deles.

_ Sim Senhora.

Pardinho foi para a cozinha conversar com Conceição. Haveria tambores naquela noite. Sarah pediria um chá para Ceiça. Sem Pedro, demorava para pegar no sono. E com o barulho dos negros, era quase impossível dormir. Ela entrou e se aquietou na sala. Precisava urgentemente de um banho frio.

***

Vassoura olhava para Sarah da cozinha.

_ Se ele te chamar, deite-se com ele.

Ela despertou molhada de suor. Sentia seu coração batendo no ritmo dos tambores. Conseguia ouvi-los do quarto, tão sonoros como se estivessem ao pé da cama. Maldita hora que Pedro fora atrás de Onofre! Maldito dia em que o preto cego chegara na Fazenda do D’Ouro!

Sarah pegou seu roupão no cabideiro. As tochas do lado de fora estavam acesas. Da janela via-se as labaredas que subiam acima da senzala.  Exalava um cheiro bom, de comida boa. A porta se abriu sem que tocasse nela. Não se lembrava de tê-la deixado aberta.

Sarah andou para fora da casa, tinha necessidade de puxar ar puro para os pulmões. O casebre do ruivo estava mergulhado na bruma mortiça da noite. Há dois dias não o via. Mais uma das recomendações de Pedro.

_ Não quero vê-la perto daquele homem. Mantenha distância do Ruivo até eu voltar.

Um vento forte apagou duas tochas na plantação. A varanda adquiriu o tom bruxuleante da noite

_ A senhora não precisa ter medo. A noite vem cheia de segredos.

O Ruivo falava com ela na varanda. Não o vira chegando, muito menos o reverberar de alguém por perto.

_ O que faz aqui? _ a gola do roupão de encontro ao peito _ Não deve andar por aí no adiantado da noite. É perigoso. Temos negros bons de briga.

O Ruivo sorriu. Os dentes brancos como marfim.

_ Digo o mesmo para a senhora.

Sarah se afastou devagar.

_ Do que tens medo, Sarah? _ Perguntou quando percebeu que ela queria voltar para à casa grande.

_ Eu não estou com medo.

Josué segurou-a pelo braço, jogando-a de encontro à parede.

_ Posso dar aquilo que desejas.

_ Não sei do que falas.

_ A Senhora sabe sim. Posso ler o desejo em ti.

_ Se não me soltar vou gritar, senhor.

O Ruivo segurou-a pelos cabelos. Sarah sentia seu hálito quente e suas pernas entre as suas.

_ Aceite o seu destino, mulher. Estou aqui para lhe dar um filho.

_ Enlouquecestes, homem? Eu tenho um marido! Um homem viril que me ama.

_ Pedro não pode engravidá-la. Creio que a senhora já tenha conhecimento do assunto.

Sarah tentou empurrá-lo com o joelho. O hóspede indesejado afastou seu roupão, rasgando sua camisola na altura dos seios.

_ Vou mostrar que posso engravidá-la. Se aceitar o que ofereço de bom grado, terás um filho com a cara de Pedro.

O Ruivo apertou um dos mamilos de Sarah. Ela tentou se livrar, mas ele era forte, assediando-a como se fosse uma prostituta qualquer. 

_ Só precisa se deitar comigo.

Ela sentia suas mãos quentes sobre seus seios. Os círculos que fazia em volta de suas auréolas eram delicados, diferentes dos arroubos de Pedro. A razão dizia para afastá-lo, mas o prazer não. Quando parou de lutar, sentiu aquela tepidez entre as pernas. Josué apertava seus mamilos com a boca, sugando-os como um bebê. Sarah gemeu como uma gata no cio. Quando perto de atingir o prazer através das carícias dele, um líquido quente escorreu do seu seio direito. O Estranho olhou-a com olhos intensos, quase negros. Havia leite em suas mãos. Ele mostrou-o para ela.

_ Eu posso engravidá-la _ sussurrou em seus ouvidos _ Vem até mim amanhã. Vou lhe dar um filho.

O Ruivo saciou sua fome no leite materno de Sarah. Ela voltou a gemer sem se preocupar com o adiantado da hora.

 

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