XII – A Escudeira de Gudwangen

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Kapittel tolv

XXIII – Quando o seu mundo desabar

Na calada da noite gelada as jovens escudeiras Kaira e Dimithria sairam do casebre. Vinte minutos de caminhada no meio da floresta e chegariam de volta à vila de Gudwangen. O monge Bishesmun as acompanhou até a porta e ainda pediu para que tomassem cuidado, pois estava com um mau pressentimento.

– Os deuses estão conosco. – disse Kaira sorridente.

Os deuses não agem conforme nossas vontades. Não naquela noite. Ao chegarem no início do caminho de terra batida em meio à floresta, as duas jovens foram surpreendidas por Éower e mais três homens parrudos. Eles pararam em frente à elas, que arregalaram seus olhos sem ter para onde fugirem. Éower deu o sinal e dois dos homens seguraram as escudeiras, desarmando-as.

– Acabou escudeiras. Já sabemos de tudo. – disse Éower. – Amarre-as uma em cada árvore. Tanus, fica de vigia. Nós três vamos até o casebre pegar o monge e o jovem fujão. – complementou ainda o viking de tapa-olho.

Kaira e Dimithria se olharam apavoradas enquanto eram amarradas às árvores. Sabiam que iriam se complicar quando retornassem à vila e nem os deuses poderiam ajudar.

Alguns minutos depois

O som das folhas sendo pisadas pelo chão no interior da floresta se conectavam com o silêncio daquela caminhada criando uma atmosfera lugúbre. Pelos troncos das altas árvores escorria água do sereno da madrugada, como se a floresta chorasse. Castelli e o monge estavam com as mãos amarradas e iam na frente seguidos de perto por dois dos homens parrudos. Mais atrás, Kaira e Dimithria, também com as mãos amarradas, eram acompanhas de outros dois homens. Mais atrás Éower os seguia.

Kaira tinha vontade de chorar, assim como aquelas árvores estavam chorando. Tentou lançar um olhar para Dimithria, mas foi impedida pelo homem nas suas costas que lhe deu um forte empurrão, quase a levando ao chão.

– Em silêncio, jovem Kaira. – disse Éower vendo a cena. – Thórin não vai gostar nada, nada de saber que você está por trás de tudo isso.

E assim seguiu aquela caminhada. O som do vento ecoava pela floresta se misturando às pisadas nas folhas no chão. Éower, que ia mais atrás, começou a assobiar. Seu cântico remetia à lembranças tristes. Foram vinte minutos que mais pareceram uma hora.

Chegaram na vila de Gudwangen ainda no calar da noite. Todos dormiam, menos Earl Sigmund que aguardava ansioso por respostas em seu trono no grande salão. O estrondo da porta se abrindo despertou a atenção do Earl, que surpreendeu-se ao ver as duas jovens escudeiras. Ele se levantou. Os dois vikings que a acompanhavam, empurraram-nas ao chão diante dele.

– Estas duas estavam acobertando os dois. – disse um dos homens.

Sigmund desceu do palco e se aproximou das duas jovens. Sorriu debochadamente enquanto elas mantinham o olhar envergonhado fitando o chão.

– E onde eles estão? – perguntou Sigmund.

Éower surgiu na porta.

– Já estão presos no celeiro. Tanus está de vigia. – disse o viking de tapa-olho.

– Duas escudeiras de minha confiança. Duas guerreiras natas nos campos de batalha…o que farei com vocês? Sabem que o que fizeram não tem perdão, não é mesmo? – dizia o Earl enquanto andava de um lado para o outro.

As duas jovens escudeiras demonstravam todo o medo que estavam sentindo através dos seus olhares. De repente um estrondo se ouviu abrindo a porta, e envolto em um agasalho negro, surgiu Thórin despertando a atenção do Earl.

– Thórin, meu amigo. – começou o Earl.

– Sigmund, serpente negra, deixe as meninas… – disse Thórin se aproximando.

Os dois vikings que levaram as jovens até ali se interviram impedindo a passagem de Thórin. Sigmund sorriu e ergueu a não direita pedindo que eles se afastassem.

– …deixa que eu as punirei. – continuou Thórin.

– Ora, ora, meu amigo… – disse o Earl parando em frente à Kaira e acariciando seus cabelos de fogo.

Kaira olhou para cima encarando Sigmund. Tinha o medo no olhar, mas ao mesmo tempo sabia que poderia sentir-se segura porque Thórin estava ali. E nele ela podia confiar.

– …esse é um caso para quem é Earl aqui da vila. Sabes da gravidade do que elas fizeram? – perguntou Sigmund.

Thórin encarou a jovem apreensiva. Dimithria mantinha o olhar fitando o chão. Seu pai Katous não estava ali para defendê-la assim como Thórin estava para Kaira.

– Fiquem calmas. – disse Thórin para as meninas.

XXIV – Os pesadelos do jovem fazendeiro

Tudo o que se via era escuridão. Um cheiro forte de fumaça emanava com as cinzas que rodeavam aquela colina. O jovem fazendeiro Britanyum estava deitado sob uma árvore. Parecia machucado.

Ao longe se ouvia sons agressivos de falcões em um céu quase invisível pelas cinzas. Britanyum assistia inerte à muitas mortes naqueles campos de batalha que nunca havia experienciado. Chamas se seguiam entre tochas e flechas. Mais abaixo mil escudos . Tudo era confusão, tudo era gritaria, palavras de guerra, citações à Valhalla.

– Shield wall! – gritavam alguns guerreiros protegendo-se na parede de escudos.

– Por Valhalla! – ouvia-se outros dizendo.

Um som começou fraco e foi chegando aos seus ouvidos. O barulho foi se fazendo mais nítido e, por fim, identificou-se como uma roda de moinho que parecia girar desengonçada fazendo um rangido em meio às cinzas. Abaixo desta, corria um fio de água cristalina. Ao olhar de volta para a roda, Britanyum se deparou com a figura de um homem velho, com seus pés e mãos atadas e na altura dos seus ombros o seu pescoço era detido por raízes. Aquela figura parecia aprisionada à roda, e a cada girar o seu corpo era mergulhado na água cristalina.

Em volta tudo era escuridão. Apesar da aparente tortura, o homem se mantinha sereno.

– O conhecimento é um castigo, Britanyum. Uma nova era se aproxima e fazer as coisas certas, você deve. E o dom, que antes pertencia somente aos deuses, encontrará seu fim.

– Eu não pedi pelo dom dos deuses, velho Meimir. – respondeu Britanyum com uma voz rouca.

– Você não tem escolha! – respondeu o velho com uma voz firme que ecoou por toda a colina.

Lá embaixo os guerreiros agora estavam todos caídos. Corpos pelo chão, armas abatidas. Membros decepados.

Deitados na cama sobre um agasalho de lã, Syggia e o jovem Britanyum estavam com seus corpos nús. Ela observou o fazendeiro se debater e sentar-se na cama assustado, branco como os flocos de neve que costumavam cair em Gudwangen.

– Você está bem? – disse Syggia sentando ao seu lado e o acalentando em seus braços.

Britanyum, ainda apavorado com o seu pesadelo, fixou seus olhos na claridade que começava a entrar pela janela entreaberta.

– O Earl vai chegar à qualquer momento. Eu preciso ir. – disse ele.

– Pelos deuses! – disse Syggia se levantando rápido. – Vista-se! você precisa mesmo ir. – continuou ela catando as roupas do jovem e jogando para ele.

Britanyum vestiu-se rápido, mas antes de sair ainda agarrou a mulher nua pela cintura encarando aqueles olhos que o hipnotizavam.

– Você precisa ser só minha. – disse ele.

– Um dia… – respondeu serena ela.

Syggia ergueu um pouco a cabeça alcançando seus lábios aos lábios dele e o beijou calorosamente.

– … está perto do fim. Nós vamos embora daqui. Os deuses reservam algo pra nós. – disse ela.

Syggia olhou para fora.

– E será fora de Gudwangen, meu amor. – complementou ela.

– Como? – perguntou Britanyum.

– Agora tu precisa mesmo ir. Vá, vá. – falou Syggia. – E numa próxima vez vamos ouvir o que o oráculo tem a nos dizer. – complementou ela lhe beijando mais uma vez.

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